Eu e os Chatos
Já mencionei anteriormente que sou chato né? Se não o fiz, deveria.
Até pouco tempo eu achava que o mundo era chato e eu que era o único normal. Recentemente mudei de idéia: o mundo vai muito bem obrigado e eu que sou um chato de plantão. Confesso que minha vida tem sido muito mais satisfatória desde que abracei essa nova abordagem.
Na infância, nunca um apelido “pegou” em mim. Não adiantava os melhores “apelideiros” trabalharem duro nos mais fantásticos apelidos - nenhum que se referisse a mim realmente virava moda. O único que durou umas 3 semanas foi “Antônimo” e acho que foi o mais preciso apelido que alguém já me deu. Foi um professor que assim me nomeou numa aula de Português. Eu tentava provar que o sinal de trema era inútil ao que o professor vociferava que seria “um assassinato à língua Portuguesa”. Foi quando ele comentou que eu era um constante “Antônimo” e alguns alunos estavam acordados o suficiente para lembrar do assunto depois. Se o indivíduo ainda estiver vivo, deve estar se corroendo com o assassinato do trema anunciado para Janeiro.
Ser chato tem essa característica deliciosa: você pode ir contra tudo e ter as mais bizarras opiniões. Afinal de contas, você é chato mesmo! As pessoas simplesmentem aceitam isso ou te ignoram. Se elas te aceitarem, ótimo! Se te ignorarem, qual o problema?
O único problem existe em o chato achar que suas opiniões são as únicas, corretas e imutáveis e cair no erro dos prepotentes partindo para o “lado negro da força”. Se você é um chato bonzinho (do lado “branco da forca”) sabe que suas opiniões só vão encher o saco dos outros e ponto-final. Afinal, você é chato!
Mas ser chato tem um lado triste: a tendência de ficar isolado e ser frequentemente ignorado é grande. Para estes casos, existem outros chatos igualmente insuportáveis como você espalhados por aí. É difícil achá-los pois, na maioria dos casos, ou se escondem atrás de prepotentes-lado-negro-da-força ou desaparecem virando farinha-de-rosca em algum lugar.
Conforme vou achando mais chatos que não dão a mínima se suas idéias são absurdas e que não ligam para o que os outros vão achar, vou ficando mais motivado a persistir na minha chatice.
Veja o caso de Jeff Atwood. Ele acaba de escrever um livro. Qual foi sua conclusão? Que é uma porcaria gastar tempo escrevendo um livro, que ele não gostou do tema, que não vai dar dinheiro e inclusive recomenda que as pessoas NÃO comprem o seu livro e ainda explica o porquê. Qual a melhor parte de escrever um livro? Ele também explica: quando o seu ego vai até o Amazon.com e procura pelo seu nome para achar um livro. Meses de intenso trabalho para isso.
Um nítido chato de galhocha! Adorei sua experiência. Eu pensaria de forma muito semelhante e talvez a única diferenca é que eu não tenha me engajado tanto a escrever um livro para só chegar a essa conclusão depois. Parei várias vezes entre os capítulos 3 e 6.
Outro chato que entrou na minha cabeça desde jovem e nunca mais saiu é Scott Adams. Vale lembrar que ele é um economista que ganha a vida como cartunista. Suas piadas e seus textos são simplesmente a visão chata das coisas. Ele não é humorista. É só um chato.
Esta semana ele propôs, por exemplo, resolver todos os problemas da humanidade. Como? Fazendo com que todas as decisões de governabilidade sejam feitas em cadeia nacional numa espécie de reality-show onde vários lados batalhariam pelos votos dos telespectadores.
Vai ser chato assim lá nos Estados Unidos! Idéia estúpida? Claro! E nem cito os textos onde Adams questiona até coisas tão certas como a gravidade. Este é o papel do chato: pegar tudo que parece óbvio e virar do avesso, colocar de ponta-cabeça, quebrar e transformar. Ver tudo sob uma perspectiva diferente.
Estes chatos são raros de encontrar. Como já disse, chatos ou viram prepotentes ou farinha-de-rosca. Esses que pensam diferente e o falam sem esperar que algo mude são espécie rara. Exatamente por isso que penso em abrir a Associacão dos Chatos Conscientes da sua Chatice (a ACCC). O mais difícil vai ser convencê-los a participar.
“Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.” Mário Quintana
