Eu te disse, eu te disse...

Muito antes do caríssimo Carros da Disney-Pixar, um antigo desenho da minha infância já tinha como seus personagens pequenas motos e carros com direito a olhos, bocas e braços. O título utilizado no Brasil era Carangos & Motocas.

O grupo de motos (turma do Chapa) sempre tinha algum plano maligno para conquistar a bela Rota (uma linda conversível amarela). O chefe da gangue era uma moto de personalidade enfesada e, como seu braço-direito, uma moto de voz irritante e com uma tendência extremamente pessimista.

No começo de cada episódio, o Chapa preparava algum meticuloso e perfeito plano mas a moto pessimista sempre insistia nos pontos negativos e na idéia de uma iminente e desastrosa falha.

Como em todo desenho infantil - onde o bem sempre triunfa e o mau é derrotado - os planos do famigerado grupo nunca iam para frente. O episódio sempre terminava com a motinho-pessimista repetindo ritmicamente a frase “Eu te disse! Eu te disse!” até desaparecer no horizonte.

Quando aceitamos o desafio de vir para Finlândia aji prontamente como a moto-pessimista e segmentei quais eram os pontos negativos do plano. Eles se reduziam basicamente a três:

  • clima: estamos falando de noites sem fim no inverno e dias sem fim no verão e temperaturas de até -30 graus Celsius.
  • comida: a nossa comida brasileira é inigualável - simples, saborosa e abundantemente disponível. Fica difícil competir.
  • amigos: quer queira, quer não, amigos fazem parte daquela rede social que dá uma sustentação para tantas outras atividades.

O ser-humano é flexível e adaptável. Adaptar-se ao clima severo é fácil. Sobreviver com comida diferente não é muito esforço. Porém, viver sem os amigos tem se provado mais complicado do que inicialmente planejado.

Como já escrevi antes, fico bastante frustrado porque talvez esperasse (ingenuamente - confesso) um esforço relativamente maior de amigos e parentes para manter um contato social ativo. Afinal de contas, estamos na era da informação distribuída - aquela para todos, em qualquer lugar e à qualquer tempo. Mas não importa o nível de facilidade que as comunicações hoje proveem: elas não serão usadas pelas pessoas.

Isso me lembra aquele grande dilema do pós-modernismo: mesmo que tenhamos celulares conectados com a Internet que permitem conversar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo à qualquer hora - mesmo assim somos tão superficiais em nossos relacionamentos que não passamos da casquinha daquelas ativididades situacionais.

Outro problema também pouco esperado (ingenuamente também - confesso novamente) é que construir as redes sociais com os locais tem se mostrado bem mais complicado, demorado e ineficiente do que o planejado.

O ritmo Finlandês é totalmente outro e a própria dinâmica da vida social e prática das pessoas é diferente. Fora o fato de a população em questão ser 170 vezes menor e, portanto, com uma probabilidade de cruzamentos de interesses infinitamente menor.

O mais triste por fim é meu lado “moto-pessimista” virando para o meu lado arquitetador do plano e dizendo irritantemente: “Eu te disse! Eu te disse!”

Tiago Luchini · 22 Aug 2007 · finland