Rapozas e Galinhas no Melhor do Mundo

Talvez por ser desconfiado demais nunca confiei 100% nessas urnas eletrônicas que usamos nas eleições no Brasil.

Talvez também porque computação é a minha área de atuação e eu sei com bastante (in)segurança como as coisas funcionam ou simplesmente porque eu entendo como os interesses políticos funcionam.

Fato é que ouvir e ler expressões como “pioneirismo”, “liderança”, “modelo bem-sucedido”, dentro outros, atreleados ao nosso processo eleitoral automatizado me assustam. Soam como se alguém estivesse tentando empurrar algo errado, muito errado guela-abaixo.

Para quem perdeu as notícias desses dias, o Congresso está com uma idéia daquelas “magníficas”. Querem transferir a administração e auditoria das eleições do TSE para uma Comissão do Congresso. Em outras palavras, os deputados - aqueles mais interessados nos resultados das eleições, seriam responsáveis por elas.

Como Josias de Souza escreveu: é como entregar a administração do galinheiro às rapozas. E o pior é que as rapozas têm todo o poder de fazer isso.

Talvez também exista algo errado com minha percepção de cadeia de valor. Não consigo aceitar aquelas tradicionais imagens das urnas eletrônicas sendo levadas em barcos, no meio do rio amazônia, para que os moradores miseráveis daqueles vilarejos remotos e sem eletricidade possam “exercitar a cidadania”.

Durante o resto dos 4 ou 5 anos até a próxima eleição, ninguém vai se dar ao trabalho de levar eletricidade, escola, saneamento básico ou um posto de saúde para aquela comunidade mas, é só chegar o dia da eleição, e alguém carrega orgulhosamente um computador de última geração que nem precisa de energia elétrica.

Sem conhecer nenhum desses moradores pessoalmente, posso garantir que, se eu fosse um deles, preferiria que alguém trouxesse energia elétrica para eu poder ter luzes de noite ou até uma geladeira para conservar meus alimentos do que trazer aquela porcaria de caixinha cheia de botõezinhos que não me serve para porcaria nenhuma.

E nem estou falando em conectar “nossa comunidade” ao mundo com telefonia, internet e etc. Queria só poder congelar os peixes pescados no dia e poder descansar eventualmente sem ter que descer até o rio todos os dias. Queria também não precisar investir em velas e lampiões.

Sempre me pareceu um contra-senso: vendemos um sistema como o “mais moderno do mundo” para um povo que carece de um simples esgoto.

Tiago Luchini · 19 Nov 2007 · filosofando