Sudário de Turim
O Sudário de Turim, chamado por muitos de Santo Sudário, é um destes artefatos curiosos. Preza a tradição que o sudário teria sido utilizado para envolver o corpo de Jesus quando colocado na tumba. O pedaço de tecido teria uma representação visível completa do corpo de Jesus incluindo suas costas, frente e face.
Como é de se esperar quando um artefato desse tipo é estudado, mesmo que o carbono 14 tenha colocado o sudário como uma provável falsificação, a discussão entre os “à favor” e os “contra” continuam até hoje. Igualmente, também é esperado que as pessoas assumam posições praticamente religiosas que variam desde o ceticismo total indo até a crença absoluta e cega. Dos dois lados, existem pessoas que ignoram fatos e evidências.
Depois de anos sem me importar com o assunto, resolvi verificar as novidades. Recentes pesquisas forenses trazem alguns pontos curiosos que que valem comentar:
- Feridas das costas na imagem condizem com os chicotes utilizados pelos Romanos. O curioso é que artistas da idade média não tinham esse conhecimento e as representações artísticas dos chicotes desenham-os dos formatos mais diferentes possíveis. Para acertar nessa representação (assumindo que o sudário seja uma pintura) o artesão precisaria saber exatamente o chicote utilizado e suas feridas (como nós sabemos atualmente).
- No sudário, as marcas de perfuração para içar o corpo na cruz está nos punhos. Também outro fato incomum para a época das representações artísticas. Todas as pinturas retratam Jesus sendo pregado pelas mões e não pelos punhos. Hoje suspeitamos que ele tenha sido sustentado pelos punhos porque se o fosse pelas mãos, o peso do corpo rasgaria a palma no meio.
- O polegar opositor não aparece na imagem do sudário. A explicação forense para isso é que uma vez que o punho é perfurado, rompem-se nervos que retraem o polegar. Ou seja, para representar dessa forma, um provável artista da idade média precisaria de conhecimento médico e claramente prático para saber desse detalhe. Algo não muito comum na época e na profissão.
- Na ferida lateral realizada pelo centurião Romano, o sudário tem marcas de água juntamente com o manchas de sangue. Embora a Bíblia relate que água e sangue saíram da perfuração, os artistas normalmente desenhavam apenas sangue - aliás muito sangue - até porque água não é algo visualmente atrativo. O sudário tem manchas dos dois materiais.
- O tecido e o estilo da tramagem não estavam disponíveis na Europa da idade média. Para ter acesso a um tecido daquele tipo o artesão precisaria de um conhecimento de estilos de tramagem histórica e também à maquinários que não existiam na Europa na época onde a datação coloca o artefato. Outra possibilidade seria o artista ter acesso a um tecido da Palestina no primeiro século mas, neste caso, a datação teria colocado o sudário naquela época.
- Existe uma possibilidade de a datação ter sido feita numa parte do tecido que foi concertado. Apenas recentemente historiadores descobriram que artesões de altíssimo nível da idade média desenvolveram um processo para realizar emendas e consertos praticamente invisíveis em artefatos preciosos. Tudo indica que o sudário teve sua barra refeita num processo desses e foi exatamente daí que saíram as amostras para a datação.
O que impressiona é o fato que, para um artista da idade média ter realizado o sudário precisaria de:
- um tecido do século 1 vindo da Palestina ou acesso à teares que pudessem produzir um ou então construir um tear especificamente para produzir o sudário;
- o conhecimento do tipo de chicote romano utilizado em Jesus;
- um cadáver que tivesse sido chicoteado e crucificado com perfurações pelos punhos ou, pelo menos, o conhecimento médico e prático das consequências disso;
- um método de pintura que ainda não descobrimos como replicar hoje em dia.
O interessante é que, mesmo que o sudário seja verdadeiro, ele só prova que um homem barbudo foi chicoteado e crucificado pelos punhos. Ou seja, ainda tem espaço tanto para céticos quanto para fanáticos especularem as mais absurdas idéias.
