Desde Hammurabi

Lá pelos idos de 1760 AC o sexto rei Babilônico, Hammurabi, entrava para a história como o primeiro a estabelecer um código legal escrito. Hoje conhecemos este como Código de Hammurabi e uma visitinha ao Louvre é suficiente para ver de perto a única pedra contendo esta lei que sobreviveu por quase 2500 anos até então.

O Código de Hammurabi é severo se comparado aos padrões atuais. Em sua maior parte ele defende a filosofia conhecida como “olho por olho, dente por dente”. Este tipo de filosofia foi altamente importante nas civilizações primitivas como ferramenta para manter as redes sociais o mais intactas quanto possível. Na prática, conforme as sociedades cresciam, também cresciam os problemas, disputas e desavenças entre os cidadãos. Uma lei genérica que instituia pena no mínimo igual àquele crime acometido contra o próximo era muito prática. Dessa forma, aquele que viesse a cometer homicídio teria que pagar com sua própria vida e assim por diante.

O Judaísmo também possui essa filosofia encrustada na Torá, a bíblia Hebraica (Ex 21:23–25, Lv 24:18–20, Dt 19:21). Hoje não se sabe ao certo se o conjunto de leis hebraicas predatam as leis babilônicas ou o contrário. Na prática as semelhanças não param na filosofia geral mas enredam também até na inspiração divina (Moisés teriam recebido a lei diretamente do Deus Jeová enquanto que Hammurabi teria recebido diretamente dos deuses Marduk ou Shamash).

Fato é que a vingança parece ser bastante natural do ser humano. Se alguém lhe faz um mau, é comum que uma vontade de retribuir com aquele mesmo mau (ou outro) apareça. As leis primitivas simplesmente estabeleciam as fundações para isso e, não é de se surpreender que, até o Islamismo siga pela mesma linha do “olho por olho, dente por dente”.

Houve porém um dia em que tudo mudou. Um judeu revolucionário saiu aos quatro ventos dizendo que “Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; ” (Jesus em Mateus 5:38,39). Nascia a partir de Jesus o Cristianismo que, por sua vez, aceitava Jesus como o messias Judaico trazendo consigo uma nova lei, uma nova vida, uma nova aliança com o seu povo. Parte dessa nova aliança era um sinal de amor: nada de retribuir o mau com mau mas sim com o amor do perdão.

Nunca, em toda a história, alguém haviam nem sequer proposto uma filosofia tão revolucionária. De tão revolucionária, ela chega a ser até anti-natural à nós.

A subversão causada por Jesus levou-o a pagar “olho por olho” com sua vida na cruz do calvário. Afinal de contas, badernas sociais, rompimento de paradigmas e outras blasfêmias eram consideradas pelos Judeus da elite dominante como passíveis de vingança por morte. “Olho por olho, dente por dente”.

Milhares de anos depois e ainda não aprendemos a amar. Aceitamos e estimulamos o “olho por olho, dente por dente”. Nos envolvemos em brigas, disputas, desentendimentos e guerras porque acreditamos que a vingança e a retribuição estejam acima do amor e do perdão.

À luz do Evangelho de Cristo não deveríamos nunca assumir qualquer lado numa disputa bélica. O amor e o perdão nos servem de marca contra o mau e a vingança pregados pelo “olho por olho”.

Tiago Luchini · 17 Jan 2009