Palavrinhas Indigestas
Com frequência me impressiono com o efeito que determinadas palavras têm nas pessoas. Para mim, é normal classificar alguém claramente de medíocre - quando for efetivamente o caso - claro. Medíocre é alguém que aceita um resultado mediano, vive na média - nada a mais e nada a menos. Isto foi exatamente o que observei no meio acadêmico quando alunos objetivavam apenas a nota mínima para passar; objetivavam a média, a mediocridade.
Mas, por algum motivo, ser taxado de medíocre causa efeitos inesperados nas pessoas. Em geral, parecem levar para uma interpretação pejorativa e altamente ofensiva. Se alguém me taxar de medíocre, ficarei frustrado não por ter sido ofendido mas por não ter me destacado acima da média (e, vale lembrar, não deixa de ser uma classificação melhor do que “ruim” ou “insuficiente”).
Uma outra palavrinha que parece suscitar ânimos é a palavra “fé”. Por algum motivo histórico, cultural e religioso, encarar a palavra “fé” para muitos é um sacrilégio em si só. Realmente, uma consulta rápida no dicionário me trouxe 4 explicações de cunho religioso e 3 de cunho neutro - 33% a mais de conotações influencidadas pela religião no dicionário em questão.
Eu tento desassociar a fé do conceito 100% religioso pelo simples fato que ele traz carregado consigo uma série de preconceitos que afetam a interpretação filosófica da fé como mecanismo mental.
Embora a fé religiosa exista, a fé, em si só, é um mecanismo natural que todos nós temos para resolver os problemas que nos cercam. Todos nós - sem exceção - somos seres que se utilizam da fé para responder pequenas perguntas práticas.
Recaio sobre um exemplo natural extremamente simples e primitivo. Todo ser humano consciente sabe que, se lançar uma pedra num rio, ela irá invariavelmente afundar. Todos fazemos essa experiência quando pequenos e aprendemos a confiar na sua reprodução. Se alguém nos contar que jogou uma pedra num rio e ela afundou, sabemos que este relatório condiz com aquelas regras naturais com as quais experimentamos empiricamente.
Se outro alguém entretanto, nos narrar que lançou uma pedra num lago e ela não afundou, com certeza ficaremos em dúvida. Algo está errado nessa narração: ou nosso experimento empírico e natural está errado ou o indivíduo que trouxe a história fantástica está errado.
A fé aparece como ferramenta mental quando escolhemos qual das duas opções queremos aceitar. De um lado temos nossa experiência empírica e natural, do outro, alguém que prega dubiamente que isto pode ser quebrado. Teremos que colocar nossa fé em um ou outro.
Claro que, por sermos seres racionais e apegados às manifestações palpáveis do mundo ao nosso redor, temos a tendência imediata de colocar nossa fé nas experiências empíricas. E isto não está errado - de modo algum! Se acreditássemos em todos os malucos que proclamam coisas fantasiosas, ficaríamos igualmente malucos.
Exatamente por isso inclusive que o processo científico é baseado em provas empíricas. Sem empirismo não existe ciência. Se o maluco em questão conseguir reproduzir o experimento onde a pedra não afunda, ele automaticamente se tranforma num cenário empírico e reproduzível para futura análise.
Mas fato é que colocamos aquela área mental desenhada para resolver problemas automaticamente na posição da fé no empirismo ao invés da fé no maluco fantasioso. Sobre aqueles que tiverem a fé no maluco fantasioso - os problemas aí já são mais complicados.
Neste exemplo certamente não há dúvidas que crer na manifestação empírica faz muito mais sentido do que colocar sua fé no maluco fantasioso. Mas conforme os problemas tornam-se mais complexos, essa percepção já não é tão automática.
E nem é preciso complicar demais o problema para perceber isso. A mídia noticiou estes dias, por exemplo, um acidente aéreo na Thailândia. Qualquer pessoa que for questionada sobre o que anda acontecendo na Thailândia, comentará que 74 pessoas morreram num acidente aéreo lá. Dizemos isso porque está em toda a mídia, reportado, registrado em fotos, vídeos, entrevistas e afins. Simplesmente sabemos que um avião caiu na Thailândia.
Mas pessoalmente, poucos de nós podemos realmente provar isso de modo empírico. Eu, pessoalmente, nem sei se a Thailândia existe porque nunca fui lá. É a mesma situação da pedra: sei que a pedra afunda por que experimentei, mas não sei se aviões caíram na Thailândia porque não tive o contato empírico. Só posso saber que aviões tendem a cair, que aparentemente existe um país chamado Thailândia em algum lugar e que a mídia normalmente noticia as coisas que realmente acontecem.
Todas essas variáveis juntas me dão a certeza para assumir que um avião caiu na Thailândia mesmo que eu não tenha o contato empírico nem com o acidente, nem com o país. Um punhado de variáveis que assumo como certas e probabilidades que acumulei ao longo de outras situações fazem com que eu simplesmente saiba e tenha a fé que algo realmente aconteceu por aquelas bandas.
Conforme o nosso desenvolvimento científico, cultural e social vai ficando mais e mais complexo, nossa fé vai deslizando do palpável e empírico (da pedra que afunda porque a vimos afundar) para o provável, o confiável, o pré-estabelecido. E aqui começamos a ssumir várias coisas como certas e merecedoras da nossa fé. Assumimos que a imprenssa funciona e o que ela reporta é verdade; assumimos que autor X ou Y são confiáveis e que seus trabalhos são verdade e assim por diante.
Na ciência empírica a coisa fica ainda mais complicada. Reproduzir alguns experimentos é complicado, custoso e, não poucas vezes, simplesmente imprático. Os experimentos mais avançados da atualidade são muitas vezes reproduzidos em apenas dois laboratórios por pura limitação de recursos. Muitas vezes os dois laboratórios trabalham juntos e compartilham os mesmos dados e recursos para passar pelo crivo da reproducibilidade. E assumimos seus resultados como justificativa de fé imediatamente.
Errado? Não! Apenas natural. Faz parte da nossa natureza humana. Colocamos nossa fé nos valores e preceitos que mais nos auxiliam para resolver os problemas do nosso dia-a-dia.
Fico feliz por ser um indivíduo da pós-modernidade pois é possível resumir esta era e as duas últimas com o uso da fé:
- idade média: fé na religião como preenchimento do vazio unificador que existia anteriormente
- idade moderna: fé no racionalismo como ruptura do pensamento autoritário religioso da idade média
- pós-modernidade: a ciência que ambas as fés não foram capazes de explicar a realidade satisfatoriamente
Aprecio muito o trabalho do filósofo pós-modernista Jean Bauldrillard. Ele percebe esta situação na fé que temos nos modelos que utilizamos para explicar o mundo e cita que provavelmente já não estamos mais descrevendo o nosso universo realmente como ele é. Perdemos o contato com a realidade natural e passamos a viver numa multirealidade ou multiverso.
Em um de seus trabalhos, Bauldrillard parte da estória de Jorge Luis Borges chamada “Del rigor en la ciencia”. É a estória de um reino onde um mapa foi comissionado para que reproduzisse todas as terras do mesmo na proporção de 1 para 1. Conforme o mapa foi crescendo em importância e o reino foi falindo, o gigantesco mapa precedia a real geografia do lugar. É a situação onde a imagem precede a realidade.
Bauldrillard passa então a exemplos reais onde a fé depositada na imagem produzida precede a realidade e discute a ruptura da mesma em prol de uma desilusão coletiva. Esta postura inclusive coloca Bauldrillard na contra-mão direta de filósofos mais famosos e mais aceitos como Michel Foulcault.
E por que me dei ao trabalho de explicar tudo isso? Porque muitas pessoas ainda confundem incorretamente “fé” com “fé religiosa”, muitas vezes até com alguma fé religiosa específica. A fé é a mesma ferramenta mental utilizada tanto na fé religiosa quanto na fé científica. A diferença é que estão depositadas em narrações e domínios distintos.
Embora fé religiosa possa se personificar nos detalhes e meândrios de qualquer religião causando ou não conflitos de domínio, cito exemplo da fé cristã por familiaridade.
Se por um lado a fé no empirismo natural e nas probabilidades que nos cercam nos levam a crer que é impossível andar sobre as águas por exemplo, a fé cristã e nos relatos bíblicos nos fazem crer que é possível que Jesus tenha caminhado sobre as águas.
E aqui temos uma situação onde aparentemente as duas fés se chocam. Teremos passado pelo processo da fé ao escolher qualquer uma das duas fés. Num caso, aceitamos a fé empírica, no outro a fé bíblica.
Um não exclui o outro no caso da fé bíblica. Nada impede que alguém saiba que as manifestações naturais indicam ser impossível caminhar sobre as águas mas que, a fé depositida na palavra de Deus, também dê a certeza que algo excepcional tenha acontecido naquele momento pelo próprio poder de Deus - e este poder não faz parte do domínio empírico e reproduzível da ciência.
Só faz parte do domínio empírico e pessoal daqueles que experimentam a comunhão com Ele.
