Ciência e Tecnologia

A maioria das pessoas confunde ciência com tecnologia e vice-versa. Essa confusão é compreensível e fácil de notar. Várias publicações no mercado carregam, por exemplo, ambos os termos em suas páginas: hora reportando sobre novos celulares, iPods e afins; hora reportando em detalhes as últimas descobertas da geologia ou da medicina.

A linha entre os tecnologia e ciência é realmente bem fina. Os grandes desenvolvimentos tecnológicos que tivemos nos últimos 2 séculos passaram obrigatoriamente pela ciência. Dessa forma, o computador que você usa hoje, o celular onde você fala e a TV-digital na frente da qual você se diverte são, em última instância, resultados de desenvolvimentos científicos inegáveis.

A ciência permite racionalizar as coisas e isso é essencial para enfileirar conhecimentos e transformá-los em dispositivos, remédios e outras amenidades da vida pós-moderna.

Mas isso não quer dizer que ciência seja tecnologia ou que tecnologia seja ciência. Ciência é metodologia enquanto que a tecnologia é uma personificação comercialmente viável de um ou vários braços dessa ciência. A diferença nesse sentido é abissal. Começa pela própria natureza comercial: o celular que você usa não é apenas uma revolução tecnológica mas sim uma manifestação comercial viável. Você só tem acesso a um porque o custo de produção das unidades e os investimentos em infra-estrutura são balanceados com a sua necessidade e/ou desejo de possuir um aparelho celular. No fim da equação, essa brincadeira gera dinheiro para toda uma cadeia produtiva que passa por operadoras, distribuidoras e fabricantes dentre outros.

O importante aqui é que a personificação prática e comercial da tecnologia a coloca num patamar diferente da ciência. As questões práticas e comercias vêm antes das questões de metodologia. Para perceber isso é preciso apenas notar como produtos maduros vão se distanciando dos princípios rigorosos científicos para se aproximarem mais da arte e das emoções. Pegue a cadeira como produto tecnológico por exemplo. Num passado remoto sentávamos em pedras, depois em tocos de madeiras até que um artesão possuidor do conhecimento específico de algumas ferramentas pôde montar uma primeira cadeira. O artesão se especializou, estudou nas melhores universidades, pesquisou ferramentas, métodos e materiais e desenvolveu as cadeiras mais resistentes, práticas, leves e simples de usar. A isso resume-se a evolução científica do produto “cadeira”. A questão entretanto é que, cadeira por cadeira, em última instância, até aquele toco de madeira atendia a necessidade original mais básica que é simplesmente sentar. O que precisamos são de cadeiras novas e atrativas - principalmente do ponto de vista comercial. Precisamos de cadeiras que agucem a vontade de possuir cadeiras nos consumidores. Nessa vereda a ciência dá um passinho para trás e convida artistas e designers para criar a “cadeira dos sonhos”.

O exemplo da cadeira é simplista mas facilmente conseguimos migrá-lo para produtos mais complexo e dos quais podemos acompanhar esse movimento nas últimas décadas. Carros, por exemplo, já não são vendidos simplesmente pelo rigor científico e metodológico ao qual se renderam os primeiros modelos de massa mas principalmente graças às linhas suaves traçadas por um artista em seu ateliê e ao status-quo que tal aquisição trará ao seu proprietário.

Se olharmos para as inovações tecnológicas mais badaladas da atualidade vamos enxergar essa revolução artística acontecendo não apenas recentemente como neste exato momento. Ouvir música em formatos digitais é algo bastante trivial há mais de 2 décadas. O formato portátil dessa prática também tem sido frequentemente comum mas, quando a Apple lançou o seu iPod e os serviços agregados do iTunes, uma revolução aconteceu no mercado. Acima de qualquer desenvolvimento tecnológico que tenha acontecido (e foram muito poucos) o maior trunfo da Apple foi integrar a arte e outros valores mais subjetivos ao produto. Abrir a caixa de um iPod é uma experiência única! Você percebe que o produto foi pensado como uma experiência total e que pequenos detalhes não passaram desapercebidos. O uso do dispositivo por exemplo coloca o ser humano em primeiro lugar e expõe uma interface intuitiva e simples. Nada de múltiplos e confusos botões que privilegiem a engenharia do produto.

Uma frase que ouço muito e até profiro no meu dia-a-dia é “precisamos pensar menos como cientistas e mais como artistas”. O foco aqui é o desenvolvimento de novos produtos e, pelo bem ou pelo mau, esta é a tendência.

O curioso dessa tendência é notar o seguinte movimento:

  1. A ciência e seus métodos facilitam desenvolvermos produtos úteis (com funcionalidade);
  2. Esses produtos úteis só chegam às nossas mãos se forem economicamente viáveis;
  3. Um toque de marketing mais novos desenvolvimentos e alcançamos patamares viáveis que trazem a tecnologia às nossas mãos;
  4. Com a maturidade do produto, o maior diferencial passa a estar mais próximo da arte e do humano do que do frio metodológico da ciência.
Essa visão das artes suplantando a ciência é peculiar pois a visão tradicional é reversa: que a ciência seja posterior a arte. Independente de qual das duas seja superior à outra o importante é perceber como a ciência em si só tem um alcance limitado (muito útil - porém limitado). Sem a adição de um “algo mais” que as artes frequentemente trazem a ciência tende a ser simplesmente algo frio e linear. A tecnologia é onde estas duas frentes se encontram ciência de um lado e a arte do outro. Na tecnologia elas se chocam para criar produtos que sejam úteis e atrativos.

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Tiago Luchini · 14 Apr 2008