Estranhos irmãos
Por pura ignorância geográfica e muitas vezes histórica, às vezes me supreendo quando relembro que outros países tem o Português como língua oficial. Estes dias lembrei num espanto que Moçambique foi colônia Portuguesa e me maravilhei ao ver fotos de Macau com uma mistura colorida de frases em português e mandarim fora uma arquitetura colonial tradicionalmente portuguesa mesclada com toques chineses.
Mas não são apenas estes os “estranhos-semelhantes” para nós brasileiros. Por alguma razão histórico-social me parece que os próprios portugueses de Portugal são tão distantes. Talvez seja porque aprendemos nas escolas que eles nos exploraram, roubaram nossa identidade cultural, exterminaram a população local e deixaram o país em frangalhos quando o assumimos de mãos incompetentes.
Não só isso mas herdamos também uma língua importada e ineficiente que pouco ajuda nos nossos esforços comerciais internacionais além de não possuir raiz alguma regionalmente a não ser pelos diversos sotaques que o tempo e o sol na cabeça nos proporcionaram. Herdamos ainda uma tendência burocrática exacerbada e uma constante confusão entre o público e o privado.
Os portugueses também foram minoria na colonização. Muitos fugiram de volta para Portugal quando a coisa ficou feia em terras tropicais. Os muitos negros trazidos sob o modelo da escravidão e os milhões de imigrantes que vieram de todas as partes do mundo nos séculos seguintes à independência fizeram com que os genes e tradições portuguesas fossem ficando às moscas ou reservados exclusivamente às famílias tradicionalistas.
Enquanto isso o gigante Portugal do periodo colonial imperialista amargou séculos de achafurdamento. Depois deste período colonial, Portugal só viu seu prestígio internacional reduzir gradativamente. Por outro lado, a enorme e complexa cocha-de-retalhos chamada Brasil cresceu e cresceu muito. Cresceu a ponto de deixar Portugal apenas na sua sombra.
Com certeza isso não ajuda nas relações bi-laterais entre Brasil e Portugal e dá para entender porque os Portugueses bateram teimosamente os pés durante tantos anos nas reformas da língua propostas - principalmente pelo Brasil. Alterar a sua própria língua porque uma ex-colônia o está pressionando deve ser triste.
Mas existe algo mais. Fora o pouco da língua, nós brasileiros estamos muito distantes dos nossos irmãos portugueses. E, mesmo na língua, os sotaques e novos regionalismos são tão díspares que somente é possível nos comunicarmos por escrito praticamente.
O desenvolvimento no caso do Brasil ou a estagnação no caso de Portugal levou os dois países para rumos bem diferentes. O Brasil se industrializou, desenvolveu indústrias de sucesso mundial, trouxe multinacionais e utilizou o colorido e a alegria do seu povo para o sucesso nos esportes, do turismo e para uma hospitalidade peculiar.
Empurramos a própria barreira da religião imposta pelos colonizadores. O catalocismo no Brasil não aguentou viver dentro das rédeas emburradas do Vaticano e se modernizou, flexibilizou, radicalizou. Claro, sem esquecer de antes ter perdido - e continuar perdendo - fiéis e mais fiéis para as denominações protestantes - muitas das quais nítida e tipicamente brasileiras ou, no mínimo, abrasileiradas.
Criamos uma identidade própria e crescemos no cenário internacional em todos os sentidos possíveis enquanto ouve-se tão pouco de Portugal.
Seguimos caminhos distintos e nos distanciamos desses estranhos irmãos de língua.
Infelizmente, se continuarmos nesta estagnação política, social e econômica que estamos amargando recentemente, estaremos fadados a sermos apenas mais um Portugal no futuro próximo.
