Sã consciência

Muita gente aqui na Finlândia nos questiona o por quê de termos vindo para cá. O questionamento faz sentido: na cabeça de muitos finlandeses e estrangeiros em geral passa algo como “Por que cargas d’água alguém, em sã consciência, deixaria um país ensolarado, cheio de riquezas naturais e repleto de oportunidades para trás?

Não só isso mas o Brasil é um lugar relaxado (onde as pessoas nem precisam trabalhar muito), divertido (só tem feriado, carnaval e festa) e cheio de mulheres lindas (nossas brasileiras só não são corretamente apreciadas no Brasil). Sendo esta a realidade ou não, pelo menos é a propaganda que fazemos.

Por que alguém deixaria esse paraíso em troca da Finlândia?

Se continuarmos nos detalhes, a troca parece ainda mais imbecil. Os níveis de renda aqui na Finlândia são menores do que os níveis de renda da classe média no Brasil. Vou repetir em outras palavras porque poucas pessoas entendem isso: o poder de compra médio do Finlandês é menor do que aquele da classe média paulistana por exemplo. A quantidade de pessoas no Brasil que acha o contrário é assustadora talvez por essa mania de depressiarmos o nosso país.

A Finlândia é um país pobre e sem riquezas naturais. Há poucos anos ainda era um país tipicamente agrícola. Aliás, muito pouca coisa é possível de ser plantada por aqui simplesmente por questão do inverno absurdamente severo. Tudo que é plantado é com um esforço absurdo que beira ao praticamente inviável. Carne? Só das renas e alces que aguentam - mais ou menos - o frio. Riquezas tipicamente naturais apenas mato, água e neve. Muita neve.

Sem nem pensar muito, o Brasil é muito abençoado com os gigantescos recursos que tem. Para realizar uma simples refeição aqui, os finlandeses precisam ralar e muito.

A indústria finlandesa nem chega perto da indústria brasileira em termos de diversidade. Nem montadoras de veículos existem por aqui! Também, existem apenas apenas 5 milhões de habitantes que aliás, se contentam com uma das frotas de veículos mais velhas da Europa.

Durante séculos a Finlândia se viu hora invadida pela poderosa Suécia, hora invadida pela também poderosa Rússia. Quando Suécia e Rússia resolviam se atacar mutuamente, o faziam aqui na Finlândia.

Para negociar independência da Rússia, a Finlândia precisou se comprometer comercialmente e financeiramente com o império Russo. Em alguns livros de história o acordo é chamado literalmente de extorsão.

Aqui se fala o Finlandês, língua de origem Finno-Úgrica e que só é falado aqui e em nenhum outro lugar do planeta. As duas línguas irmãs (Estoniana e Húngaro) estão mais para primas do que propriamente irmãs. O Brasil tem o Portugês, terceira língua ocidental mais falada no mundo (atrás do Espanhol e Inglês). Dominamos também facilmente as outras línguas ocidentais mais faladas e temos o ocidente inteiro para fazer negócios sem muitas dificuldades.

Por que alguém deixaria o Brasil em troca pela Finlândia?

Já aprendi a responder este tipo de questionamento bem rapidinho para não entrar em detalhes desnecessários. Geralmente respondo perguntando se a pessoa gostaria de morar numa cidade com 22 milhões de habitantes disputando os mesmos trabalhos, as mesmas riquezas e os mesmos espaços. A maioria das pessoas nem consegue imaginar esse cenário e não entra em maiores detalhes.

Nós, brasileiros, não sabemos valorizar o que temos. Achamos que os além-mares são sempre melhores. Os livros de história e sociologia já nos explicam esse fenômeno: nascemos com os olhos voltados para a Europa e para os EUA. Deixamos de ser brasileiros em troca de migalhas derrubadas pelos “irmãos” do norte.

Deixamos de fazer aquilo que é nosso se tornar algo dignamente especial porque especial mesmo é o que vem de fora, é o importado. Viajar de São Paulo para Miami é mais barato do que o trecho São Paulo para muitas cidades no Brasil. E faz sentido: toda a classe média para cima quer fazer compras em Miami porque lá sim as coisas são chiques! Ninguém quer visitar Petrolina. Chique mesmo é levar os filhos para a Disney - não para o interior de Minas.

No caminho vamos perdendo aquilo que Deus nos deu. Vamos perdendo um povo alegre, etinicamente diversificado, culturalmente rico em troca dos lixos importados. Esquecemos das riquezas naturais que temos e importamos gás-natural da Bolívia para gerar energia para nossas casas. Esquecemos que a hidro-elétrica de Itaipu, uma das maiores obras de engenharia do mundo, foi feita com suor, sangue e, acima de tudo, com a inteligência e diplomacia do povo brasileiro. Mas deixamos os Chineses copiar tudo do jeito que bem entendem, afinal, eles são importados: devem saber o que estão fazendo.

Invejamos os políticos honestos dos outros países que fazem história mas aceitamos levianamente não só os nossos políticos corruptos mas também, acima de tudo, uma corrupção entremeada no nosso dia-a-dia; nas pequenas coisas. Somos todos coniventes de um sistema corrupto.

Reclamamos da violência mas erguemos muros, contratamos seguranças e blindamos carros. Não queremos a violência perto de nós mas aceitamos que ela aconteça ao nosso redor desde que não nos afete. Desde que aquele indivíduo que morra seja o filho do outro e não o seu; azar dele. Somos hipócritas e egoístas.

Fazemos o mesmo com saúde, educação e tantos outros direitos básicos: corremos para proteger aquilo que é nosso e esquecemos os direitos dos outros. O que importa é dar educação e saúde para seus filhos; se os filhos dos outros estão doentes e com uma escola fraca é porque eles merecem de alguma forma doentia e maléfica. Somos cegos para os outros e só enxergamos porcamente o nosso próprio umbigo.

Isso vai subindo: claro. Nosso presidente manda os filhos para estudar no exterior (afinal, tudo que vem de fora é infinitamente melhor, não é mesmo?) e depois facilita uns contratos públicos para os filhos ficarem milionários (afinal, ter uma “forcinha” não é mau nenhum, não é mesmo?).

Enquanto isso, milhares de crianças quase não sabem ler e participam de programas escolares de fachada compostos por professores mau-pagos e que, por si só, sabem pouco mais que aquelas crianças. Mas quantos milhares de filhos da classe média também não estão se beneficiando de escolas infinitamente melhores do que aquelas crianças do interior ou da periferia? Incorremos no mesmo crime que nosso presidente - só mudamos a escala. Aceitamos as coisas com muita facilidade.

Queria ter orgulho do meu país não pelo seu futebol medíocre ou pelo seu povo alegre, mas principalmente porque o povo se levanta para mudar as coisas.

Como temos um povo leniente, apático e egoísta, na atual situação, não consigo ter orgulho - apenas pena e tristeza - dois sentimentos que preferia não ter.

Tiago Luchini · 7 Nov 2007 · finland