Perdidos no meio

Comentando sobre ciência e religião Winston Churchill, primeiro-ministro Inglês durante a Segunda Guerra Mundial, escreve sabiamente:

"Se você recebe uma mensagem que alegra seu coração e fortifica sua alma, que traz promessas de reencontro com aqueles que você ama num mundo de maiores oportunidades e maior harmonia, por que você se preocuparia com o estado ou com a cor do envelope manchado pelo transporte; acaso esteja com o selo incorreto ou com o carimbo dos correios certo ou errado?... O importante é a mensagem e os benefícios à você de recebê-la."
Gosto da frase porque aborda um assunto que me interessa (Religião & Ciência) e ilustra com um exemplo curioso.

Há quase 60 anos quando Churchill escreveu estas idéias, receber uma carta era algo muito especial. Cartas eram a única forma de comunicação realmente disponível às massas. Telefones ainda eram luxúrias somente para milhonários. No perído das grandes guerras a entrega de cartas era sofrível e altamente ineficiente, afinal de contas, fazer entrega de alimentos às massas famintas e moribundas era mais importante do que entregar pedaços de papel com mensagens.

Churchill sabia da importância de receber uma mensagem de alguém distante e amado. Sabia que mesmo que se a carta chegasse amaçada, manchada e rasgada pela viagem, o seu conteúdo era mais importante do que o formato. Sabia do estado em frangalhos que a carta poderia chegar caso tivesse conseguido atravessar as frentes de batalha.

Durante um ano eu e minha esposa mantivemos o nosso namoro à um oceano Atlântico de distância. Há meros dez anos a tecnologia - mesmo do telefone - não era tão acessível e trocávamos cartas efusivamente. Posso garantir que entendo a ilustração de Churchill: receber uma carta da pessoa amada é um momento único e especial. Se me perguntarem se recordo dos selos ou envelopes utilizados confesso que me importava a mensagem estampada naquelas folhas - geralmente à mão. Estas sim fizeram a diferença na minha vida.

Para Churchill era claro que ciência e religião eram apenas meios; a mensagem em si é o que importa: se forem mensagens de esperança, amor e um mundo melhor, muito que bem! O meio da mensagem é irrelevante.

Enquanto isso as cartas ficaram ultrapassadas. Substituímos pelo eficiente e-mail que, por sua vez, não altera o formato da mensagem. Você sempre recebe a mensagem rápida e inalteradamente do outro lado. Reduzimos a barreira do tempo e do trato físico que o transporte traz intrinsicamente.

Embora tenhamos ganhado em performance e produtividade, perdemos gradativamente a importância do conteúdo. A mensagem foi perdendo o valor porque ela é onipresente. Ficamos presos à superficialidade do conteúdo porque a forma passou a ser acessível, prática, banal e sem custo direto.

Estudamos a vida de pensadores e cientistas do passado que trocavam por correio idéias e enormes mensagens que perduram até os dias de hoje. Quantos dos nossos e-mails seriam dignos de virarem livros para as gerações futuras?

A nova e irreversível forma de trocar idéias deixou o conteúdo raso e o próprio processo de comunicação ficou banal o suficiente para não receber a devida atenção.

Não me surpreende o fato que tantas pessoas confundam ciência e religião. Uma geração que confunde mensagem e meio e deixa o segundo afetar o primeiro merece realmente ficar perdida numa ciência ineficaz e/ou numa religião falsa.

Triste mas verdadeiro.

Tiago Luchini · 7 Dec 2007