Conhecer o autor? Mais importante do que sua obra

Quanto mais penso, mais chego à conclusão que o ser-humano é um bicho muito esquisito.
Existe essa idéia global que a nossa vida pós-moderna é conturbada, cheia de atividades, cheia de trabalho, que dormimos pouco, nos alimentamos mau, que damos pouca atencão aos nossos filhos, etc, etc e etc. Embora essa idéia esteja piscando em letras garrafais em todo lugar, eu me pergunto: estamos mesmo? É mesmo assim?
Em São Paulo eu tinha uma rotina ferrenha: 10 horas por dia no escritório e 4 noites por semana lecionando na Faculdade. Na noite extra preparava conteúdo para as aulas e corrigia exames. Horas e horas de trânsito todos os dias. Sábado e domingo eram divididos entre atividades com amigos, família, igreja e invariavelmente alguma rebarba da Faculdade ou do escritório (quando eu não lecionava também de sábados). Em determinados períodos, dormir mais do que 4 horas por noite era um luxo a que eu não tinha direito. Era uma rotina cheia e estressante mas nem por isso não era factível mesmo que eu vivesse 20 anos à menos por questão disso. De qualquer forma, o discurso da vida pós-moderna estressante me fazia bastante sentido.
Aqui na Finlandia a carga horária de trabalho são minguadas 7 horas e meia por dia com direito a um desvio-padrão e uma flexibilidade de invejar os mais preguicosos. Faculdades noturnas praticamente não existem. Trânsito não deve ter nem vocábulo em Finlandês. As atividades sociais são tão ralinhas e escassas que dá sono só de lembrar. O tempo livre é tão grande que o Finlandês tem a maior taxa de livros lidos por pessoa por ano do mundo (e também a de mais litros de álcool consumidos por pessoa por ano). Tempo livre não falta - dá para perceber! A tradicão valoriza idas semanais (senão diárias) ao supermercado para abastercer a geladeira - algo totalmente inviável para quem não tem tempo. Qual não foi a minha surpresa encontrar exatamente o mesmo tipo de discurso sobre a loucura da vida pós-moderna aqui na Finlândia?
Isso não me faz muito sentido. Citar que na Finlândia dorme-se mau e trabalha-se muito depois de tantos anos de vida em São Paulo dá uma incontrolável vontade de rir escrachadamente.
A conclusão mais óbvia é que este discurso todo anti-pós-modernismo é generalizado e que as pessoas o assumem sem considerar seus ambientes culturais e acabam enxergando um reflexo daquilo estabelecido por um ou outro autor consagrado. Ou seja, citar que a vida em São Paulo é conturbada pode parecer uma piada para um Chinês que trabalha 20 horas por dia em regime de semi-escravidão para ter o direito de uma cama e um prato de sopa - tanto quanto citar que a vida aqui na Finlândia é conturbada soa como piada para mim.
Vai ver é por isso que aquela professora esquisitona de metodologia científica vivia insistindo que “conhecer o autor é tão ou mais importante do que conhecer sua obra”.
Eu devia ter dormido menos naquela aula - não só eu - muitas pessoas.
PS.: a foto do artigo é da bolsa de valores de Helsinki em pleno meio-dia num momento de queda vertiginosa. A fonte é a revista sobre Economia local (Talouselämä). Com uma lupa (desculpem - não achei a foto em resolucão maior) dá para perceber o stress: no centro um senhor de shorts, camiseta e chinelo, observa os panéis com a mão na barriga; à esquerda um senhor lê jornal com a calma de quem está numa praca num dia de sol e os senhores à direita parecem mais estarem num balcão de bar numa praia aguardando a caipirinha chegar. Stress total!
