Vergonha de ser Evangélico

Uma coisa que me envergonha ao ser Protestante (ou Evangélico como dizem comumente no Brasil) é o esteriótipo formado e difundido ao redor da “etiqueta gospel”.

Os evangélicos têm essa mania de viver num mundo distante, diferente dos “seres comuns” (ou “pecadores” como eles gostam de classificar). Criam um mundo paralelo com um código de conduta especial cheio de indicacões sobre vestimenta, comportamento e até com um jargão linguístico ultra-específico.

Torna-se praticamente impossível travar comunicacão com um evangélico-esteriotipado. Primeiro porque você, como receptor, vira automaticamente “irmão” do interlocutor - mesmo que não queira ter nenhuma relacão com o indivíduo. Depois chovem expressões obscuras que requerem, no mínimo, um curso intensivo de “evangeliquês”.

Isso me envergonha. Lembro que o Cristianismo parte da fé em Cristo que, sendo o próprio Deus, se tornou homem, desceu até nós e sofreu exatamente como um de nós, exatamente para mostrar sua compaixão, seu amor incondicional e nos mostrar o caminho para a salvacão. Como uma antiga música do grupo Petra dizia na minha adolescência revoltosa:

Ele vestiu os meus sapatos Estava nessa estrada antes de mim Ele também foi provado Ele passou por esta porta Ele sente a dor e sara a ferida Ele vestiu os meus sapatos

Deus se fez homem e nós é que parecemos estar tentando nos tornarmos deuses ao santificar até o insantificável - ao tentar criar um mundo mágico que não existe.

Gosto quando pessoas sábias colocam os pés no chão e mostram a verdade nua e crua sem máscaras inúteis. Recentemente recebi um email do grande amigo Ebeneser Nogueira com uma lista dos heróis da fé bíblicos mas colocada de modo a nos relembrarda nossa natureza humana:

  • Moisés, que matou um egípcio e fugiu para o deserto, pediu para ter o nome riscado do Livro da Vida, desobedeceu a Deus ao bater na rocha quando devia apenas falar
  • Abraão, que por duas vezes mentiu a respeito de ser casado com Sara, por falta de confiança em Deus e puro egoísmo.
  • Jacó, o cabra mais enrolão da Bíblia, mentia por hobby.
  • Pedro, que cortou a orelha de Malco e negou a Cristo três vezes.
  • Davi, que não podia ver um rabo de saia, e comete um homicídio premeditado só pra ficar com uma mulher gostosa de um soldado seu.
  • Paulo, que brigou com Silas e ficou quase 15 anos sem perdoar João Marcos, por causa de uma viagem missionária.
  • João Batista, primo de Jesus, que o batizou, mas só bastou ser preso para duvidar que Jesus era o Messias.

Ou podemos cantar como João Alexandre o faz em “Tudo é vaidade”:

Vaidade no comprimento da saia, no cumprimento da lei Vaidade exigindo prosperidade por ser o filho do Rei Vaidade se achando a igreja da história Vaidade pentecostal

Vivendo e correndo atrás do vento, tudo é vaidade

Vaidade juntando a fé e a vergonha - Chamando todos de irmãos Vaidade de quem esconde a verdade - Por ter o povo nas mãos Vaidade buscando Deus em si mesmo - Querendo fugir da cruz

Não crendo e sofrendo, perdendo tempo, tudo é vaidade

Falsos chamados apostulados do lado oposto da fé Dinheiro, saúde, felicidade aquele que tem contra aquele que é Rádios, tvs, auditórios lotados ouvindo o evangelho da marcha ré

A morte se esconde atrás dos templos, tudo é vaidade

AONDE ESTÁ A HONRA DOS ORGULHOSOS? A SABEDORIA MORA COM GENTE HUMILDE LIBERDADE…

Enquanto isso, vou vivendo aqui, sendo menos “evangélico” do que o esteriótipo mas clamando:

Que meu canto seja a voz de Deus por onde for Verdadeiro e transparente como Seu amor Pois Ele sabe os meus rumos Erros e acertos ocultos Conhece a sinceridade do meu coração Que eu seja sempre o primeiro A me encontrar em Sua graça E em Sua misericórdia transformar minha vida Numa linda canção…

Tiago Luchini · 16 Jul 2007 · spiritual