Estamos prontos?

Se eu fizesse uma lista de todas as coisas que demorei anos para entender garanto que ela seria longa.

Nos meus livros de Geografia lá do primário (lá pelo século passado - literalmente) vi um número enorme atrelado à renda per capita Brasileira. Era algo entre 2.000,00 e 2.500,00 dólares na época. Uma fortuna para uma crianca de 12 anos! Achei o número estranho pois, cria eu, se a renda por cabeca (per capita) fosse tão alta, a populacão brasileira não seria tão pobre.

Indagando à professora fui informado sobre o conceito da desigualdade na distribuicão de renda onde poucos ricos têm muito dinheiro e muitos pobres têm pouco dinheiro. Na média o número era gigantesco mas, na prática, eu continuaria sendo estatisticamente pobre. Curioso que o livro não explicava isso. Mas era a década para se falar sobre esse tema e, logo na sequência, vieram discussões sobre desenvolvimento sustentável, terceira-via e um batalhão de idéias ativistas bem coloridas. Era a bola-da-vez em termos de política e macro-economia.: discursos bem bonitos, idéias legaizinhas e, mais uma década e meia depois e continuamos com uma má distribuicão de renda.

Não sei se vc já pensou sobre isso, mas qual seria o impacto se a distribuicão de renda no Brasil fosse mais equalitária? Como seria a organizacão da sociedade?

Aqui na Finlândia as rendas são altamente equilibradas. A ponto de irritar - confesso. Existem poucas pessoas muito ricas, assim como existem poucas pessoas muito pobres e o grosso da populacão está naquele limbo intermediário. Embora isso soe muito bonito numa primeira observacão, vale à pena entender os impactos sociais de tal situacão.

Por exemplo, dizer que as rendas são altamente equilibradas significa dizer também que o profissional de nível mais baixo dentro das empresas (estagiário, office-boy, faxineiro… dê o título que melhor lhe parecer) tem o salário muito próximo ao ou eventualmente superior ao do nível mais alto dentro da empresa (diretor, presidente, CEO, dono… novamente, o título que você desejar).

O mesmo se aplica aos níveis de formacão. Faz pouquíssima diferenca salarial ser um técnico, um bacharel, mestre ou doutor. Isto posto, imagine que chamar um encanador para desentupir seu ralo custe aproximadamente o mesmo, por hora, do que contratar o presidente da Ford. Quais seriam suas relacões profissionais se seus superiores e subordinados tivessem o mesmo nível de renda que você?

Não só isso: as empresas de servicos mudam. Entende-se que, uma vez que as pessoas ganham mais, são automaticamente responsáveis por mais atividades. Exatamente por isso que, numa pizzaria por exemplo, você só vai encontrar um e apenas um funcionário. Ele cobra, registra no caixa, passa o cartão de crédito, dá troco, faz a massa, coloca o recheio, gerencia o forno e serve os clientes (todos os ao mesmo tempo - gerenciando o estoque e fazendo as limpezas - inclusive da vitrine e dos banheiros - nos intervalos). A responsabilidade de trabalhar de forma autônoma é totalmente combrada de você como profissional.

Isso explica os postos-de-gasolina sem nenhum funcionário por exemplo, onde o próprio cliente precisa se auto-atender. Na visão de altos custos salariais não faz o menor sentido pagar alguém para esticar o cano da bomba até o carro. Estaríamos disperdicando um ser-humano inteirinho, com toda a sua capacidade intelectual, simplesmente para esticar um cano e apertar um botão - e pagando muito caro para isso!

Poderíamos continuar citando os impactos sociais de tais mudancas por linhas à fio mas minha grande pergunta é se a sociedade brasileira estaria preparada para isso. Estaríamos prontos para abrir mão das faxineiras domésticas? Estaríamos dispostos a compartilhar uma secretária com mais 150 pessoas? Como seria a construcão civil hoje cheia de trabalhadores mau-pagos? Estaríamos dispostos a sair dos nossos carros para encher o tanque? Como seriam nossos restaurantes sem garcons e cozinheiros? A qualidade se manteria a mesma? As relacões profissionais seriam as mesmas relacões paternalistas uma vez que todo mundo é igual?

Demorou quase 30 anos, mas aprendi muito mais do que aquilo proposto na aula de Geografia: aprendi a questionar…

Tiago Luchini · 9 Aug 2007 · finland