Educação e Brasil

Meu filho tem uma consciência ambiental que chega a ser irritante. Ele está sempre preocupado com o que vamos fazer com o lixo ou por que as pessoas usam carros (que poluem) enquanto poderiam ir à pé (já que não polui). Extremamente louvável para uma criança de 8 anos que certamente terá muitos e muitos desafios com o ambiente nos próximos anos.

Confesso entretanto que ter um “eco-chato” em casa não é mérito (ou defeito) meu. A questão é a escola Finlandesa que vai fundo em linhas de pesquisa. Ao invés de ensinarem uma matéria específica ou como as coisas funcionam, eles lançam assuntos práticos que os alunos pesquisam e, através da pesquisa, os professores injetam os conteúdos acadêmicos. Dessa forma o conteúdo vira uma ferramenta para um fim atingível. Nada mais útil do que saber como contar os diferentes poluentes e suas categorias e intersecções: teoria básica dos conjuntos que todos aprendemos nos primeiros anos do fundamental mas colocada aqui de uma forma prática.

A educação é, na minha visão, uma das coisas mais importantes que podemos ter ou dar. A educação é a única maneira de nos salvar da total auto-destruição. Isso é fácil de observar: as regiões menos educadas do planeta são também as que mais poluem por exemplo. Não só isso mas são também as que mais crescem tanto porque ficam sistematicamente mais pobres (e consequentemente sem acesso aos estudos) como também se reproduzem mais. Num mundo de recursos limitados, nada poderia ser pior; é cavar a própria cova.

A maior parte dos problemas da humanidade podem ser resolvidos com educação. Os nossos problemas atuais são todos causados porque um grupo de pessoas sem a educação adequada deixou de pensar suficientemente numa solução. Nenhum problema é impossível de ser resolvido. Se ele parece impossível, é simplesmente prova de que não pensamos em como resolvê-lo corretamente. Para sermos eficientes nessas soluções, precisamos de educação; muita educação.

Por isso que acredito que qualquer solução para qualquer problema precise passar necessariamente primeiro pela educação. Me surpreende inclusive que raramente isso é pauta dos políticos Brasileiros. Essa preocupação constante com empregos, saúde e, somente em terceiro, educação, é errada e perigosa. Com a educação adequada dos nossos filhos, empregos e saúde serão resolvidos paulatinamente. O problema é que agora temos uma legião de jovens saindo das escolas sem qualificação e que consequentemente ficarão sem emprego; temos uma legião de jovens adultos se alimentando mau e que consequentemente ficarão doentes. Não adianta se preocupar com empregos e saúde sem antes cuidar da educação.

O Brasil precisava de uma solução drástica para o problema da educação. A primeira questão é quebrar o elitismo: esse monopólio do conhecimento que fica trancado dentro das escolas particulares para os filhos da classe média e alta. Esses redutos precisam desaparecer. Todas crianças e jovens brasileiros merecem ter a mesma qualidade (alta) de ensino.

Um governo radical poderia estatizar totalmente o sistema educacional do país, destribuir a riqueza e o conhecimento, mesclar os alunos e entrar para a história como a maior revolução social e educacional do planeta. Mas ninguém se arrisca a isso: o perigo de ser taxado de socialista-comedor-de-criancinhas somado à ira das classes mais altas que não aceitariam ter “seus amados filhinhos compartilhando a mesma merenda que os filhos da gentalha” é muito difícil de engolir.

A questão entretanto se mantém: precisamos exatamente romper esse pensamento separatista do “nós”, os pobres versus “eles”, os ricos e vice-versa. Se o seu filho de classe média estudar a vida toda com o filho daquele criminoso ali do lado e tiverem acesso aos mesmos conhecimentos, por que cargas d’água eles continuariam com a relação “ladrão-assaltado” no futuro? Será que temos o direito de privar às crianças mais carentes um ensino de qualidade, uma educação que à capacitaria melhor para o futuro? Enquanto os filhos da classe média e alta estiverem distantes dos filhos da classe pobre e miserável, os nossos muros ficarão cada vez mais altos a cada geração, nossos carros ficarão mais blindados a cada geração, nossas crianças serão mais estupradas a cada geração e teremos mais violência a cada geração. Não estamos, em momento algum, resolvendo o problema; estamos apenas piorando-o.

Um governo menos radical poderia então impor altas multas à todos aqueles que resolverem colocar seus filhos em escolas particulares. Sim, se alguém tem 3 mil R$ para pagar uma mensalidade particular, cobrar 1 mil R$ de multa não é problema. A justificativa é simples: “quer segregar o seu filho? Isso é fato gerador de uma multa mensal. Enquanto seu filho for segregado, você pagará uma multa.”

O bom dessa solução é que ela abre algumas possibilidades bem coloridas. A multa poderia ser isenta caso a escola oferece-se, sem custo nenhum, 50% das suas vagas para crianças das famílias de renda mais baixa. O governo realizaria fiscalizações para evitar casos de discriminação e, caso estes fossem encontrados, a escola seria convidada e se retirar do mercado.

Trabalhei em escolas e universidades particulares por 10 anos e sei que essas opções seriam todas muito ruins para os negócios mas, perceba bem, seriam ruins para o “negócio do ensino” que é basicamente o lucro sobre aquilo ensinado. É a operação capitalista de vender um punhado de ensino cobrando-se uma grande soma monetária. Essas idéias realmente objetivam dinamitar esses mercados e transformar o ensino em algo globalmente acessível.

Somente quando todos tiverem os mesmos acessos, os mesmos diretos e forem educados para resolverem juntos os problemas que enfrentamos é que poderemos dar qualquer passo à frente. Enquanto isso acontecer, só ficaremos derrapando no mesmo lugar ou, pior, deixaremo-nos ser levados… para trás.

Tiago Luchini · 16 Dec 2008