Imaginação
Tentava explicar para o meu filho de sete anos o que é imaginação. Como se explica imaginação? É algo bom? Ruim? Onde aprende? Está à venda em algum lugar? Compra na feira?
Talvez por essa dificuldade que acabe faltando imaginação na mochila de muita gente. Hoje estamos muito distantes das lendas do passado que tentavam explicar o mundo ou até mesmo das rádio-novelas que requeriam uma tremenda imaginação para “visualizar” a estória. Estamos em contra-partida, muito próximos de uma ciência que finge explicar tudo ao nosso redor com detalhamento e certeza milimétrica e de um cinema que renderiza um universo de forma tão palpável que a nossa imaginação fica atrofiada.
Os livros que mais vendem são os de auto-ajuda. As boas e imaginativas ficções vão ficando encostadas e só vendem se vierem das penas de algum guru famoso ou se pseudo-prometerem alguma mensagem subliminar de auto-ajuda. As pessoas se acotovelam para comprar o mais novo guia de auto-ajuda (na minha concepção melhor batizados de livros de “dicas de outras pessoas para ajudar a sua vida”) enquanto as grandes histórias e estórias são esquecidas.
Existem também os extremos: de um lado os terroristas que possuem uma imaginação tão vívida a respeito do pós-vida que estão dispostos a cometer suicídio levando consigo as vidas de milhares de inocentes. No outro extremo temos políticos tão sem imaginação que não conseguem levantar sequer uma idéia criativa para resolver problemas tão básicos como a corrupção ou a educação.
A falta de imaginação nos leva a uma planície bem triste e desolada: aquela onde as pessoas não tem imaginação suficiente para ver o mundo através dos olhos das outras pessoas. Onde a distância entre o “eu” e o “outro” é alargada pelo simples fato de não se entenderem mais e serem incapazes de apreciar o mundo sob perspectivas diferentes e respeitando essas diferenças.
Sem enxergar o universo sob as perspectivas dos nossos próximos criamos um mundo de adversidade e isolamento. Nesse caso corremos para as livrarias para adiquirir “aquele” livro de auto-ajuda para “abrir os nossos horizontes” - estes mesmos que fechamos pela falta de imaginação.
E não deixem de comprar meu livro de auto-ajuda quando eu lançá-lo! Vai ser chamado de “Não é um livro de auto-ajuda!” ou “Não procure ajuda aqui”!
Notas
- Coloque junto o “guru famoso” e “pseudo-mensagem subliminar de auto-ajuda” e chegamos em Paulo Coelho, o grã-mestre dessa cultura destrutiva da imaginação.
- Certa vez um linguista citou repudiar a palavra “tolerância”. Segundo ele, usamos “tolerar” no sentido de “suportar, aguentar, viver com aquilo mesmo que não seja prazeiroso ou aceitável”. Desta feita, colocamos “tolerar” em frases como “Ciclana tolera os hábitos violentos do marido”, “A tolerância entre israelenses e palestinos é instável” e etc. O “tolerar” supõe que não entendemos a perspectiva do outro mas mesmo assim a toleramos. A idéa da imaginação como ferramenta para entender a perspectiva do outro é diferente: ela gera respeito e entendimento - nunca tolerância. A tolerância vem como um subproduto do respeito à perspectiva de outrém.
