Só para Mágicos e Finlandeses

Uma grande empresa recrutava novos gerentes recentemente. Os requisitos básicos se resumiam em:

Os candidatos precisam ter pelo menos duas graduações, sendo uma delas MBA em Economia, Marketing ou Negócios. Outro requisito é ter dois anos de experiência profissional, de preferência nas áreas de telecom, TI, mídia ou consultoria. Além disso, é necessário ter morado em pelo menos dois países e ser fluente em duas ou mais línguas, sendo o inglês obrigatório.

Numa primeira olhada achei os requisitos altos demais. Ter um MBA mais experiência profissional mais morado em dois ou mais países e falar inglês e pelo menos mais uma língua! Sinceramente? Depois de anos de rodagem, ainda estou longe desses requisitos.

E pior: a empresa estava buscando novos talentos, ou seja, recém-formados!

Olhando para o sistema acadêmico Finlandês entretanto fiquei muito assustado. A grande maioria dos recém-formados já sai das faculdades com boa parte desses requisitos senão todos.

Assim que o aluno entra na faculdade ele já é direcionado para um plano de mestrado. Para chegar ao MBA é só escolher as matérias e o diploma correto. Nada mais.

Os alunos têm várias oportunidades de estágio muitas vezes no exterior dentro de programas de intercâmbio. É bem comum que alunos façam vários intercâmbios em vários países antes de se formar. Tudo financiado pelo governo, vale lembrar.

No processo, aprendem as línguas locais e, claro, ainda têm o inglês e o finlandês que já são obrigatórios desde o primário.

Já o nosso processo tupiniquim é complicado. Entrar numa boa faculdade requer ou resultados excepcionais e dedicação total (para o sistema público) ou um apoio financeiro por detrás (para o caríssimo sistema privado). Em ambos os casos, o apoio financeiro acaba sendo obrigatório porque estudar no sistema público sem ter como comer ou chegar até a faculdade é um problema. A maioria dos estudantes acaba precisando se dividir em sub-empregos para auto-financiar de forma bem limitada os seus estudos - que não podem ser muito caros - lembre-se.

Mesmo dentro do universo das melhores faculdades do país, não são todas que possuem acordos de intercâmbio internacional. O inglês, embora matéria de vestibular, é mau explorado no primário e secundário. Chegam nas faculdades um batalhão de alunos que reclamam se um professor passa bibliografia em Inglês.

Conseguir um Finlandês recém-formado que se encaixe nos requisitos é bem simples. Um brasileiro, muito complicado.

Tiago Luchini · 29 Nov 2007 · finland

Gerenciando a Saudade

Depois de muito tempo e oito tentativas para escrever este artigo, consegui, finalmente, apontar com precisão para um e apenas um tema e fazer com que ele fizesse algum sentido (o que nem sempre é fácil nessa minha mente confusa).

Moramos no pólo-norte, longe da nossa casa no Brasil. Morar longe da sua terra natal é uma experiência que mais e mais pessoas têm tido todos os anos e me interessa muito decompor um componente importante: a saudade.

A saudade não é algo simples. Primeiro porque a própria palavra nem existe em muitas línguas. Para nós, faladores do Português, saudade é aquele sentimento que bate quando percebemos a falta de algo ou de alguém que está lá no passado. Sentimos saudade daquele gosto de um doce saboroso que só comíamos na infância, sentimos saudade daquele ente querido que faleceu, sentimos saudade de tudo aquilo que era bom e ficou para trás.

Quando mora-se longe de casa como nós, a saudade é uma presença constante. Quando bate aquela saudade da sua lanchonete favorita, não tem como ir até ela ou pedir para alguém trazer um lanche de lá. Quando bate aquela saudade de alguém, você olha no relógio e o fuso-horário ou alguma outra limitação não permite contato. Portanto, saber viver e contornar a saudade é muito importante.

Cada um precisa se auto-analizar para entender quais são efetivamente os pontos de saudade. Você não sente saudade de tudo. Certas coisas ou pessoas você poderia totalmente dispensar. Portanto, reduzir a lista de “itens saudosos” para o mínimo possível ajuda a gerenciar o desafio.

Antes de partir do Brasil minha pré-lista incluia apenas três macro-itens: 1) clima, cultura e língua; 2) comida e 3) pessoas.

Por incrível que pareça, era uma lista grande demais e comecei a cortar coisas. Percebi que não compensava o meu esforço pessoal em ter saudade do clima, da cultura a da língua. Para o pouco de saudade da língua, o jornal e o blog resolvem. Clima e cultura deixei de me preocupar.

Para comidas, tentei eliminar ao máximo e me focar em manter saudade apenas daqueles itens com reais chances de serem encontrados por aqui. Sinto saudade de muitas comidas mas focalizo naquelas poucas e raras chances de matar a saudade de uma ou outra delas. Sei que isto parece idiota mas deixa de ser ignorável quando você sonha todos os dias de uma semana inteira com aquela picanha suculenta.

O mais complicado de gerenciar são as pessoas. Isto porque todo o contato com elas não depende apenas da sua parte e sim dos dois lados.

Preciso confessar que também sou um otimista quando o assunto são “os outros”. Lembrava da minha época de namoro: eu lá em São Paulo e minha atual esposa em Londres durante um ano. A saudade batia mas a comunicação era ruim. A internet ainda era coisa rara (principalmente na Inglaterra) e o nossos sistema de telefonia brasileiro chegava a cobrar absurdos 3 dólares por minuto de ligação.

A tecnologia estava contra a nossa comunicação e matar a saudade era uma atividade impossível reservada apenas para longas cartas. Jogava a culpa da minha saudade nessa “maldita tecnologia e atraso dos Ingleses”. Para mim, um mundo mais conectado encontraria facilmente os caminhos da comunicação e a saudade passaria a ser menor.

Como praticamente todas as pessoas que conheço e que tenho saudades têm acesso à vários computadores por dia, achei sinceramente que a tecnologia nos aproximaria como se não estivéssemos tantas milhas de distância. Mas eu estava enormemente enganado. Embora existam exceções à regra, a maioria das pessoas não responde às expectativas e eu acho que entendo o porquê.

São duas as principais razões:

1) Pouca familiaridade

Embora a tecnologia esteja aí, disponível e acessível à todos, a grande maioria das pessoas ainda tem pouca familiaridade com os recursos. Publiquei efusivamente meus números de telefone locais em SP, as pessoas ligariam e eu atenderia aqui na Finlândia como qualquer VoIP do século passado deveria fazer. O conceito porém, é muito elaborado para a maioria das pessoas e, na mente delas, se você não está em SP, não adianta ligar para aquele número.

Até o simples e-mail ou blog são ferramentas que muitas pessoas ou não utilizam por falta de conhecimento ou, mesmo fazendo uso diário, possuem pouca familiaridade com a comunicação escrita. O mesmo vale para os sistemas de mensagem instantânea.

Sempre acreditei que a ferramenta certa deve ser utilizada para o fim ideal. Você não aperta um parafuso com uma faca (creio eu - se você o faz, compre uma chave-de-fenda, por favor). Do mesmo modo, você não se comunica com alguém à distância sem usar qualquer meio intermediário (telefone, internet ou sinal-de-fumaça que seja).

A pequena familiaridade das pessoas com a tecnologia ou a existência de uma pseudo-familiaridade (aquela embutida na sua mente pela rotina e pela sociedade) não ajudam quando “matar saudades” é o tema.

2) Desvio de contexto

A falta de familiaridade tecnológica é um ingrediente da mistura mas o principal componente é o desvio de contexto. Demorou para eu perceber isso. É impossível requerer níveis de comunicação razoáveis quando os contextos se afastam.

Explico: quando existe a presença física ou pelo menos palpavelmente próxima do outro, seus contextos se entrelaçam. Vocês podem conversar sobre a novela, ou sobre as últimas notícias do planalto, ou recontar aquela piada que ouviu do chefe no escritório. Os contextos ficam próximos e se sobrepõe criando uma área comum que pode ser expandida ao longo do relacionamento.

Mas, assim que você fica fisicamente tão distante como nós, os contextos e suas áreas de contato vão reduzindo. Manter os contextos se sobrepondo já é uma atividade trabalhosa quando se está próximo, quando a distância bate então, vira uma atividade bem complexa a que a maioria das pessoas não está disposta nem ao menos preparada para fazer.

Dessa forma, mesmo com a tecnologia disponível, os contextos se afastam. O nosso mundo de neve e frio vai ficando distante do calor e da poluição de São Paulo.  O nosso contexto de uma cultura estruturada na confiança vai ficando distante da cultura da desconfiança brasileira e os pontos de comunicação vão sendo menores e menores. O desvio de contexto vai sendo cada vez maior até o ponto onde a comunicacão já quase não existe.

Conclusão

Se por um lado agora consigo entender o processo que tantos amigos meus passaram quando saíram do Brasil, por outro fico relativamente triste pelo fato, até porque, ingenuamente, imaginava que amigos se esforçariam para manter os contextos alinhados fazendo uso da tecnologia disponível.

Isto explica muita coisa na verdade. Lembro dos amigos que abandoram até a língua materna no processo de mudança e isso faz muito sentido agora. Lançaram mão de uma ferramenta que não estava servindo aos únicos propósitos aos quais ela poderia ser útil: manter os contextos e matar a saudade. Se eu não precisasse do Português em casa e não mantivesse essa área ativa para manter contato com o pessoal do Brasil, certamente que o abandonaria para dar espaço para coisas mais úteis.

Prometo não visitar mais este assunto no blog até porque, como um Queniano amigo meu comentou sabiamente comigo outro dia:

“Eles [amigos da terra natal] nunca vão ver as coisas pelos seus olhos. Eles nunca vão experimentar o que você está experimentando.”

Tiago Luchini · 20 Nov 2007 · finland

Seu nome é feio?

Meu nome não é dos melhores. Muita gente gosta de colocar um H entre o T e o I. Talvez isso até explique porque falamos “Tchiago” ou “Tatchiana”. Mas, fazer o que? Já se foram 30 anos carregando esse nome nas costas e mais algumas dezenas de anos pela frente. Até discípulo carregou esse nome, por que eu não? (se bem que era algum original em Hebraico… isso não vem ao caso)

Com o tempo, aprendi a gostar do dito cujo mas, quando acontece algo como hoje, você fica na dúvida.

Um email trocado entre alguns finlandeses acabou chegando em mim. “Tiago” não faz o menor sentido em finlandês principalmente se falado Tchiago como falamos. Primeiro porque não existe o fonema “Tch” e segundo que o G é quase uma rara aparicão para “amaciar” o som do K (onipresente - diga-se).

Alguém que não me conhece escreveu assim no e-mail:

“Onko Tiago mies vai nainen?”

No meu limitadíssimo pseudo-Finlandês, traduzi: “Tiago é homem ou é mulher?”

Realmente gostaria de ter ficado livre do embraco. Seu nome é feio? Você é homem ou mulher?

Tiago Luchini · 16 Nov 2007 · finland

Sinceridade

Uma característica dos Finlandeses que tenho aprendido a apreciar muito é a sinceridade.

O Finlandês não quer saber se você vai gostar ou não da resposta dele. Ele não é político e não vai ficar dando voltas para falar o óbvio. Se ele não gosta de você, ele fala na lata. Se você fez algo que o desagradou, ele fala sem titubear. E não importa à quem a mensagem se dirija. Pode ser para o presidente mais respeitável da empresa, se ele desagradar, será informado.

Engraçado que o Brasileiro é totalmente o oposto. Queremos evitar machucar os outros. Todo mundo é amigo de todo mundo e vamos passando a mão aqui, a mão ali: querendo amaciar todas as diferenças. Esperamos que todo mundo seja feliz como num gigantesco comercial de cerveja. Falamos as coisas com cuidado, sempre aproximando devagar.

Fico no meio desses dois mundos e sinto o universo brasileiro tão fora de sintonia às vezes.

Para resolver um problema profissional um parceiro Finlandês chega, pergunta, resolve e vai embora. Um paralelo brasileiro precisa de um “tempo de aquecimento”, nunca começa sem um bom-dia, boa-noite, etc. Depois quer saber como vão “as crianças lá em casa” (como se meu único filho fosse um batalhão de crianças). Depois de uma ou duas piadas sujas que ele ouviu no dia, ele começa com algo como “olhá, eu não queria incomodar e espero que ninguém do seu time fique chateado mas…”

Deu para entender?

Confesso até que nem sabia direito como descrever uma pessoa sincera com a carga cultural que herdei. Enquanto uma pessoa sincera é aquela que não mente, aprendi desde bem novo que pequenas mentiras (ou “white-lies” como os americanos chamam) fazem parte - às vezes muita parte. Para evitar um white-lie, só fazer alguma dissimulação desde que se lembre que, para o brasileiro, o importante é deixar nunca ser sincero.

Como Sérgio Buarque de Hollanda resumia: somos um povo cordial - o Brasileiro, ser-cordial.

Fico preocupado para onde esta cordialidade nos leva. A cordialidade exagerada a ponto de ser  pura hipocrisia é totalmente descenecessária. A maioria de nós brasileiros está nesta faixa.

Abaixo o famoso vídeo onde o finlandês Kimi Raikkonen é extremamente sincero antes do GP do Brasil de 2006. Nada mais natural…

PS.: se você ouvir da minha boca ou ler da minha escrita algumas sinceridades - tente não se magoar - estou apenas sendo mais prático (aliás, afirmar nossa hipocrisia brasileira não é nada mais do que a mais pura sinceridade).

Tiago Luchini · 12 Nov 2007 · finland

Massacre

O massacre desta semana numa escola aqui da Finlândia causou, como esperado, um rebuliço.

Gostei muito do comentário do meu amigo Eric Gallardo. Segundo ele, a própria idéia de eliminação dos mais fracos e inaptos que acometia o assassino, acabou se consumando na sua própria auto-eliminação. Ou seja, acabou assumindo paradoxalmente que o próprio executor não é apto.

Lendo no jornal daqui (ou tentando pelo menos) descobri que antes de se suicidar o garoto tentou atear fogo no último andar da escola. Espalhou uma garrafa com algum líquido combustível mas não conseguiu atear fogo.

Com esse esclarecimento realmente fica claro que não era um indivíduo muito brilhante. Primeiro porque atear fogo no último andar é muito menos eficiente do que atear fogo num primeiro andar. Segundo que se dar ao trabalho de carregar uma garrafa com combustível e esquecer o fósforo me parece um erro primário.

Ainda bem que o indivíduo não conseguiu um isqueiro emprestado. Teria sido um desastre muito maior.

Outra coisa interessante que notei foi a preocupação das outras escolas em cuidar dos eventuais traumas que o ocorrido pudesse causar nas crianças (de todo o país, diga-se de passagem).

Na quinta-feira, chegando em casa, recebo um e-mail da professora do meu filho. Chama-me minha atenção o grande zelo. Traduzi o e-mail por curiosidade.

“Caros Pais,

Os trágicos eventos de ontem em Tuusula chocaram todos nós. Gostaria de informá-los que o assunto foi discutido hoje com os alunos durante uma aula de Finlandês com a professora de Finlandês e a professora de educação especial e que uma série de crianças da 1a. série A conversaram comigo durante o dia. Após os eventos terem sido discutidos e as crianças terem tido a oportunidade de fazer questões e expressar seus sentimentos, continuamos com um dia relativamente normal.

Caso vocês suspeitem que suas crianças precisem de maiores suporte, por favor entrem em contato com a psicóloga da escola (nome e celular omitidos) ou entrem em contato com as seguintes pessoas:

Psicólogo Diretor da Escola (nome e celular omitidos) Diretora do Bem-estar Social (nome e celular omitidos)

Ademais, o escritório local da segurança social oferece suporte e outros serviços: (nome e celular omitidos)

Informações em Finlandês podem ser encontratadas no seguinte site: www.oph.fi

Tiago Luchini · 9 Nov 2007 · finland

Sã consciência

Muita gente aqui na Finlândia nos questiona o por quê de termos vindo para cá. O questionamento faz sentido: na cabeça de muitos finlandeses e estrangeiros em geral passa algo como “Por que cargas d’água alguém, em sã consciência, deixaria um país ensolarado, cheio de riquezas naturais e repleto de oportunidades para trás?

Não só isso mas o Brasil é um lugar relaxado (onde as pessoas nem precisam trabalhar muito), divertido (só tem feriado, carnaval e festa) e cheio de mulheres lindas (nossas brasileiras só não são corretamente apreciadas no Brasil). Sendo esta a realidade ou não, pelo menos é a propaganda que fazemos.

Por que alguém deixaria esse paraíso em troca da Finlândia?

Se continuarmos nos detalhes, a troca parece ainda mais imbecil. Os níveis de renda aqui na Finlândia são menores do que os níveis de renda da classe média no Brasil. Vou repetir em outras palavras porque poucas pessoas entendem isso: o poder de compra médio do Finlandês é menor do que aquele da classe média paulistana por exemplo. A quantidade de pessoas no Brasil que acha o contrário é assustadora talvez por essa mania de depressiarmos o nosso país.

A Finlândia é um país pobre e sem riquezas naturais. Há poucos anos ainda era um país tipicamente agrícola. Aliás, muito pouca coisa é possível de ser plantada por aqui simplesmente por questão do inverno absurdamente severo. Tudo que é plantado é com um esforço absurdo que beira ao praticamente inviável. Carne? Só das renas e alces que aguentam - mais ou menos - o frio. Riquezas tipicamente naturais apenas mato, água e neve. Muita neve.

Sem nem pensar muito, o Brasil é muito abençoado com os gigantescos recursos que tem. Para realizar uma simples refeição aqui, os finlandeses precisam ralar e muito.

A indústria finlandesa nem chega perto da indústria brasileira em termos de diversidade. Nem montadoras de veículos existem por aqui! Também, existem apenas apenas 5 milhões de habitantes que aliás, se contentam com uma das frotas de veículos mais velhas da Europa.

Durante séculos a Finlândia se viu hora invadida pela poderosa Suécia, hora invadida pela também poderosa Rússia. Quando Suécia e Rússia resolviam se atacar mutuamente, o faziam aqui na Finlândia.

Para negociar independência da Rússia, a Finlândia precisou se comprometer comercialmente e financeiramente com o império Russo. Em alguns livros de história o acordo é chamado literalmente de extorsão.

Aqui se fala o Finlandês, língua de origem Finno-Úgrica e que só é falado aqui e em nenhum outro lugar do planeta. As duas línguas irmãs (Estoniana e Húngaro) estão mais para primas do que propriamente irmãs. O Brasil tem o Portugês, terceira língua ocidental mais falada no mundo (atrás do Espanhol e Inglês). Dominamos também facilmente as outras línguas ocidentais mais faladas e temos o ocidente inteiro para fazer negócios sem muitas dificuldades.

Por que alguém deixaria o Brasil em troca pela Finlândia?

Já aprendi a responder este tipo de questionamento bem rapidinho para não entrar em detalhes desnecessários. Geralmente respondo perguntando se a pessoa gostaria de morar numa cidade com 22 milhões de habitantes disputando os mesmos trabalhos, as mesmas riquezas e os mesmos espaços. A maioria das pessoas nem consegue imaginar esse cenário e não entra em maiores detalhes.

Nós, brasileiros, não sabemos valorizar o que temos. Achamos que os além-mares são sempre melhores. Os livros de história e sociologia já nos explicam esse fenômeno: nascemos com os olhos voltados para a Europa e para os EUA. Deixamos de ser brasileiros em troca de migalhas derrubadas pelos “irmãos” do norte.

Deixamos de fazer aquilo que é nosso se tornar algo dignamente especial porque especial mesmo é o que vem de fora, é o importado. Viajar de São Paulo para Miami é mais barato do que o trecho São Paulo para muitas cidades no Brasil. E faz sentido: toda a classe média para cima quer fazer compras em Miami porque lá sim as coisas são chiques! Ninguém quer visitar Petrolina. Chique mesmo é levar os filhos para a Disney - não para o interior de Minas.

No caminho vamos perdendo aquilo que Deus nos deu. Vamos perdendo um povo alegre, etinicamente diversificado, culturalmente rico em troca dos lixos importados. Esquecemos das riquezas naturais que temos e importamos gás-natural da Bolívia para gerar energia para nossas casas. Esquecemos que a hidro-elétrica de Itaipu, uma das maiores obras de engenharia do mundo, foi feita com suor, sangue e, acima de tudo, com a inteligência e diplomacia do povo brasileiro. Mas deixamos os Chineses copiar tudo do jeito que bem entendem, afinal, eles são importados: devem saber o que estão fazendo.

Invejamos os políticos honestos dos outros países que fazem história mas aceitamos levianamente não só os nossos políticos corruptos mas também, acima de tudo, uma corrupção entremeada no nosso dia-a-dia; nas pequenas coisas. Somos todos coniventes de um sistema corrupto.

Reclamamos da violência mas erguemos muros, contratamos seguranças e blindamos carros. Não queremos a violência perto de nós mas aceitamos que ela aconteça ao nosso redor desde que não nos afete. Desde que aquele indivíduo que morra seja o filho do outro e não o seu; azar dele. Somos hipócritas e egoístas.

Fazemos o mesmo com saúde, educação e tantos outros direitos básicos: corremos para proteger aquilo que é nosso e esquecemos os direitos dos outros. O que importa é dar educação e saúde para seus filhos; se os filhos dos outros estão doentes e com uma escola fraca é porque eles merecem de alguma forma doentia e maléfica. Somos cegos para os outros e só enxergamos porcamente o nosso próprio umbigo.

Isso vai subindo: claro. Nosso presidente manda os filhos para estudar no exterior (afinal, tudo que vem de fora é infinitamente melhor, não é mesmo?) e depois facilita uns contratos públicos para os filhos ficarem milionários (afinal, ter uma “forcinha” não é mau nenhum, não é mesmo?).

Enquanto isso, milhares de crianças quase não sabem ler e participam de programas escolares de fachada compostos por professores mau-pagos e que, por si só, sabem pouco mais que aquelas crianças. Mas quantos milhares de filhos da classe média também não estão se beneficiando de escolas infinitamente melhores do que aquelas crianças do interior ou da periferia? Incorremos no mesmo crime que nosso presidente - só mudamos a escala. Aceitamos as coisas com muita facilidade.

Queria ter orgulho do meu país não pelo seu futebol medíocre ou pelo seu povo alegre, mas principalmente porque o povo se levanta para mudar as coisas.

Como temos um povo leniente, apático e egoísta, na atual situação, não consigo ter orgulho - apenas pena e tristeza - dois sentimentos que preferia não ter.

Tiago Luchini · 7 Nov 2007 · finland

Seleção Natural

Assassino

Nesta quarta-feira cerca de 11:00 AM - horário local, um estudante causou pânico e várias mortes num colégio na cidade de Tuusula.

Infelizmente não se trata de mais um caso típico norte-americano e sim o de uma pacata cidade 60Km ao norte de Helsinque, aqui na Finlândia. Casos de violência são extremamente raros na Finlândia e este foi o primeiro caso do tipo na história.

O caso se parece mais ainda com os norte-americanos pois o estudante publicou textos, fotos e vídeos na internet antes de cometer o crime. Os links para os materiais estavam disponíveis antes mesmo de o caso ter sido resolvido e enquanto a escola continuava cercada pelos policiais.

Em seu manifesto, o atirador afirma ser à favor da seleção natural e que pessoas menos inteligentes deveriam ser ou totalmente eliminadas ou transformadas em escravos dos mais inteligentes. Reclama também do “sistema opressor” e conclama que sentimentos de superioridade, ódio e desejos homicidas são resultados diretos do mesmo.

Sua motivação de vida baseia-se na total falta de ética e no entendimento que o homem é apenas mais um animal onde sua morte é totalmente aceitável - principalmente daqueles que não mercem viver.

Mais do que simplesmente considerar que o jovem era doente e desequilibrado me preocupa que exista este comportamente recorrente. Se todos adolescentes com problemas resolverem levar para o lado da eliminação do próximo, teremos um total e absoluto massacre.

Tiago Luchini · 7 Nov 2007 · finland

Humor Finlandês

Os Finlandeses são conhecidos mundialmente pela sua “animação”, “empolgação” e “alegria” nata. Até mesmo por isso que Kimi Raikkonen, piloto de Fórmula 1 e um dos heróis esportivos por estas bandas é apelidado carinhosamente de Iceman (Homem-Gelo).

Veja o porquê com tradução logo embaixo:

Raikkonen Moods

  1. triste
  2. feliz
  3. se divertindo
  4. arrasado
  5. ganhando uma corrida
  6. não terminando uma corrida
  7. conseguindo a póle
  8. Alonso não terminou a corrida
  9. um furacão está chegando
  10. uma piada engraçada
  11. a melhor piada de todos os tempos
  12. tentativa de uma risada
Tiago Luchini · 16 Oct 2007 · finland

Vuosikatsastus

Esta semana fui realizar o que eles chamam aqui na Finlândia de vuosikatsastus (vistoria anual do seu carro). A idéia é similar à implementada em alguns estados no Brasil: você leva seu carro para algum ponto de vistoria, um inspetor dá uma olhada no carango e nega ou aprova o uso para mais um ano.

Confesso que estava preocupado: aquela lata-velha na garagem que me recuso a chamar de “carro” não parece nada confiável. Só de olhar para aquela massa de ferro em condição extremamente duvidável eu já pensaria mil vezes antes de aprovar seu uso como “meio de transporte”.

Fato é que a inspeção foi ainda mais profunda do que só uma “batida de olho”. Eles conectam seu carro numa máquina que verifica desde o nível de poluição emitida pelo veículo até a condição dos amorteccedores. A máquina realiza todos os tipos de estress possíveis e imagináveis nas rodas, pneus e freios. Eu estava vendo a hora que meu carro desmontaria depois de tanto acelerar, chacoalhar, subir e descer e balançar.

No fim do processo o mecânico imprime um relatório com os problemas do automóvel e negando ou aprovando o uso. Embora a lista de problemas foi numerosa, nenhum deles impede a utilização daquela massa de ferro como meio de transporte para o ano de 2008 - segundo um especialista - pelo menos.

A vistoria é obrigatória pelo governo mas os pontos de inspeção são privados.  Nem consigo imaginar se isso funcionaria no Brasil (assim como não consigo imaginar uma inspeção pública).

Tiago Luchini · 12 Oct 2007 · finland

Um protesto peculiar

O sindicato das enfermeiras aqui na Finlândia está em greve. Negociacões salarias, déficites acumulados e etc - o de sempre. Sindicatos e trabalhadores são iguais em todo o mundo.

Mas o que me chamou a atencão foi um dos protestos após a proposta do governo que resultaria num reajuste de 30€ na remuneracão dos profissionais. Ao invés de esbravejar e fazer algazarra, o sindicato mandou para cada um dos 200 parlamentares um envelope contendo 30€ cada.

A idéia era mostrar como eles se sentiram ultrajados com a mísera oferta.

As negociacões ainda continuam mas o protesto foi interessante. No Brasil certamente os parlamentares ficariam tão felizes com o envelope que iriam manter a decisão na expectativa de receber ainda mais envelopes.

Tiago Luchini · 4 Oct 2007 · finland