Dúvida Sistêmica

Peace

Estou nesta fase de duvidar de tudo. O grande princípio da dúvida sistêmica de Descartes deve ter - até que enfim - feito algum efeito em mim.

Fato é que enchemos o nosso mundinho de referências e preceitos que muitas vezes não condizem em nada com a realidade. Veja o símbolo ao lado, por exemplo. O que ele representa para você?

Sob as influências de várias fontes durante minha infância e adolescência no Brasil, este símbolo acabou significando o movimento religioso da Nova Era, do Satanismo ou de algum grupo baderneiro, desordeiro e ameaçador da paz.

Descobri recentemente que este símbolo foi criado em 1958 por Gerald Holtom para a sua ONG chamada CND (iniciais em Inglês para Campanha de Desarmamento Nuclear). A CND foi concebida como um movimento pacifista de oposição pública ao armamento nuclear no meio do século passado e tem, desde então, se oposto a diversas ações bélicas como inclusive, a campanha militar americana contra “o terror”.

Fato é que, se opor às políticas americanas é quase como se opor a Deus e, quem se opõe a Deus é de Sataná. Pronto: em uma linha expliquei como o símbolo da CND caiu na cultura como algo subversivo: afinal de contas, pela lógica americana, quem tem a coragem de questionar o programa bélico americano senão algum baderneiro ou o próprio Demo em pessoa?

Pior é que a nossa cultura brasileira de copiar tudo que nasce nos EUA importou essa asneira. Ninguém se deu o trabalho de questionar o conceito importado. Simplesmente pegaram o pânico instaurado na cultura americana, jogaram na cultura brasileira e voi la: começam a sair centenas de pessoas limitadas em sua forma de pensar ou encarar o mundo.

Assista a Sicko de Michael Moore. Adorei: mostra a política de seguros saúde nos EUA. O resumo da ópera é que o governo deliberadamente decidiu privatizar o setor para que a iniciativa privada tivesse lucro sobre os pagantes ao prover o mínimo possível de atendimento médico aos necessitados. “Quanto menos atendimento, melhor!” é o slogan.

No meio do caminho, os EUA fizeram campanhas didáticas explicando que, assistência médica pública seria o primeiro passo para o comunismo (aquele, dos russos-comedores-de-criancinhas, lembram?) Asneira das mais ridículas!

Enfim, cada dia que passa eu crio mais e mais filtros para as coisas que ouço ou que me ensinam. Ninguém é 100% livre de interesses e seus interesses acabam sendo mais importantes do que a lição em si.

Tiago Luchini · 21 Oct 2007 · filosofando