Sem parâmetros
Certa vez alguém fez um paralelo que me soou engracado na hora. Disse que somos tão infinitamente pequenos perante Deus que somos menores do que uma sujeirinha-de-umbigo. Quando ouvi, achei uma ilustracão bizarra. Imaginei um Deus gordão com um umbigo gigantesco e nós lá dentro. Claro que eu estava enganado: não era isso que a pessoa pretendeu expor.
Mas fato é que nos achamos muito mais importantes do que realmente somos. Vivemos nossas vidas de estudo e trabalho na busca por melhores posicões profissionais, melhores carros, melhores casas, melhores equipamentos eletrônicos. Buscamos a satisfacão do nosso próprio EU, daquele que realmente manda e desmanda. Temos nossas vidas e mandamos nelas, as controlamos como bem queremos.
Pelo menos é isso que achamos. Colocamos o nosso próprio EU, o nosso próprio bem-estar no centro do universo que chamamos de vida. Mas a prática nem sempre é assim.
Tenho essa impressão que a sociedade capitalista e tecnocrática foi nos tirando mais e mais do foco. Perdemos os parâmetros, não conseguimos mais perceber o próximo ou até mesmo perceber que não estamos com tanta bola assim. Não somos a última bolacha do pacote como uma amiga costuma dizer.
Eu olho apenas para o mundo às vezes imaginando como sou tão minúsculo. Aqui no Pólo Norte sei que estou muito longe da minha casa em São Paulo. Percebo nas pessoas, na cultura, na natureza e até nos insetos que tudo aquilo que eu tomava como certo no Brasil, simplesmente nem existe aqui ou é totalmente pouco relevante. Tive sempre a sorte de poder meditar sobre isso em todos os poucos cantos do mundo que visitei.
Penso em como era complicado viajar nos séculos passados. Semanas de carroca só para chegar na maior cidade aqui perto. Semanas de navio para atravessar o Atlântico. Viajar era para poucos e simplesmente significava uma travessia tortuosa partindo de um ambiente familiar para outro completamente hostil. Puderas as pessoas que se aventuravam em viajar serem cheias de experiências, estórias e fábulas na época. O mundo era ainda menos homogêneo e mais diverso. Uma prova pulsante da nossa pequenês.
Mas até isso o desenvolvimento econômico nos priva atualmente. Não fosse apenas a homogeinizacão forcada das culturas ainda transformaram viagens turísticas em pacotes rápidos, eficientes e que privam o turista do contato real com a sociedade local. Não temos nem a chance de comparar, de nos parametrizar.
Somos representantes de uma sociedade sem parâmetros. Se não conseguimos notar nossa pequenês nem diante do mundo com o qual fomos presenteados, menos ainda conseguimos entender nossa insignificância perante Deus.
