Quando a ciência falha
O que acontece quando a ciência falha? Se você nunca pensou nisso, pelo menos deveria fazê-lo.
Fico impressionado com a legião de pessoas que aceita uma infalibilidade científica que é totalmente inexistente. A ciência falha sim e muito. Não que isso seja ruim; pelo contrário: faz parte do processo de aprendizado. Nenhum de nós saiu andando direto do útero; caímos muito até aprender e andar corretamente.
Quando a ciência, em sua personificação tecnológica, falha percebemos rapidamente. Se um avião possui algum erro em sua aerodinâmica é bem certo que não levante voo ou que tenha grandes problemas no processo. É só lembrarmos da história do modelo de Havilland Comet de 1954. O avião era o primeiro a atingir escala de produção e era celebrado como um sucesso até que centenas de pessoas morreram em múltiplos acidentes com o mesmo modelo. Pesquisas indicaram uma grave falha estrutural em sua fuselagem e o modelo foi totalmente retirado de circulação. Uma falha grave mas que, com a devida experimentação pôde ser detectada.
Nos primórdios do programa Apollo da NASA, um curto-circuito num módulo de comando de testes iniciou um incêndio. Os cientistas haviam decidido usar oxigênio puro na atmosfera do módulo e esse automaticamente se incendiou rapidamente uma vez que é um gás comburente. Os três astronautas poderiam ter saído do módulo mas a escotilha não abria por dentro. Morreram antes que o socorro chegasse. Não foi apenas uma falha mas sim três.
Poderia citar aqui vários e vários casos como estes - eles são comuns e fazem parte do princípio científico da experimentação. O mais importante aqui é que, quando a ciência se propõe à algum desenvolvimento tecnológico palpável, qualquer falha é prontamente percebida. O avião com falha estrutural e a nave em curto-circuito, ambos explodem e todos percebem que algo deu errado. A ciência entretanto vai muito além. A curiosidade do homem vai muito além de aviões e naves espaciais. Queremos e precisamos explicar muitos outros fenômenos ao nosso redor. Queremos estudar o passado por exemplo. Queremos saber como os reis e rainhas viviam no século XV. Queremos entender como era a civilização Babilônica ou a Egípcia. O problema é que muito do que queremos saber requer inferências e deduções.
Quando olhamos para a própria história já encontramos essa dificuldade. Aquilo que chamamos de estudo da história reside em buscar evidências arqueológicas e registros escritos das civilizações que assim o fizeram. Por isso que Egípcios são tão fascinantes: não apenas deixaram um legado arqueológico fantástico como também registravam tudo numa escrita que podemos decifrar hoje. Outras civilizações não foram tão eficientes mas, fato é, queremos saber como essas civilizações viveram também. Como fazê-lo então?
Continuamos indo além: queremos dar outros saltos. Queremos saber, por exemplo, como as civilizações pré-históricas viveram. Essas civilizações estão em períodos pré-escrita. Elas deixaram poucos ou quase nenhum legado para nós. Muitas dessas nem são consideradas civilizações hoje em dia pela própria ausência de legados. Isso não quer dizer que não tenham sido grandes civilizações; apenas não temos conhecimento delas. Os Emonitas por exemplo eram considerados até pouco tempo um povo atrasado e escravizado que viva ao sul da área hoje ocupada por Israel. Não escreviam e não construíam pirâmides, logo, passavam desapercebidos do nosso radar. Descobertas recentes voltaram a colocar os Emonitas em posição de destaque. Uma área supostamente Emonita tem vestígios de enorme produção de cobre e de um gigantesco forte. Os Emonitas seriam uma nação muito forte e respeitada completamente ao contrário do que imaginávamos.
O problema reside em como chegamos a essas conclusões. Talvez esses vestígios sejam de outras civilizações (anteriores ou posteriores aos Emonitas). Talvez o que pareçam vestígios de produção de cobre sejam apenas minerais naturais do lugar. São muitos talvezes. Os cientistas lançam várias teorias e tentam eliminar aquelas que não sejam tão boas se comparadas à evidência. Isso não quer dizer que a teoria preferida é a correta ou que represente a verdade. Isso simplesmente significa que a teoria preferida é a aquele em que há melhor concordância entre as demais teorias.
Aqui mora o cerne da questão: quando a ciência avança em terrenos altamente desconhecidos e pouco reproduzíveis, ela conta com esse exercício da dedução e da inferência. A teoria que sobrevive às críticas é aquela mais forte à pressão mas não necessariamente a mais próxima da realidade ou a efetivamente correta. Não temos, por exemplo, como voltar ao passado e verificar se realmente os Emonitas eram uma grande nação ou nômades. Qualquer decisão que tomarmos para publicar nos livros de história passa única e exclusivamente pelo exercício de eliminar as hipóteses menos prováveis, ou seja, é um erro afirmar que Emonitas eram nômades na mesma medida que é um erro afirmar que eram uma grande civilização. No máximo poderia-se afirmar que, baseados em evidências X e Y, acredita-se que os Emonitas sejam Z.
O mecanismo funciona mas não pode ser usado como ferramenta da busca da verdade. Ele pode ser usado como mecanismo de eliminação de hipóteses fracas e nada mais. As hipóteses que restarem são aos que mais resistem à crítica.
Esse mecanismo científico é largamente ignorado entretanto. Não só pela legião de leigos mas principalmente por muitos cientistas. Passa-se a acreditar que as melhores hipóteses são verdades e então basear novas hipóteses em hipóteses anteriores. Tome como exemplo a triste história do pesquisador Lee Berger. Em visita ao Palau encontrou uma caverna repleta de ossos humanos. Berger empolgou-se muito com a descoberta: era uma nova espécie de humanóide de tamanho 25% menor do que o nosso e feições grosseiras (que poderiam ser inferidas de um único e pequeno pedaço de crânio). Não só isso mas as isoladas ilhas do pacífico sempre foram prolíficas em ossadas de humanóides, logo, nada mais lógico que esperar um outro tipo. Em pouco tempo Berger já tinha uma complexa explicação sobre o “povo de Palau”, como seria seu estilo-de-vida, como nasciam, morriam e até modelos de computador mostrando suas expressões físicas.
Conforme as pesquisas evoluíram descobriu-se que as feições grosseiras eram na verdade uma má interpretação. O único pedacinho de crânio tinha um acúmulo de cálcio causado pela corrosão da caverna. Na verdade o crânio era tão humano quanto o seu e o meu. Berger se entristece com a realidade mas ainda tem um “povo de Palau” para estudar e não pode deixar a “descoberta do século” cair. Parte então para provar que os ossos não eram de crianças humanas (o que justificaria o seu tamanho reduzido) e sim de adultos.
Acompanhar a história de Lee Berger dá tristeza pois percebe-se esse desespero em provar que suas teorias estão corretas e em basear “certezas” em outras hipóteses. Baseia-se que tem-se uma espéce de sub-humano porque outras pesquisas assumiram que outras descobertas eram de sub-humanos na região. Assume-se que o dito humanóide era grosseiro porque seu crânio possuia uma extensão sobre o globo ocular e assim por diante.
O perigo dessa extrapolação toda é que aquilo que é incerto passa a ser imutavelmente certo porém não necessariamente sob o crivo da realidade.
Quando a ciência falha em suas hipóteses, alcançamos uma certeza que pode muito bem ser fictícia.
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