Esgotaram-se os assuntos

Não conseguia dormir. Uma daquelas idéias únicas que precisam ser colocadas no papel antes que virem apenas sonho bateu enquanto eu rolava na cama. Idéia boa, de repente até para alguma pesquisa acadêmica. “Será que alguém já escreveu sobre algo parecido no mundo?” me questionava.

Já que estava na frente do computador, nada mais prático do que verificar rapidamente e-mail e notícias antes de voltar para os meus sonhos de algorítmos infactíveis.

Até que tropecei com esta notícia. Alguns estudiosos de uma Universidade Americana resolveram pesquisar a influência das iniciais das pessoas sobre os esportes e resultados acadêmicos. Pior é que dizem ter encontrado uma relação direta!

Jogadores de basebol com sobrenomes começando com K são, em média, melhores do que outros jogadores. Isto porque os jogadores estariam incoscientemente buscando realizar “strike outs” - bons para o esporte. Já crianças com sobrenomes começando em C ou D tem notas piores nas escolas - pois é assim que notas medíocres são classificadas no sistema americano.

Muita coisa vêm à minha mente com este estudo. Vamos ficar só com as mais importantes.

Primeiro: isso é uma pura falta de assunto. Será que todos os assuntos interessantes já se esgotaram. Me coloco no lugar do cientista. O cara está lá procurando um tema qualquer que ninguém tenha pensado ainda até que ele grita para a esposa: “Já sei!!! Será que a quantidade de vezes que as pessoas vão ao banheiro tem alguma relação com suas tendências políticas?” Aí ele percebe a asneira que falou e vem com “Não… muito asqueroso… Já sei!!! Vamos ver se jogadores com letra K no nome são gays!!” Enfim, dá para pegar a idéia.

Segundo: a mídia precisa noticiar essas coisas? Isso prova que todos os assuntos foram realmente esgotados. Não existe nada de especial para noticiar. Algum lunático diz que crianças com sobrenome começando em C e D deveriam ser mandadas para Marte e outro maluco resolve publicar isso no jornal. Lamentável.

Terceiro: incrível alguém dar crédito para algo assim. A hipótese do estudo é totalmente enviesada. Eventualmente, sobrenomes com K podem ter alguma predominância em áreas que invistam em esporte enquanto famílias com sobrenomes C e D tenham predisposição genética para dificuldades escolares ou simplesmente se concentram em áreas de subnutrição.

Na prática existem tantas possibilidades maiores que apontariam para outras hipóteses mas os pesquisadores resolveram teorizar que as iniciais influenciam o inconsciente das pessoas e isso faria com que, se você tivesse o sobrenome Luchini como eu, teria automaticamente uma predisposição para doenças como Laringite ou Labirintite, preferiria Laranja ao invés de maçãs e escolheria profissões como Lenhador ou Larápio.

E mais: as iniciais influenciam o inconsciente em Inglês! Será que funciona multilíngue? Sei lá. Se você quiser que seu filho vá bem na escola no Brasil deve batizá-lo como “Vencedor Dez” (o “dez” é para posicionar a média dele lá em cima e o “vencedor” é para garantir).

Quanta asneira!

Certo professor de estatística conseguiu provar matematicamente que os bebês vêm das cegonhas. Sim, “compravado cientificamente”, como os céticos de plantão gostam de bradar. Ele utilizou dados reais de uma cidade em algum lugar na Europa. Os dados acompanhavam os nascimentos dos bebês ao longo de 50 anos e a quantidade de cegonhas na mesma cidade nos mesmos 50 anos.

Calculamos a correlação entre as duas variáveis e encontramos um coeficiente quase perfeito. Ou seja, mais cegonhas chegavam na cidade, mais bebês nasciam na cidade. Só poderia haver uma e apenas uma explicação: os bebês nascem das cegonhas! Óbvio!

O professor brincava conosco exatamente para mostrar como a ferramenta (estatística - ou ciência como um todo) é perigosa nas mãos erradas. Na verdade a quantidade de cegonhas aumentava porque, com mais nascimentos de bebês, vinha o próprio crescimento da cidade, que precisava de mais casas, que tinham telhados que atraiam novas cegonhas para fazer seus ninhos. Só isso. Por isso os dois números cresciam juntos (ou alguém já estava acreditando em mim?)

Este tipo de pseudo-pesquisa e a credibilidade muitas vezes dada a elas me irrita.

Dar ciência em mãos erradas é como dar uma metralhadora para um bebê de 3 meses.

Tiago Luchini · 18 Nov 2007 · filosofando