Che Guevara e Simulacra
Estou sofrendo para ler Simulacra e Simulação” de Jean Bauldrillard. “Sofrendo” é um ótimo verbo pois a) o indivíduo escreve de forma eloquente e totalmente indigesta, b) suas idéias são muito além da minha capacidade intelectual e c) é bem complicado tirar algum sentido desse filósofo totalmente à frente da sua era.
Mesmo assim estou me esforçando - acredito que vale a pena dar crédito àquele que já antevia a internet, os reality-shows e o youtube há quase 30 anos.
Seu ponto central é que perdemos gradativamente o referencial da realidade pela simulação que criamos daquilo que entendemos como “realidade”. Com o tempo, a simulação é tão grande, tão carregada de significado e tão palpável para nós que a realidade já não existe mais (radical né?) A isso ele chama de simulacra.

O legal foi ler um exemplo no jornal hoje. Che Guevara simbolizava um movimento revolucionário desde mais de 40 anos atrás. Depois que morreu, a imagem ao lado foi uma das mais reproduzidas do século 20. Tão reproduzida que virou arte pop, camisetas, pichações e, veja só, até embrulha sorvetes, cigarros e picolés (sabores cereja ou goiaba).
É um símbolo de revolução desbancando para o próprio capital e para o sistema de produção ao qual era radicalmente contra.
Bauldrillard teoriza que os antagonismos (revolucionários por exemplo) não existem. Na verdade eles fazem parte de um mesmo eixo para sustentar a simulacra em que vivemos. Desta feita, revoltar-se contra o capital é apenas um estímulo para que a simulacão social criada pelo sistema de produção continue se auto-sustentando.
Bauldrillard vai além e fala dessa nossa tendência de olharmos para o passado com deslumbramento e com aquele desejo de reprodução cada vez mais fidedigna. Segundo ele, cada vez que fazemos isso, recriamos e retroalimentamos a simulacra ao selecionarmos (conscientemente ou não) como a história deve ser desenvolvida (simulada). Essa nossa tendência é prova de que a realidade já não existe mais e que a simulacra é maior e auto-sustentável em si mesma.
Exemplo em Che Guevara: aos pouquinhos “novas biografias começam” a expor o lado negro de Che Guevara derrubando a “mística do personagem” (“novas biografias” pelo nosso desejo de retroalimentar a simulacra e a “mística do personagem” existe tanto sob a influência de um lado branco - revolucionário? - como de um lado negro - arrogante e egocêntrico?)
Resumindo: alguém aí sabe quem foi Che Guevara? Eu só sei que a sombra do personagem ecoa na simulacra em que vivemos e que, nada disso, é real! A simulacão é mais real que o ser-humano batizado de “Che”.
