O porquê da arte

Confesso que falar sobre arte é bem difícil. Existem dois motivos principais por trás dessa dificuldade:

  1. A pomposa comercialização artística;
  2. A natureza pessoal da percepção da arte.
Desde a época do renascimento que a produção artística é utilizada como produto comercial e de comunicação de status. Mesmo que existam as milhares de divagações sobre as qualidades do artista A em comparação ao artista B o que vale, no final das contas, é o valor comercial que sua produção pode gerar. Ter um Picasso ou Monet pendurado na sala é sinal de riqueza muito antes do que um sinal de bom-gosto ou até de uma real apreciação pela obra.

Mesmo que as artes tenham alcançado as massas em tempos mais recentes, o apelo comercial continuou sendo muito forte. A diferença fundamental é que ao invés de a arte se personificar num quadro ou escultura que milionários estejam dispostos a investir suas fortunas, ela se personificou em músicas, filmes e outros meios mais acessíveis às massas tanto em linha comunicativa quanto em custo. Um filme só chega às telas se a produção for economicamente viável, ou seja, se a quantidade de ingressos, DVDs e bugigangas vendidos seja superior ao custo da produção.

Já a natureza pessoal da percepção da arte talvez seja a mais complicada de explicar. Cada pessoa será tocada de forma diferente por diferentes manifestações artísticas e, até onde podemos teorizar, essas experiências são tão pessoais que mal podem ser comparadas. Mesmo assim vários autores tentam explicar esse momento especial onde a apreciação da arte dá um estalo em algum lugar e tudo parece fazer sentido. C. S. Lewis chama esse momento de “alegria” mas cuida para explicar que essa “alegria” transcende as palavras que ele consegue usar para explicá-la. G.K. Chesterton explica esse momento como que o sentimento que várias coisas sejam conectadas entre si - mesmo que remotamente - como se “houvesse um algo mais”.

Cada um percebe a expressão artística de forma pessoal e única mas, qualquer um que realizar o processo de mente e alma, encontrará esse ponto comum na experiência: um momento especial e difícil de explicar onde percebe-se que o universo vai além e que estamos ligados de alguma forma a algo que não podemos explicar totalmente.

Não bastasse essa natureza pessoal da percepção, encontrar essa experiência não é um processo reproduzível. Mesmo num nível pessoal. C. S. Lewis passou boa parte da vida buscando incessantemente encontrar e reencontrar essa “alegria” que ele descreve tão bem. Notou como até mesmo as mitologias Nórdicas que tanto lhe proporcionaram esse momento especial nem sempre assim o faziam. Passou a procurar em outras obras e até em expressões artísticas diferentes das que tinha costume (saiu dos livros e partiu para as óperas).

Arrisco dizer que muitas pessoas vão ao túmulo sem passar por esse tipo de experiência. Ela não é simples de alcançar: requer um esforço pessoal e até um toque de sorte (estar no momento certo, no lugar certo e com o material certo em suas mãos). Adicione a isso o fato que toda a nossa rotina e ambiente nos forçam a afastar dessa experiência. A impressão que dá é que há algo conspirando para que não encontremos a chave que abriria as portas da nossa cadeia.

Uma solução é sempre abandonar as produções artísticas humanas e voltar os olhos para a natureza. Ela também pode ser uma ótima fonte para alcançar essa experiência única. O problema é que a ciência nos impugna uma visão naturalística sem-graça, sem vida e sem criatividade. Esquecemos de apreciar a natureza com os olhos encantados de um pequeno grão de areia ao contemplar o oceano e resolvemos assumir a posição de criadores do oceano, de sabedores de todos os mecanismos, algas e seres que vivem lá. Essa postura remove de nós a capacidade do maravilhamento que facilitaria encontrar esse momento especial de “alegria” ou “conexão” mas que certamente esconde a “chave” para entender muitas coisas.

Perceber o universo com um olhar simples é mais importante do que hiper-racionalizar tudo. Encontrar esse ponto especial na admiração da arte ou da natureza é uma experiência que complementa essa simplicidade; é dar o crédito devido aos magos e deixar a frieza do cientista de lado por alguns segundos.

Todos artigos dessa série de pensamentos:
Tiago Luchini · 16 Apr 2008