Depois de muito tempo e oito tentativas para escrever este artigo, consegui, finalmente, apontar com precisão para um e apenas um tema e fazer com que ele fizesse algum sentido (o que nem sempre é fácil nessa minha mente confusa).
Moramos no pólo-norte, longe da nossa casa no Brasil. Morar longe da sua terra natal é uma experiência que mais e mais pessoas têm tido todos os anos e me interessa muito decompor um componente importante: a saudade.
A saudade não é algo simples. Primeiro porque a própria palavra nem existe em muitas línguas. Para nós, faladores do Português, saudade é aquele sentimento que bate quando percebemos a falta de algo ou de alguém que está lá no passado. Sentimos saudade daquele gosto de um doce saboroso que só comíamos na infância, sentimos saudade daquele ente querido que faleceu, sentimos saudade de tudo aquilo que era bom e ficou para trás.
Quando mora-se longe de casa como nós, a saudade é uma presença constante. Quando bate aquela saudade da sua lanchonete favorita, não tem como ir até ela ou pedir para alguém trazer um lanche de lá. Quando bate aquela saudade de alguém, você olha no relógio e o fuso-horário ou alguma outra limitação não permite contato. Portanto, saber viver e contornar a saudade é muito importante.
Cada um precisa se auto-analizar para entender quais são efetivamente os pontos de saudade. Você não sente saudade de tudo. Certas coisas ou pessoas você poderia totalmente dispensar. Portanto, reduzir a lista de “itens saudosos” para o mínimo possível ajuda a gerenciar o desafio.
Antes de partir do Brasil minha pré-lista incluia apenas três macro-itens: 1) clima, cultura e língua; 2) comida e 3) pessoas.
Por incrível que pareça, era uma lista grande demais e comecei a cortar coisas. Percebi que não compensava o meu esforço pessoal em ter saudade do clima, da cultura a da língua. Para o pouco de saudade da língua, o jornal e o blog resolvem. Clima e cultura deixei de me preocupar.
Para comidas, tentei eliminar ao máximo e me focar em manter saudade apenas daqueles itens com reais chances de serem encontrados por aqui. Sinto saudade de muitas comidas mas focalizo naquelas poucas e raras chances de matar a saudade de uma ou outra delas. Sei que isto parece idiota mas deixa de ser ignorável quando você sonha todos os dias de uma semana inteira com aquela picanha suculenta.
O mais complicado de gerenciar são as pessoas. Isto porque todo o contato com elas não depende apenas da sua parte e sim dos dois lados.
Preciso confessar que também sou um otimista quando o assunto são “os outros”. Lembrava da minha época de namoro: eu lá em São Paulo e minha atual esposa em Londres durante um ano. A saudade batia mas a comunicação era ruim. A internet ainda era coisa rara (principalmente na Inglaterra) e o nossos sistema de telefonia brasileiro chegava a cobrar absurdos 3 dólares por minuto de ligação.
A tecnologia estava contra a nossa comunicação e matar a saudade era uma atividade impossível reservada apenas para longas cartas. Jogava a culpa da minha saudade nessa “maldita tecnologia e atraso dos Ingleses”. Para mim, um mundo mais conectado encontraria facilmente os caminhos da comunicação e a saudade passaria a ser menor.
Como praticamente todas as pessoas que conheço e que tenho saudades têm acesso à vários computadores por dia, achei sinceramente que a tecnologia nos aproximaria como se não estivéssemos tantas milhas de distância. Mas eu estava enormemente enganado. Embora existam exceções à regra, a maioria das pessoas não responde às expectativas e eu acho que entendo o porquê.
São duas as principais razões:
1) Pouca familiaridade
Embora a tecnologia esteja aí, disponível e acessível à todos, a grande maioria das pessoas ainda tem pouca familiaridade com os recursos. Publiquei efusivamente meus números de telefone locais em SP, as pessoas ligariam e eu atenderia aqui na Finlândia como qualquer VoIP do século passado deveria fazer. O conceito porém, é muito elaborado para a maioria das pessoas e, na mente delas, se você não está em SP, não adianta ligar para aquele número.
Até o simples e-mail ou blog são ferramentas que muitas pessoas ou não utilizam por falta de conhecimento ou, mesmo fazendo uso diário, possuem pouca familiaridade com a comunicação escrita. O mesmo vale para os sistemas de mensagem instantânea.
Sempre acreditei que a ferramenta certa deve ser utilizada para o fim ideal. Você não aperta um parafuso com uma faca (creio eu - se você o faz, compre uma chave-de-fenda, por favor). Do mesmo modo, você não se comunica com alguém à distância sem usar qualquer meio intermediário (telefone, internet ou sinal-de-fumaça que seja).
A pequena familiaridade das pessoas com a tecnologia ou a existência de uma pseudo-familiaridade (aquela embutida na sua mente pela rotina e pela sociedade) não ajudam quando “matar saudades” é o tema.
2) Desvio de contexto
A falta de familiaridade tecnológica é um ingrediente da mistura mas o principal componente é o desvio de contexto. Demorou para eu perceber isso. É impossível requerer níveis de comunicação razoáveis quando os contextos se afastam.
Explico: quando existe a presença física ou pelo menos palpavelmente próxima do outro, seus contextos se entrelaçam. Vocês podem conversar sobre a novela, ou sobre as últimas notícias do planalto, ou recontar aquela piada que ouviu do chefe no escritório. Os contextos ficam próximos e se sobrepõe criando uma área comum que pode ser expandida ao longo do relacionamento.
Mas, assim que você fica fisicamente tão distante como nós, os contextos e suas áreas de contato vão reduzindo. Manter os contextos se sobrepondo já é uma atividade trabalhosa quando se está próximo, quando a distância bate então, vira uma atividade bem complexa a que a maioria das pessoas não está disposta nem ao menos preparada para fazer.
Dessa forma, mesmo com a tecnologia disponível, os contextos se afastam. O nosso mundo de neve e frio vai ficando distante do calor e da poluição de São Paulo. O nosso contexto de uma cultura estruturada na confiança vai ficando distante da cultura da desconfiança brasileira e os pontos de comunicação vão sendo menores e menores. O desvio de contexto vai sendo cada vez maior até o ponto onde a comunicacão já quase não existe.
Conclusão
Se por um lado agora consigo entender o processo que tantos amigos meus passaram quando saíram do Brasil, por outro fico relativamente triste pelo fato, até porque, ingenuamente, imaginava que amigos se esforçariam para manter os contextos alinhados fazendo uso da tecnologia disponível.
Isto explica muita coisa na verdade. Lembro dos amigos que abandoram até a língua materna no processo de mudança e isso faz muito sentido agora. Lançaram mão de uma ferramenta que não estava servindo aos únicos propósitos aos quais ela poderia ser útil: manter os contextos e matar a saudade. Se eu não precisasse do Português em casa e não mantivesse essa área ativa para manter contato com o pessoal do Brasil, certamente que o abandonaria para dar espaço para coisas mais úteis.
Prometo não visitar mais este assunto no blog até porque, como um Queniano amigo meu comentou sabiamente comigo outro dia:
“Eles [amigos da terra natal] nunca vão ver as coisas pelos seus olhos. Eles nunca vão experimentar o que você está experimentando.”