Jeitinho e os negócios

Uma das maiores dificuldades de ter sucesso nos negócios no Brasil é a nossa cultura do “jeitinho”. O problema que o empresário encontra é simples: a concorrência é desleal. Pense num negócio não muito elaborado: pintura de casas por exemplo. Você, como empresário do ramo, contrata funcionários capacitados e treinados que vão prestar um serviço com qualidade excepcional, compra equipamentos de segurança do trabalho, paga seguros de vida e compõe um caixa para eventualidades e períodos de baixa demanda.

Enquanto você investe muito e muito dinheiro nessas e em outras coisas importantes para o seu negócio, o seu concorrente ajunta meia dúzia de desempregados sem capacitação nenhuma, amarra cada um com cordas na ponta de uma escada e pronto! Já tem uma empresa dedicada à pintura de exteriores! Não é de se surpreender que seu concorrente seja muito mais barato. Ele deu um “jeitinho” para conseguir ser mais econômico e ter um preço menor e é isso que vende na maioria dos casos… por muita infelicidade diga-se.

O concorrente leva o trabalho em detreminto ao seu - mesmo após toda a qualidade que você colocou no empreendimento.

Lembrei disso ao ler sobre a história do recente desabamento do teto da Renascer. A igreja contratou uma empresa para trocar o telhado. A lei obriga que reformas desse tipo sejam feitas por empresas idôneas e devidamente registradas com supervisão de um engenheiro responsável. A lei proteje o mínimo, claro! Afinal de contas alguém tem que ter estudado o suficiente para poder ser responsável por uma obra.

Fato é que a Renascer contratou uma empresa qualquer, sem registro nenhum, sem engenheiro, sem responsável, sem treinamento, sem… nada enfim. Talvez alguns desempregados amarrados na ponta de umas escadas duvidosas. O dono da empresa, Daniel dos Anjos, foi interpelado sobre o causo e, como todo bom Brasileiro, se indignou:

"Não precisa de engenheiro responsável apenas para substituir telhas. Quer dizer que se quebrar dez telhas na sua casa você vai chamar engenheiro?" (na Folha)
Sim. Se quebrar as telhas da sua casa você deve chamar um engenheiro. Não é apenas o mais sábio a se fazer como também é o que a lei diz. Se não precisamos de engenheiro para substituir as telhas das nossas casas, pra que diabos precisamos de um então? Talvez por isso que poucos engenheiros capacitados continuem tentando viver no Brasil…

Qualquer tipo de investimento imobiliário tem uma manutenção caríssima aqui na Finlândia. O motivo é simples: tudo - repito: tudo mesmo - requer o aval e a presença de especialistas que são muito bem pagos. Não dá para fazer aquele “puxadinho” atrás do quarto das crianças sem chamar um especialista.

Isso custa no bolso das pessoas - claro - mas garante não só que os trabalhos sejam bem-feitos como também estimula a economia e, acima de tudo, a educação. O dinheiro circula e as pessoas sofrem menos porque mais dinheiro é transferido de mão-em-mão. Tanto falamos de rendas desiguais no Brasil mas pouco nos importamos em atacar as causas. O dinheiro circula mediante à especialização, à qualidade e principalmente à educação e treinamento dos profissionais.

Sem contar que vidas são poupadas. Algo que não se pode dizer no caso do teto da Renascer…

Tiago Luchini · 13 Feb 2009