Magos e Cientistas

O ser-humano, como o conhecemos, é um bicho curioso. Ele não se satisfaz em simplesmente nascer, comer, crescer, se reproduzir e morrer. Ele precisa de mais: precisa entender o ambiente que o cerca e essa curiosidade nata é uma das características que nos garante definitivamente o título de humanos.

Sanar essa curiosidade não é tarefa simples. Nunca foi. O ambiente que nos cerca é repleto de mistérios que, numa primeira abordagem, parecem insolúveis. Uma série de fenômenos que hoje podemos considerar triviais eram grandes problemas para o ser humano da antiguidade. Como explicar o sol por exemplo? Você acorda todos os dias e vê aquela luz enorme no céu. Vai dormir e ela já não está mais lá. De manhã essa luz levanta por detrás das montanhas a sua direita e de tarde ela se põe atrás do oceano a sua esquerda. Se você for o mínimo curioso vai pelo menos tentar achar uma explicação para o tal fenômeno.

O problema é que o homem antigo não tinha a ciência e as ferramentas que essa mesma ciência nos forneceu ao longo dos séculos. A coisa era bem rudimentar e, não incomum, os fenômenos eram explicados de forma sobrenatural e divina. De certa forma, a visão altamente sobrenatural do mundo era uma das ferramentas que estavam disponíveis e muitos assim o fizeram.

Um cidadão comum e leigo da antiguidade lançaria mão do conselho de um mago para lhe responder as suas dúvidas mais pertinentes. Dessa forma, se uma doença viesse inesperadamente, o mago mais próximo seria consultado. O mago seguiria alguns procedimentos arcaicos mas, sempre como pano de fundo, relegaria aos mistérios do universo tanto a causa quanto a cura.

Era um processo delicado e que só funcionava no nível psicológico porque a ignorância era generalizada: tanto mago quanto leigo eram ignorantes das reais forças que estavam a agir. Aqui, obviamente, nem entramos no mérito que a doença provavelmente não seria curada pelas mandingas do mago.

Com o tempo deixamos de abordar misticamente o universo e passamos a encarar o universo de forma sistêmica. A doença desconhecida que num passado poderia ser atribuída a uma maldição qualquer agora poderia ser decomposta e entenderíamos cada um dos seus componentes. Não só isso mas aprendemos também a contra-atacar a ameaça da doença.

O mesmo cidadão comum e leigo mas agora da pós-modernidade lança mão do conselho do médico para lhe tratar da sua doença. O médico segue seus procedimentos indescritíveis (aos olhos do leigo) e, ao cidadão, resta esperar que a cura venha.

Mesmo que nesse novo arranjo dos tempos exista a abordagem científica e que, através dela, a cura seja muito mais certa, do ponto de vista do leigo o efeito psicológico é praticamente o mesmo: estou doente, consulto um sábio e aguardo uma solução.

Magos e cientistas sempre foram intercambiáveis em funcionalidade e como papel social. Os cientistas, motivados pela eficácia da sua metodologia e dos seus resultados, suplantaram a posição dos magos. Os magos foram, ao longo dos séculos, esmagados pela máquina irrefreável da ciência.

Para alcançar a eficiência, os cientistas precisaram abrir mão de um grande componente que os magos possuiam: o mistério. O mago precisava do mistério para sobreviver enquanto o cientista precisa eliminar os mistérios para sobreviver. São cenários exatamente opostos. Um mago que sabe com detalhes como o universo foi formado parece mais um cientista enquanto que um cientista que relega os detalhes do universo à origens misteriosas se parece mais como um mago. A gestão do mistério é exatamente o que separa o mago do cientista e vice-versa.

O discurso padrão da ciência é sempre eliminar os mistérios. Não podem haver mistérios para a ciência. Se estes existem é simplesmente porque ainda não conseguimos estudar os fenômenos corretamente ou porque nossas ferramentas ainda são limitadas mas, para o cientista, o mistério é a floresta desconhecida que precisa ser desbravada. O mago olha para o floresta desconhecida e respeita o mistério que emana dela. Ao invés de desbravá-la, irá contemplá-la e admirá-la.

Mesmo que essa constante eliminação dos mistérios nos tenha sido tão útil em termos práticos, por outro lado perdemos a contemplação dos mistérios. Fizemos uma troca que nos pareceu boa: resolvemos adentrar na floresta dos mistérios e entender do que se tratavam ao invés de ficar do lado de fora simplesmente receosos do que poderia acontecer. No meio do caminho percebemos que a floresta, que antes parecia tão bela e maravilhosa, era apenas um matagal sem-graça. No caminho, as doenças deixaram de ser demônios de um universo fantástico e passaram a ser vírus e bactérias.

A eficácia dessa transformação é inegável no sentido prático mas perdemos e continuamos perdendo a capacidade de encarar o universo com aquele ar de estupefação e maravilha. Perdemos a capacidade de chegar na beira do abismo e sonharmos fantasticamente com os seres que viveriam no fundo do abismo. A aventura perdeu a graça; deixou de ser fantástica para ser algo trivial. Descemos uma sonda controlada remotamente que filma o fundo do abismo e vemos apenas uma pilha de pedras. Passamos a sonhar menos e vivemos menos em mundos fantásticos simplesmente porque desaprendemos o que significa fazer isso. Assassinamos o mistério descaradamente e, de quebra, destruímos nossa capacidade imaginativa.

Como leigos, consultar o mago nos faz sonhar enquanto que consultar o cientista nos faz acordar. O curioso é que todas as noites sonhamos mas, invariavelmente acordamos no dia seguinte. Talvez porque precisemos tanto de um lado mago como um lado cientista vivendo em nós: precisamos sonhar, imaginar, fantasiar mas também desbravar, organizar, racionalizar.

O erro reside em eliminar um em prol do outro como alguns insistem em fazer. Como seres humanos que somos precisamos sonhar e fantasiar na mesma medida em que precisamos descobrir. A racionalização do cientista não deveria substituir a imaginação dos sonhadores e esse é o maior erro da ciência e o pior legado que ela nos deixa: assassinar os mistérios.

Todos artigos dessa série de pensamentos:
Tiago Luchini · 15 Apr 2008