Choque Cultural - o meu exemplo

Como escrevi no começo desta semana, as causas de um choque cultural podem ser quaisquer combinações de quatro variáveis:

  1. stress
  2. fatiga cognitiva
  3. choque de papéis
  4. choque pessoal
Cada caso de choque cultural é diferente porque depende do ambiente para o qual a pessoa se mudou, do ambiente a partir do qual ela se mudou e, claro, em grande parte pela própria constituição e situação da pessoa.

Eu, por exemplo, não tive problemas com stress. Na verdade, se pudesse tê-lo talvez não haveria tanto choque cultural uma vez que a sociedade finlandesa é extremamente menos estressante do que a nossa brasileira - em todos os sentidos.

Já a fatiga cognitiva acontecia com muita frequência, principalmente nos primeiros meses. O caso que mais me recordo foi quando decidi comprar salame. É claro que o mercado não tinha aquele tradicional salame da Sadia ou até mesmo da Perdigão que eu estaria acostumado. Pelo contrário, existia uma gigantesca prateleira com centenas de tipos de salames (todos fatiados - para desespero da minha vontade de fatiar um salame) e todos contendo nomes bizarros - um sendo diferente do outro e em faixas de preços tão largas quanto pode-se imaginar. Muitos deles nem pareciam salames de verdade e tudo que eu queria era apenas escolher o melhor salame na relação custo X benefício depois de um dia cansativo no trabalho. Lembro-me que bateu um desespero e, por alguns segundos, uma atividade tão simples quanto comprar um salame parecia algo impossível de ser realizado. Um tipo de tilt mental que ficou marcado.

Quanto ao choque de papéis posso dizer que este sim caiu como uma surpresa para mim. Eu não calculava a importância que as relações interpessoais e os papéis sociais que eu assumia no Brasil tinham. Nem que dissessem tanto a respeito de quem eu sou e do meu próprio bem-estar. Quando estes papéis foram rompidos e novos papéis surgiram a coisa foi bem complicada. Criei um mundo de expectativas e passei por dificuldades para aceitar os novos papéis sociais. Por mais que a tecnologia esteja disponível, manter os mesmos papéis sociais e relacionamentos que tinha-se no Brasil é inviável. É cultural no Brasil a idéia do contato físico, do olho-no-olho do face-à-face. Sem estes componentes as pessoas perdem boa parte do interesse em relacionamentos e o seu papel social perante eles vai minguando gradativamente (ou até abruptamente em muitos casos). Como a cultura finlandesa é bem diferente no formato e no estabelecimento das relações interpessoais e até dos papéis sociais, eu fiquei realmente perdido.

Entendo o choque pessoal como uma extensão quase que natural do choque de papéis. Ele vem pela abrupta ruptura dos contatos interpessoais e você percebe como existia - inconscientemente - um sistema de suporte para sua auto-estima, auto-identidade e seus sentimentos de bem-estar e satisfação com a vida. Quando este sistema é perdido bate um sentimento de total destruição da sua auto-estima e da sua auto-identidade além do fato que seu bem-estar vai para o ralo. Pensando um pouquinho, não sobra muito depois que você perde tudo isso. Neste sentido agradeço a Deus por ter algumas pessoas sábias e pacientes ao meu lado para ajudar a não deixar a peteca cair de vez. Na literatura este tipo de choque é comparado à morte de uma pessoa querida ou de um grupo de pessoas importantes para você. Gosto desta analogia porque meu maior sentimento é que um ônibus com todos meus parentes e amigos caiu numa ribanceira matando todos ocupantes. Como o estúpido que acredita piamente que seus mortos voltarão para se comunicar com ele, assim fui eu também.

Tudo isso tem me feito aprender a respeitar mais ainda aqueles poucos que conseguem se adaptar a estas situações extremas.

Tiago Luchini · 15 Feb 2008