Sudário de Turim

O Sudário de Turim, chamado por muitos de Santo Sudário, é um destes artefatos curiosos. Preza a tradição que o sudário teria sido utilizado para envolver o corpo de Jesus quando colocado na tumba. O pedaço de tecido teria uma representação visível completa do corpo de Jesus incluindo suas costas, frente e face.

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Como é de se esperar quando um artefato desse tipo é estudado, mesmo que o carbono 14 tenha colocado o sudário como uma provável falsificação, a discussão entre os “à favor” e os “contra” continuam até hoje. Igualmente, também é esperado que as pessoas assumam posições praticamente religiosas que variam desde o ceticismo total indo até a crença absoluta e cega. Dos dois lados, existem pessoas que ignoram fatos e evidências.

Depois de anos sem me importar com o assunto, resolvi verificar as novidades. Recentes pesquisas forenses trazem alguns pontos curiosos que que valem comentar:

  1. Feridas das costas na imagem condizem com os chicotes utilizados pelos Romanos. O curioso é que artistas da idade média não tinham esse conhecimento e as representações artísticas dos chicotes desenham-os dos formatos mais diferentes possíveis. Para acertar nessa representação (assumindo que o sudário seja uma pintura) o artesão precisaria saber exatamente o chicote utilizado e suas feridas (como nós sabemos atualmente).
  2. No sudário, as marcas de perfuração para içar o corpo na cruz está nos punhos. Também outro fato incomum para a época das representações artísticas. Todas as pinturas retratam Jesus sendo pregado pelas mões e não pelos punhos. Hoje suspeitamos que ele tenha sido sustentado pelos punhos porque se o fosse pelas mãos, o peso do corpo rasgaria a palma no meio.
  3. O polegar opositor não aparece na imagem do sudário. A explicação forense para isso é que uma vez que o punho é perfurado, rompem-se nervos que retraem o polegar. Ou seja, para representar dessa forma, um provável artista da idade média precisaria de conhecimento médico e claramente prático para saber desse detalhe. Algo não muito comum na época e na profissão.
  4. Na ferida lateral realizada pelo centurião Romano, o sudário tem marcas de água juntamente com o manchas de sangue. Embora a Bíblia relate que água e sangue saíram da perfuração, os artistas normalmente desenhavam apenas sangue - aliás muito sangue - até porque água não é algo visualmente atrativo. O sudário tem manchas dos dois materiais.
  5. O tecido e o estilo da tramagem não estavam disponíveis na Europa da idade média. Para ter acesso a um tecido daquele tipo o artesão precisaria de um conhecimento de estilos de tramagem histórica e também à maquinários que não existiam na Europa na época onde a datação coloca o artefato. Outra possibilidade seria o artista ter acesso a um tecido da Palestina no primeiro século mas, neste caso, a datação teria colocado o sudário naquela época.
  6. Existe uma possibilidade de a datação ter sido feita numa parte do tecido que foi concertado. Apenas recentemente historiadores descobriram que artesões de altíssimo nível da idade média desenvolveram um processo para realizar emendas e consertos  praticamente invisíveis em artefatos preciosos. Tudo indica que o sudário teve sua barra refeita num processo desses e foi exatamente daí que saíram as amostras para a datação.
São pontos interessantes principalmente pelo fato que ainda não ficou comprovado como a imagem é estampada no tecido. Os céticos divergem ao sugerir várias técnicas das quais, nenhuma, consegue reproduzir o mesmo efeito.

O que impressiona é o fato que, para um artista da idade média ter realizado o sudário precisaria de:

  1.  um tecido do século 1 vindo da Palestina ou acesso à teares que pudessem produzir um ou então construir um tear especificamente para produzir o sudário;
  2. o conhecimento do tipo de chicote romano utilizado em Jesus;
  3. um cadáver que tivesse sido chicoteado e crucificado com perfurações pelos punhos ou, pelo menos, o conhecimento médico e prático das consequências disso;
  4. um método de pintura que ainda não descobrimos como replicar hoje em dia.
Tudo isso numa época onde um pedaço de madeira qualquer já virava um pedaço da cruz de Cristo. Por que um artista se preocuparia com tantos detalhes quando esses detalhes nem estavam disponíveis e nem eram cobrados pelo público? É de se questionar.

O interessante é que, mesmo que o sudário seja verdadeiro, ele só prova que um homem barbudo foi chicoteado e crucificado pelos punhos. Ou seja, ainda tem espaço tanto para céticos quanto para fanáticos especularem as mais absurdas idéias.

Tiago Luchini · 5 Dec 2007