Falácias e Verdades

Ateus e crentes cometem muitas falácias dentro dos domínios que pretendem conhecer. É natural: ambos os lados estão agarrados em determinados princípios e preconceitos que impedem que um lado abra-se para o outro.

Lendo um artigo de opinião ateu composto por Helder Sanches encontrei uma pérola:

"O fenómeno religioso não se sustenta nos mesmos princípios de racionalidade e de procura crítica da verdade, logo, o que para uns, enquanto ateus, seria suficiente para descartar a hipótese de Jesus, para outros é irrelevante, pois o conceito do imaginário, do sobrenatural e do sagrado fala mais alto. Isso transforma, muitas vezes, os diálogos em monólogos, o que, estou certo, não beneficiará em nada a procura da verdade."
Embora faça uma afirmação comparativa entre o fenômeno religioso e alguma outra coisa não especificada no texto, subentende-se que estaria comparando com o método científico. Diferente do que Helder afirma, o método científico em nada se interlaça com o fenômeno religioso. Não deveriam - pelo menos em princípio. O primeiro busca, via experimentação e observação, entender os fenômenos reproduzíveis e observáveis ao nosso redor. O segundo preocupa-se com questões de fé, éticas, morais e espirituais.

A maior falácia aqui entretanto está no uso da palavra “verdade”. Os ateus entendem “verdade” como tudo aquilo que pode ser reproduzido e colocado dentro de especificações científicas. Prefiro chamar esta “verdade” de uma forma mais correta e assertiva: “fenômenos observáveis”. Se eu largar uma maçã ao chão, ela vai cair. Isso não pode ser classificado como “verdade” mas simplesmente como um fenômeno que eu pude observar e que é totalmente reproduzível. Essa é a metodologia científica. Nada mais do que isso.

O que viria a ser a real verdade então? Jesus tinha o costume de usar o termo “verdade” em boa parte das suas afirmações. Numa delas ele nos relembra:

"Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus." (Mat 18:3)
Esta afirmação de Jesus é muito contundente e aponta para uma direção que desejo explorar nos próximos artigos. Jesus nos relembra que precisamos ser “como meninos” para entrarmos no reino dos céus. Enquanto muitos disputam poder, influência e recursos materiais, Jesus nos lembra que precisamos ser simples como crianças.

É importante perceber aqui que a afirmação de Jesus não diz respeito aos fenômenos observáveis. Ele não diz “façam-se como físicos e descobrirão como calcular a força da gravidade” - e nem nada do gênero. A recomendação é que nos façamos como crianças para entrar no reino dos céus. Essa grande verdade não está escondida atrás da ciência ou da sua metodologia e é ela que devemos buscar.

O paralelo é ótimo pois todos fomos meninos e meninas um dia. Todos nós sabemos - mesmo que lá no fundo - encarar o mundo pela simplicidade dos olhos de uma criança. Dessa forma, qualquer um de nós pode encontrar a verdade se a procurar. Diferente dos fenômenos observáveis que muitas vezes necessitam de um laboratório equipadíssimo ou de um gigantesco acelerador de partículas para se reproduzir um experimento, a verdade está acessível à qualquer um sem essa parafernália.

Em busca dessa verdade quero propor que façamos um exercício nas próximas semanas: que nos façamos como meninos e meninas para encontrar a real verdade - não esta que uma metodologia tenta nos empurrar.

Todos artigos dessa série de pensamentos:
Tiago Luchini · 3 Apr 2008