Política e dinheiro

É difícil para a mentalidade de um engenheiro comum entender que um projeto precisa gerar dinheiro. Não faz parte daquilo que ele vê na faculdade. Muitos engenheiros e pesquisadores que conheço vivem com os narizes enfiados nos seus projetos buscando soluções eficientes para os problemas que nos cercam. Isso é bom, claro mas muitas vezes perdem o horizonte da parte financeira envolvida no processo. Há tanto uma necessidade de ganhar dinheiro futuro como também de capitalizar dinheiro presente: um mecanismo que envolve muito jogo-de-cintura e que passa por linhas complicadas de poder.

A política e o dinheiro estão por trás da maioria das coisas que vemos por aí. Veja o atual ataque de Israel contra território Palestino em Gaza. Israel justifica os ataques numa bizarra lógica explicando que, uma vez que os militantes do Hammas lançam foguetes contra civis no território Israelense logo, e nada mais lógico, os Israelenses podem chacinar milhares de inocentes Palestinos, esmagando-os com seus tanques (os melhores do mundo) e destroçando-os com seus covardes bombardeios aéreos.

Alguns compram essa desculpa, outros não. Na prática o que está por trás dos ataques não é o problema dos foguetes. De forma alguma! Resolver isso seria fácil: primeiro esvaziar a fronteira (discutivelmente Israelense), segundo levantar algum sistema de defesa qualquer. Os melhores engenheiros de segurança do mundo são Israelenses, estão todos de férias por acaso? Claro que os defensores dos ataques vão levantar todo tipo de empecilho para estas atividades entretanto.

A razão real para os ataques é mais embaixo. O problema está em outro vizinho: o Irã! A animosidade entre Irã e Israel é clássica. O Irã, como estado Islâmico mais poderoso da região, é uma ameaça para o Estado de Israel. Seus líderes altamente fundamentalistas têm aquelas tradicionais idéias de “eliminar os infiéis” e etc. O problema é que atacar o Irã é complicado. Ninguém em sã consciência faria isso. O Irã é un dos únicos Estados da região que podem acabar com Israel ao apertar de uns poucos botões. Israel precisa mostrar que não está morto e que “não leva ofensa pra casa” e, portanto, nada melhor que atacar os pobres Palestinos que já viraram saco-de-pancada Israelense mesmo.

Em 2008 Israel tinha outro problema no horizonte. A administração Norte Americana de Bush além de tradicionalmente favorável à Israel - como sempre foram as administrações anteriores vale lembrar - também era altamente bélica e apoiava Israel em suas incursões militares. Isso era bom mas a eleição do democrata Barack Obama jogou um balde de água-fria sobre a política Israelense.

Israel então não perdeu tempo. Aproveitou o último mês do governo Bush para lavar as ruas de Gaza com sangue Palestino. A operação militar foi tão bem orquestrada com o cenário político que a retirada das tropas Israelenses dá-se na mesma semana da posse de Obama nos Estados Unidos e, vejam só, a partir de uma trégua unilateral ou, em outras palavras, eles nem pararam para ouvir o Hammas. Aliás, o Hammas distribuiu panfletos em Gaza no fim-de-semana celebrando a vitória Palestina! Se o objetivo era desmantelar o grupo e evitar novos ataques de foguetes, é difícil de acreditar que conseguiram. Inclusive, das mais de 400 mães de crianças mortas nos ataques Israelenses, penso que boa parte delas estaria disposta a ataques suicidas e similares contas os Israelenses. Isso é o que acontece se pagar o mau com mau.

Fato é que os Israelenses saíram rapidinho de Gaza abençoados pelas palavras do seu primeiro-ministro: “Eu não sugiro que outras organizações nos testem.” Alguém leu aí “Irã”? Politítica e dinheiro… nada mais de que isso.

Tiago Luchini · 19 Jan 2009