Trocando o "mais" pelo "menos"
Este artigo começou como uma resposta ao post Humanos são Humanos do amigo Sérgio Seloti e se desenvolveu a ponto de merecer um cuidado especial.
Você já percebeu que temos a tendência de trocar sempre o “mais” que uma tecnologia nos traz pelo “menos” de outra coisa? É aquela famosa piada do “engenheiros resolvem problemas que existem para criar outros que não existiam antes”.
Há um século, trocamos as carroças por carros. Ganhamos velocidade, autonomia, distância e etc. Olhando o salto de tecnologia, teríamos menos tempo nos transportando e mais tempo para outras atividades mais importantes. Mas não foi o que aconteceu. Na verdade ganhamos engarrafamentos, acidentes e cidades estruturadas ao redor da idéia de que você tem um carro então pode se dar ao luxo de ir até um mercado há kilômetros de distância da sua casa. Ganhamos benefícios com o carro e também ganhamos outros problemas.
Temos celulares e recebemos milhares de ligações de trabalho, estudo e rotina todos os dias. As comunicações ficaram rápidas, fáceis, baratas e tão automáticas quanto sacar um pacote de balas do bolso. Olhando para a tecnologia, resolveríamos os problemas profissionais rapidamente e teríamos ainda a chance de filosofar sobre coisas importantes com amigos e familiares. Mas, na correria do dia-a-dia, perdemos a capacidade de filtrar aquela ligação especial de um amigo ou da pessoa amada e de aproveitar aquele tempo. Ganhamos benefícios com os celulares mas também ganhamos outros problemas.
Não sou nenhum fatalista tecnofóbico - pelo contrário - acho que temos muito que desenvolver ainda (afinal, meu trabalho também depende disso). Mas toda tecnologia traz consigo o fato de o ser-humano se adaptar a ela. O ser-humano vai continuar se adaptando mas deveríamos dar um passinho para trás e reconhecer que estamos deixando nossas mazelas serem captalizadas pela tecnologia.
Antes de assumirmos automaticamente que “o mundo é assim” deveríamos olhar um pouco a partir de outra perspectiva, poder ter a liberdade de controlar a tecnologia e não deixar ser controlado por ela. Não é uma atividade fácil porque já nos acostumamos a “deixar a onda nos levar” principalmente porque somos levados a acreditar que temos uma liberdade fajuta.
Quando você vai comprar um carro, por exemplo, tem aquela impressão de ter a liberdade de escolher qualquer carro dentro de determinada faixa de preços. Abre os jornais, conversa com amigos e parentes e começa a construir o “carro dos sonhos” que se encaixe na sua restrição orçamentária. Conforme sua visão do carro vai evoluindo, vários preceitos vão se agregando subjetivamente através dos diversos inputs que você recebeu: determinada marca quebra muito, outra a manutenção é cara, aquele modelo tem o seguro caro, aquele outro é muito de mulher/homem e, principalmente, você se vê dentro do carro e tenta imaginar qual a mensagem que você está transmitindo. É uma imagem de estilo? De status? De riqueza? De simplicidade?
Neste estágio o carro deixou de ser simplesmente um meio-de-transporte e virou uma massa de conceitos que já não dizem mais respeito ao seu objetivo original. Aquela “liberdade” que você sentia vira uma malha de “restrições” e você já nem se lembra da sua liberdade original.
Nossos celulares deixaram de ser simples telefones móveis para se transformar em pequenas maravilhas-fazem-tudo. Cada vez que resolvemos trocar de aparelho (um ato que, em si só, mostra nossa escravidão ao sistema) vamos à loja e partimos para os modelos que possuem mais recursos. Tela colorida, câmera fotográfica, câmera de vídeo, suporte a jogos, acesso à internet e etc.
O fenômeno do iPhone virou até um ícone deste desespero consumista. O aparelho já nasceu como uma maravilha que faz “tudo o que você precisa”. A Apple definou algo como 3-em-1: tocador de MP3, celular e terminal de internet móvel. Milhões correram às lojas sob a “quase-obrigação” de possuir o celular “mais moderno do mundo” para descobrirem, em poucas horas, que fazer ligações na aparelho não é tão simples e que, outras funcionalidades tidas como certas num aparelho destinado para conversar com outras pessoas (entenda-se “celular”), estavam simplesmente faltando no dispositivo da Apple.
Nossa própria natureza má está, através da tecnologia, nos aprisionando gradativamente ao redor de pequenas coisas que já não são mais importantes. Minha saúde e meu tempo em família são mais importantes do que o status do carrão de luxo na garagem. Investir tempo trocando idéias com meus amigos é muito mais importante do que um aparelho que já nem sei para que serve no meu bolso.
E isto não é porque estou ficando velho e pouco adaptado às tecnologias - muito pelo contrário - descobri que os mais adaptados às tecnologias são aqueles que entendem os seus efeitos sobre o ser-humano e que têm o poder de moldar estes efeitos em suas vidas.
Que você também saiba mostrar quem manda!
