Essas coisas que ninguém comenta
O Cristianismo foi revolucionário em sua fundação. Numa época em que a maioria das grandes religiões era fechada a um público específico, o Cristianismo trazia a abrangência de uma adoção praticamente inescrupulosa às pessoas: com Cristo, o Judaísmo elitizado foi levado às massas. Agora, qualquer um poderia ser chamado de Cristão (ou “pequeno Cristo” como o termo então expressava).
Essa faceta do Cristianismo é altamente importante. Sem ela, o mundo ocidental não teria adotado a religião de forma tão eficiente. Uma das grandes diferenças que o Cristianismo trazia era a aceitação independente de raça, sexo ou cor. “Todos podem ser salvos mediante a fé” bradavam-se aos quatro ventos.
Porém, ao mesmo tempo que essa abrangência era disseminada, o era também a busca pelo poder. A religião e os misticismos em geral traziam consigo o poder e isso foi sempre muito bem sabido. A busca pelo poder crescente criou as dissidências e as dissidências, os redutos separatistas. O que era para ser uma grande família, unida pelo amor e salva pelo sangue de Cristo a pregar e aplicar o bem sobre a terra, de repente virou uma cocha-de-retalhos cheia de buracos e com vários retalhos recusando-se a atearem-se uns aos outros.
A igreja Cristã - dita moderna - ainda sofre resquícios desse mau. Não só com escaladas claras e ridículas ao poder como também na sua “redutificação”. Aquele Cristianismo simples, fácil e eficaz - aquele do perdão dos pecados, da purificação e santificação pelo Espírito - virou um cristianismo barato e ritualista. O senso de membresia que deveria partir do amor recíproco virou uma representação ritualística qualquer. O “ser membro” não significa “ser salvo” mas sim “obedecer e seguir um código de condutas e aparências” que - vale ressaltar - poucas vezes tem algo a ver com as Escrituras.
As Igrejas - com “I” maiúsculo - aquelas que Deus planejou para serem uma família aberta, unida, feliz e funcional - abdicaram desse privilégio em troca de serem apenas “família” no sentido de “nossa família” versus “o resto”. Trocaram o “I” maiúsculo pelo “i” minúsculo.
Na denominação que tento frequentar uma pergunta comum é “de quem você é parente?” - a relação de parentesco é tão forte que beira efetivamente ao prático: todo mundo é parente de todo mundo - de verdade. Ser parente de alguém é o ideal para conseguir se movimentar dentro da organização também. Sem parentesco, as coisas ficam mais complicadas.
Essas coisinhas que ninguém comenta e que desviam tantos…
