"É tudo culpa de satanás"

Conta a lenda que um time de informática preparava-se para apresentar a demonstração de um sistema para o cliente. Como é costume na área, a apresentação foi carinhosamente batizada de “sessão demo”. O problema foi que o cliente, evangélico fervoroso, entendeu “demo” como “demônio” ou “satanás” e consertar a confusão semântica causou certo desconforto.

A maioria das religiões tem o papel do opositor, do antagonista, daquela figura que vai contra os princípios que se acreditam central e positivamente. Para o caso dos cristãos este opositor é o famigerado “demo”.

Infelizmente, a característica mais marcante do dito cujo é que ele surge na doutrinação como um coringa que se encaixa em tudo aquilo que vai contra a opinião pessoal do doutrinador. O inimigo vai além das questões puramente espirituais e teológicas e passa a virar jargão frequentemente utilizado em qualquer situação antagônica.

Qualquer problema, qualquer dificuldade, qualquer pequeno entrave, antagonismo ou oposição é culpa do coitado do lúcifer na boca de um crente. O crente prefere fugir da responsabilidade ou evitar encarar os problemas ao resumir ignorantemente que a causa é “culpa da ação do inimigo”.

Um convidado muito sábio participava de um culto certa vez. O responsável pelo sistema de som do evento havia se atrasado e o som dava os altos-e-baixos pertinentes. Um irmãozinho começou a orar pedindo que a “ação de satanás” no sistema de som fosse “amarrada”. O visitante então lembrou que “satanás” não tinha culpa de nada e sim que o irmãozinho do som poderia ter chegado na hora e que a “ação demoníaca” simplesmente deixaria de existir.

No cristianismo encontramos vários atestados de ignorância, intolerância e incompetência. Acreditar que tudo é culpa do “inimigo” é simplesmente um dos piores.

Tiago Luchini · 29 Dec 2007