Conhecer é Poder

Momento raro, esteja atento: estou prestes a assumir um defeito meu neste artigo!

Sempre lutei para não parecer esnobe ou prepotente. Odeio pessoas assim e, provavelmente por isso, fico sempre triste quando alguém me considera desta forma.

Mas não tiro a razão mais profunda das pessoas que, por um motivo ou outro, me taxaram assim no passado. Faz sentido! Por mais que eu encarnasse as vestimentas de alguém humilde, no fundo, eu tinha aquela percepção que, em pelo menos um punhado de assuntos, eu sabia mais que a maioria das pessoas.

Claro que esta postura (escondida lá no meu interior) fica longe da prepotência clássica - aquela onde o indivíduo sabe tudo sobre todas as coisas - mas, por outro lado, não deixa de ser uma pontinha de um sentimento de superioridade pelo menos sobre determinados temas.

Um ponto bem importante dessa minha postura sempre foi o fato de - pelo menos - saber que algumas pessoas poderiam saber mais do que eu - mesmo que poucas (e talvez nessa idéia de “poucas” morasse o grande problema).

Fato é que viver na Finlândia tem mudado minha forma de ver as pessoas. Por alguma questão cultural, climática, educacional ou simplesmente genética, boa parte das pessoas aqui sabe muitas coisas. Aqui, aquela impressão oculta de que você é mais inteligente do que a outra pessoa, some totalmente depois de alguns minutos de conversa.

Por algum motivo, as pessoas sabem muito. Reduzir tudo para a palavra “sabem” pode parecer piegas mas me recuso a usar algo como “as pessoas são cultas”. Não é este o caso. As pessoas sabem profissionalmente o que estão fazendo na mesma medida que sabem de cultura geral com uma riqueza de detalhes que me deixa simplesmente humilhado.

Profissionalmente no Brasil eu viviam levantando o que havia sido aprendido academicamente para resolver problemas do dia-a-dia. Era comum eu levantar a bola dizendo “por que não usamos metodologia X com abordagem Y?” e os meu parceiros olhavam com uma cara de interregoção requisitando que eu explicasse X e Y antes de seguirmos por estas linhas.

Em contrapartida, a mesma frase aqui, não só levanta um entendimento imediato do que eu quiz comunicar como também levanta respostas do tipo: “mas a metogologia X falha em Z e W e a abordagem Y não se encaixa no nosso cenário”. Posso garantir: é um desafio absurdamente maior.

Culturalmente? Idem. Conheço um pouco de música e filmes. Muito pouco, mas o suficiente para ficar acima da média no Brasil. Aqui, em qualquer diálogo informal, eu me perco rapidamente.

Fazer pequenas inserções sobre fatos científicos ou notícias do mundo no Brasil é a prova de que você é inteligentíssimo, que “sabe demais”! Perdi nos dedos a quantidade de vezes que a inserção foi tão profunda que eu não sabia mais do que estávamos falando!

Das últimas vezes a conversa enredou por conflitos geo-políticos na Nigéria (e o pessoal da roda sabia o nome de todos os indivíduos envolvidos) ou sobre os impactos ambientais dos diferentes tipos de baterias (com direito a profundas explanações sobre os componentes químicos e os processos produtivos de cada tipo).

“Conhecer é poder” já dizia alguma máxima por aí. E no Brasil, percebo que o conhecimento é pessoal, individual e, até certo ponto, egoísta.

Certa vez entrevistei um rapaz para uma posição no escritório. Gosto de fazer entrevista com pessoas inteligentes então resolvi armar uma pequena armadilha: afirmei que uma coisa era impossível de ser feita, simplesmente porque sabia que a maioria das pessoas a achava impossível mesmo que fosse possível com certo mecanismo. Queria perceber a reação do indivíduo. Se ele concordasse comigo, ponto à menos. Se ele discordasse, dois pontos à mais: não só ele sabe como resolver a questão como também tem a autonomia e a força para discordar.

O rapaz era inteligente então discordou prontamente de mim. Indicou que eu estava errado e que era possível realizar o feito sim. Perguntei então como ele faria (queria saber se ele simplesmente tinha lido um blog que dizia ser possível ou se realmente sabia do que estava falando). Para minha surpresa, a resposta dele foi:

“Me contrata que eu te mostro.”

Fiquei sem jeito. Não porque aquela informação me era importante - de forma alguma: ela era totalmente dispensável! Mas fiquei sem jeito principalmente pela postura do indivíduo. Ele estava levando o “conhecer é poder” ao extremo. Algo como “eu sei, portanto eu posso - e se quiser, me paga uns trocados aí”.

No lugar dele eu provavelmente responderia usando palavras chaves mas sem abrir o “grande segredo” se eu achasse isso tão importante (não era o caso - em três meses, toda criançada de 12 anos já sabia o que eu estava perguntando).

Não passei ainda por uma situação tão parecida aqui na Finlândia, mas tenho a impressão que as pessoas não levam o “conhecer é poder” tão ao pé-da-letra. As pessoas falam o que sabem. Preferem fazê-lo na maioria das situações. Talvez elas tenham percebido ao longo dos anos simplesmente que se uma pessoa não souber, outra saberá, então qual a razão de sequestrar o conhecimento dessa forma?

Vamos sequestrar menos conhecimento?

Tiago Luchini · 28 Aug 2007 · filosofando