Schadenfreude
No musical cômico Avenue Q um dos personagens é expulso de casa e passa a viver nas ruas abandonado e humilhado. Outro personagem, amigo do primeiro, se aproxima e começa a cantar em tom triste e melancólico:
Gary: Neste exato momento você está pra baixo e excluído se sentindo um verdadeiro lixo
Nick: Eu que o diga.
Gary: E quando eu vejo a sua tristeza… ela faz eu me sentir… …feliz!!!
Nick: Feliz?!?!
A música se chama Schadenfreude e explica o que esta palavra de origem alemã significa. Schaudenfreude é a felicidade pela desgraça de alguém e, embora não tenha paralelos em inglês ou português, existe em finlandês: vahingonilo.
Sentir felicidade pelo desfortúnio de alguém parece algo mau e que a maioria das pessoas não estaria disposta a fazer.
Infelizmente não é assim que funciona. Cientistas identificaram a área do cérebro responsável pelo sentimento de schaudenfreude. Toda vez que você sente pena de alguém numa situação ruim, sua área de schaudenfreude é ativada. Seu cérebro está liberando seratonina para te recompensar pelo fato de não ser você a pessoa naquela situação miserável. Isto explica exatamente porque que temos muita facilidade de chorar com aqueles que choram ao nosso redor. Sentimos a segurança de saber que não estamos nos seus lugares.
Perceba como as pessoas tendem a ser muito mais amigáveis com aqueles em piores condições do que perante aqueles que estejam em melhores situações. É muito mais comum receber uma palavra de apoio e motivação quando se está miserável, acabou de perder o emprego ou perdeu alguém querido. As pessoas se aglutinam com sentimento de compaixão. O cérebro gosta de se sentir assim e saber que não está passando por aquela situação.
Por outro lado, receba uma promocão, passe num concurso complicado ou ganhe um prêmio especial: poucas pessoas consiguirão se alegrar com você. O sentimento de inveja libera estímulo negativo para o cérebro. Não é prazerioso para as pessoas se alegrar com a sua alegria. O cérebro delas inveja o seu sucesso e atua negativamente sobre suas reações.
Faça a experiência: olhe pela sua janela num dia chuvoso e/ou frio. Observe aquele transeunte ensopado e/ou sem o tipo de proteção que seria necessária para o clima. O que você sente por ele? Pena? Dó? Comigeração? Perceba como seu corpo reage positivamente ao seu ambiente: você está satisfeito por estar aquecido e seco enquanto aquele indivídio está lá fora sofrendo.
Volte os olhos então para aquele playboy num carrão importado. Aquecedor ligado, água caindo do lado fora mas o ambiente controlado do caríssimo carro permite uma música tranquila de alta qualidade em um ar aconxegante e confortável. O que você sente por ele? Pena? Como sentia pelo ensopado? Inveja porque seu carro tem uma goteira? Ou porque você nem tem carro? Perceba como seu corpo reage negativamente ao seu ambiente: você já não está mais satisfeito por estar aquecido e seco, você queria estar aquecido e seco dentro daquele carrão.
Na melhor das hipóteses você é desprendido o suficiente e simplesmente nem se importa com o indivíduo do carro importado. Mesmo assim, suas reações foram diferentes.
Entender o schaudenfreude é muito importante por dois motivos:
- toda vez que você está um lixo pode ter a clara noção que está prestando um serviço à sociedade. Pelo menos as pessoas estão ficando mais felizes acompanhando sua desgraça. Além disso, você aprende a rir da sua própria desgraça;
- você pode observar aqueles “por cima da maionese” e, ao invés de invejá-los, apenas se alegrar com eles. Garanto - é muito mais divertido do que sentir inveja.
Infelizmente alguém nos ensina que schaudenfreude é errado. Minha primeira repressão do scahudenfreude foi quando eu tinha uns 10 anos. Andava pela praia com um amigo mais novo e com seu pai. O menino mais novo resolveu subir num suporte de algum barco, perdeu o equilíbrio e caiu de cara na areia fofa. Além da engracadíssima queda, levantou com a cara cheia de areia só com os olhos e a boca aparecendo. Engracadíssimo e, claro, meu cérebro estava feliz de não ter sido eu o estúpido a fazer aquilo. Entrei numa gargalhada incontrolável e levei uma baita bronca do pai do menino: “Não se ri das desgraças dos outros.”
Hoje rio das minhas próprias desgraças e sou muito feliz!
Aprecio sinceramente as alegrias dos meus amigos sem deixar de me compadecer pelas suas desgraças!
E rio de tudo isso. Rio muito!
PS.: querendo ouvir a música sinta-se em casa. Esteja preparado para um inglês americano cheio de regionalismos e palavrões (eu avisei!)
