Se fosse em Marte...

Às vezes faz frio aqui no pólo-norte. Não um friozinho qualquer, daqueles quando bate uma brisa gelada desagradável numa noite de Julho em São Paulo. Aqui é comum olhar no termômetro e ler -25 graus Celsius como nestes últimos dias.

Isso é muito mais frio do que o seu freezer o que, em outras palavras, quer dizer: tudo congela ainda mais rápido lá fora. Nessa temperatura é complicado bobear. Um quarteirão é o suficiente para as extremidades menos aquecidas do seu corpo já adormecerem pelo processo de congelamento. Vale lembrar que dói antes de adormecer. O vento bate e traz um frio que faz com que cada parte do seu corpo seja como que alfinetada de uma dor pingente. Se proteger é inútil. O frio é cortante mesmo sob a mais espessa proteção. Sua respiração congela assim que sai do corpo deixando pequenas pedras cristalizadas de gelo a partir das narinas e se espalhando pelos demais pêlos do rosto. Seus dedos dormentes, mesmo que protegidos por uma luva, são quase inúteis para a maioria das necessidades normais de um ser humano.

Antes de alcançar algum lugar aquecido você lembra de Marte, aquele inóspito planeta tão distante que uma simples viagem de ida e volta demoraria no mínimo um ano. Lá longe, naquele remoto pontinho frio no espaço a temperatura no equador bate nos mesmos -25 graus que você encara corajosamente na rua num dia normal.

A imagem de marte desaparece assim que você entra em algum lugar quente. O seu corpo trabalhando em metabolismo acelerado para se manter aquecido explode numa sensação desconfortável de calor enquanto tenta equalizar com os quase 50 graus de diferença entre a temperatura do lado de fora e a temperatura agora. Os seus óculos embaçam imediatamente numa reação física ao choque térmico. As extremidades adormecidas do seu corpo passam a voltar à vida… pena que reclamem tanto ao longo do processo ao arder de uma dor aguda enquanto a dormência dissipa vagarosamente.

Sim, o inverno é lindo… mas dói.

Tiago Luchini · 17 Jan 2009