Quatro palavrinhas para uma vida feliz

Estes dois anos de Finlândia me ensinaram o significado de várias palavras que eu nunca tinha entendido direito. Este entendimento não veio do estudo da língua Finlandesa ou de qualquer outra fonte acadêmica mas simplesmente de uma experimentação prática e acredito que o real entendimento delas é recomendado à todos que queiram ser realmente feliz.

A primeira palavra foi “lar”. É uma pena que usemos “lar” tão pouco em Português. Em terras de influência Lusitana diz-se “vou para casa” ao invés de “vou para meu lar”. Aliás, não fosse pela expressão “lar-doce-lar” talvez até “lar” fosse ainda um termo mais estranho. Mas lar é um lugar especial. Talvez nem seja um lugar mas sim um estado de espírito. Sentir-se no seu lar é algo que vai além dos limites físicos e dos laços de propriedade; é uma sensação de estar onde você deveria estar; é sentir-se “em casa”; é a maravilhosa sensação de preencher o espaço do universo ao qual você efetivamente pertence ou ainda, de uma forma mais simples como li esses dias por aí: “O lar é onde está o coração”.

A segunda palavra foi uma bem mais incomum na nossa língua: “solitude”. O Finlandês-padrão aprecia sua solitude. Sua melhor descrição de algo divertido para fazer é viajar para o meio do mato, quanto mais distante possível de qualquer outro ser humano, e apreciar a paz inerente do seu tempo sozinho - em mais pura solitude. Para alguém nascido numa das maiores metrópoles do mundo, numa das culturas mais socializáveis do mundo como eu, solitude não é algo simples de entender e apreciar mas que, quando o é, o deleite é garantido.

A terceira palavra foi “aceitação”. Como é difícil aceitar muitas coisas. A quantidade de irresponsáveis que saem por aí no “eu aceito” na hora de casar e depois se arrependem mostra como não sabemos aceitar corretamente. O “eu aceito” não é e nunca foi apenas algo pertinente apenas à cerimônia matrimonial; “acetar” faz parte inerente e constante da vida à dois. É difícil aceitar também o que somos ou até como e porque determinadas coisas acontecem. Aqui aprendi a aceitar: aceitar o mundo, me aceitar e aceitar várias outras coisas de maior ou menor importância. Entendi que a aceitação é fundamental para uma vida tranquila e feliz. Na nossa sociedade consumista e extremamente comparatista, aceitar a si próprio é bem mais complicado do que parece.

A quarta e última palavra vem em conexão com a anterior; ela é a “satisfação”. A satisfação de apreciar as pequenas coisas da vida - ao máximo - não tem preço. Aprendemos desde o berço que o mais importante é estudar, trabalhar e consumir e nunca nos é explicado a delícia e a maravilha de apreciar uma bela manhã ensolarada nos banhando com seus raios de sol, ou uma tarde chuvosa de verão, ou até o espetáculo de uma nevasca branquinha. Satisfação é olhar para o próprio umbigo e estar totalmente satisfeito; não porque na garagem há um carro importado ou porque seu emprego vai de vento-em-polpa mas simplesmente porque você tem um umbigo para olhar e, nisto mesmo, está a satisfação.

Tiago Luchini · 23 Mar 2009