Ensinando a Pescar

Viver em São Paulo é sinônimo de aprender a lidar com algumas questões sociais desde pequeno. Adultos e principalmente crianças pedem esmolas diariamente e é difícil ter um dia que você não é abordado de uma forma ou de outra. Desde pequenos, precisamos aprender a lidar com o problema da diferença social e - fato é - que geralmente aprendemos a simplesmente ignorá-lo.

Em algum jornal li que há um movimento em São Paulo que está estimulando as pessoas à dar esmolas. Iniciativa totalmente contrário do movimento para não se dar esmolas.

Neste embate são dois os pontos centrais que deveriam fazer parte da discussão:

  1. Paternalismo: somos uma cultura paternalista que gosta da figura do “pai protetor”, aquele que provê, cuida e protege. Lula é o pai protetor dos pobres. É aquele que vai dar comidinha no bolsa-família, que entende os pobres, etc e etc. Sabemos que tudo isso é pura imagem criada para objetivos políticos mas é disso que o povo gosta. Dar esmolas é um movimento paternalista, assim como dar o bolsa-família.
  2. Dar o peixe: o grande problema desta postura paternalista é o “dar”. Não que devêssemos ser seres egoístas e sem habilidades para dar aos outros mas, dar o peixe, significa que não estamos ensinado a pescar. Do lado recebedor da assistência eu preferiria muito mais aprender a pescar do que receber o peixe no meu prato. Não só isso me garantiria uma continuidade a longo prazo dependente só da minha capacidade como também é mais honroso poder alcançar um resultado com minhas próprias mãos.

Na época da faculdade fui abordado para fazer um trabalho para um determinado grupo que estava desesperadamente precisando de nota. A oferta era financeira: eu faria o trabalho e teria uma alta remuneração pela energia dispensada. Recusei. Preferia ajudar o grupo a alcançar o resultado de forma totalmente voluntária. Não estava interessado no dinheiro. Prefiro que mais pessoas sejam capacitadas e eu viva num lugar melhor do que enganar - não ao professor - mas aos próprios alunos que careciam de conhecimento.

Nossas escolas são redutos paternalistas desde suas estruturas físicas: trancafiamos as criancas dentro de prédios enjaulados que as protejam da selva violenta que reina do lado de fora. Enquanto os filhos da classe-média crescem protegidos paternalistamente da realidade em escolas pagas (e muito bem pagas), os filhos das classes mais baixa se beneficiam do paternalismo do governo e das pessoas que lhes dão esmolas e migalhas.

Enquanto continuarmos sendo paternalistas e não forçarmos uma revolução social, só estaremos realimentando e amplificando o sistema.

Tiago Luchini · 25 Sep 2007 · filosofando