Criação
Poucas coisas me dão mais prazer do que criar. Quando era pequeno, podia ficar horas ou até dias, criando coisas com lego e similares.
Talvez esteja no sangue, afinal de contas, toda minha família viveu construindo coisas. Até a geração imediatamente anterior à minha, todos construíram casas com as próprias mãos. Às vezes para morar, às vezes só pelo desafio mesmo. Lembranças marcantes da minha infância foram no meio de áreas de construção e ferros-velhos. Quando não estávamos construindo casas, o hobby do meu pai era carros e chegamos até a construir um inteirinho do zero. Inesquecível.
Eu tinha uma estante de violão feita com meu próprio sangue e suor que amava mais que o próprio violão (o qual nunca aprendi a tocar mas que ficava descansando orgulhoso sobre a minha estante artesanal).
Com o tempo entretanto, fui deixando as criações físicas e focando nas criações virtuais. Na prática elas são bem mais interessantes pois requerem menos esforço e permitem um grau de criatividade bem maior, senão infinito.
O prazer do criar está, para mim, boa parte, em usar o item criado. É um prazer tremendo usar algo criado a partir das suas próprias mãos. A vantagem das criações físicas é poder pendurá-las na parede para que todos vejam ou, em alguns casos, a própria parede pode ter saído das suas mãos. Todos vêem e apreciam ou, se criticam, pelo menos vêem a obra da sua mão ali, impávida.
Criações virtuais são mais complicadas nesse sentido. Na minha vida profissional toda (e até antes) criei soluções para facilitar a vida das pessoas mas raramente alguém me agradece ou até nota minha participação naquela criação. As pessoas estão tão acostumadas com softwares que não investem energia mental para apreciá-los - e isso faz sentido - poucos são aqueles que ficam apreciando as maravilhas de engenharia empregadas na manufatura de um carro - ou de uma televisão - por exemplo. São coisas que simplesmente funcionam.
Além disso tenho recentemente trabalhado em projetos que requerem silêncio total daqueles envolvidos na sua criação. Na prática, nem remotamente citar que participei da invenção de determinados produtos eu posso fazer. É bem interessante ver pessoas usando sua criação diariamente. Não tão interessante quando elas exclamam: “essa porcaria nunca funciona direito!”
Fato é que o prazer de compartilhar com os outros sobre as coisas que eu faço nunca foi realmente presente e atualmente tem sido totalmente ausente.
Mesmo assim, criar é muito bom.
