Você ainda quer migrar? Pense duas vezes

Viver longe do seu país de origem não é fácil como já comentei neste blog reiteradas vezes. A pergunta que muitos precisam fazer antes de mudar para outro país é: “Será que eu aguento?” Agora que estou há mais de 2 anos longe do Brasil e conheço muitos imigrantes (brasileiros e não-brasileiros) acho que consigo elaborar algumas dicas para ajudar a responder isso.

Qualquer mudança é complicada. Tente mudar de bairro dentro da mesma cidade e vai ter dificuldade para encontrar a “padaria ideal” ou o “açougue do seu João” e etc. Nos acomodamos com os serviços e amenidades dentro do nosso próprio bairro. Sou natural de São Paulo onde há uma cultura bairrista muito grande por ex. e toda vez que tive que mudar passei por isso.

Fato é que grande parte das pessoas acaba mudando de bairro algumas vezes na vida e aprendemos a lidar com essas inconveniências. Já mudar de cidade não é tão simples. Poucas pessoas tentam e muitas desistem após alguns anos. As cidades possuem diferenças maior que os bairros. Tente mudar de um centro cosmopolita como São Paulo para o interior de Pirapora de São José onde nem asfalto direito tem. Claro que o exemplo é extremo mas mudar de cidade dentro de um mesmo estado ou país já é um desafio maior do que mudar apenas de bairro. Alguns desistem no caminho.

Essa mesma dificuldade crescente entre bairro e cidade continua crescendo exponencialmente conforme as distâncias aumentam entre o ponto original e o ponto de destino. Mudar de país é exponencialmente mais complicado do que mudar de cidade e muito mais suscetível a falhar do que seu parceiro mais próximo.

As mudanças de país trazem ainda um outro kit de eixos nessa variável “distância”: as distâncias culturais, linguísticas e climáticas. Quanto mais distante qualquer um (ou mais) desses eixos, maior a dificuldade de se adaptar no destino. Por isso que recomenda-se muito aos brasileiros migrarem para o sul dos Estados Unidos ou eventualmente para a Austrália. Pelo menos mimizam-se as diferenças de clima e cultura aumentando o sucesso de uma migração.

Por isso, antes de responder à pergunta: “será que eu aguento?”, pense nos desafios de mudar de bairro, progressivamente imagine a dificuldade de mudar de cidade e só finalmente tente vislumbrar a mudança de país. Não deixe de colocar as diferenças culturais, linguísticas e climáticas na mesa e pesá-las com carinho. Se não conhecê-las, estude muito antes de tomar uma decisão.

Muitos que estudam uma possível troca de país acabam por perguntar dicas a outros imigrantes (brasileiros também) que tenham imigrado para o país desejado. Faz sentido certo? Afinal de contas o indivíduo tem a mesma bagagem do que você e já mora no local. Minha dica entretanto é: evite fazer isso à todo custo. Se insistir em perguntar faça um favor a você mesmo: peça para a pessoa falar só das coisas ruins do lugar e nunca citar as boas. Por quê? Por questão do processo de negação.

Todo imigrante está tentando se ajustar constantemente. Ele não faz parte do destino e nunca fará. Ele aprenderá (ou aprendeu) simplesmente a se “encaixar”. Isso não é um processo simples e entra em conflito com muitas coisas pessoais inclusive com a própria decisão de ter mudado de país. É muito comum que, por puro instinto de preservação psicológica, o imigrante passe a ignorar os fatos ruins do processo e super-valorizar os bons. É comum ver imigrantes que sofrem demais por estas bandas mas que contam louros de maravilha e vitória aos parentes em casa. Não é mentira, é preservação. Se você estiver do outro lado da linha, não se engane pelas maravilhas reportadas. Foque-se nas desgraças e forme seu próprio juízo.

Tiago Luchini · 26 Jan 2009