Michael Jackson é quem está certo...
Há tempos que eu não tinha uma sucessão de dias tão ruins.
Tudo começou na quinta passada. Tive que cancelar um treinamento afetando outras 7 pessoas porque o meu principal cliente me chamou para uma reunião de emergência. O conteúdo da reunião? Meu projeto de quase 2 anos provavelmente será cancelado por causa da recessão.
Enquanto isso, um funcionário meu faz uma caca gigantesca e fico até altas horas da noite pedindo desculpas e explicando os detalhes ao cliente.
Minha corretora de imoveis então me liga: o vendedor do imóvel que negociei a semana toda não só desistiu da minha oferta como também resolveu mudar as regras do jogo e transformar a brincadeira num leilão. Quem ofertasse mais alto até o almoço do dia seguinte levava o imóvel. Me enfezei, briguei, esperneei. Odeio leilão. Não adiantou.
Sento então para um joguinho de tabuleiro para desestressar. Explico as regras errado e as pessoas não gostam de um dos meus jogos preferidos (a frustração aqui é que um jogo pouco querido pelo povo, é consequentemente pouco jogado).
Fico acordado até as 2 da manhã refazendo todas as minhas contas e estudando cada cenário para fazer um lance no imóvel. Apenas 3 horas de sono e já parto para o aeroporto. Viagem de negócios à Helsinki.
No caminho perco uma mão do meu par de luvas e ainda bato a cabeça no teto do avião. Quase arranco um pedaço do teto (ou seria da minha cabeça?).
O endereço do local da reunião estava errado. O taxista me deixa há 1km de distância do local correto e começa a nevar. Caminho perdido embaixo da neve por 1 hora até achar o lugar (quando minha mão sem luva já quase precisava ser amputada de tão congelada que estava).
A corretora me liga. Alguém deu um lance no imóvel acima do valor de mercado. Aparentemente, mesmo com a recessão batendo à porta, tem gente esbanjando por aí.
Depois da reunião, resolvo caminhar para desestressar. Chega de desgraça certo? Ligo para minha esposa que está à quase mil quilômetros de distância e ela não atende. Ligo então para o meu filho e também nada. Pronto! Os dois se envolveram em algum acidente! Pelo menos é isso que remoo por 2 horas enquanto espero pelo avião. Que nada! Eu tinha esquecido que os dois estavam na piscina do clube. Não iriam atender mesmo.
Os sapatos me dão bolhas nos pés pela caminhada. Me dirijo ao portão de embarque - o dia está acabando graças a Deus. Em breve vou poder dormir - até que enfim. “Senhor, o seu nome não está na lista de passageiros.” Como assim? Corro desesperadamente 1 km de um terminal ao outro, pulando num pé por causa das bolhas, com uma mão semi-congelada, um galo na cabeça, sem projeto profissional e sem um lugar para morar e descubro o erro: misturei duas reservas e perdi meu voo à 1 hora atrás.
Compro a última passagem do dia para chegar apenas no sábado em casa. Lá se vai um dinheiro que eu nem tinha. Aliás, melhor é não fazer nada muito elaborado neste sábado. Sábio é Michael Jackson que vive numa bolha.
PS1: citar que levei choques a sexta-feira inteira devido a eletricidade estática gerada pelo atrito das minhas roupas é quase redundância nesse cenário.PS2: ficar preso por mais de 4 horas num dos aeroportos mais caros do mundo tem dessas: guarrafinha de refigerante à 12 R$: um dos poucos líquidos que pude me dar ao luxo de beber o dia todo.