Morte antecipada
Antes de gastar 5min lendo esse artigo, esteja avisado: ele tem um tom relativamente down com tendências para up. Dessa forma espero ter reduzido os 4 leitores desse blog para apenas 1 que vai ler 60% do artigo - se não dormir antes.
Sabe quando você perde as estribeiras e pensa “como seria o mundo sem a minha presenca?” ou alguma variacào do mesmo tema? Acredito que seja um pensamento comum. A idéia que passa pela cabeca é tentar entender um mundo onde você nào exista seja porque nunca existiu mesmo ou simplesmente porque alcancou o destino inabalável da morte.
Talvez seja um pensamento até sadio. Afinal de contas, o nosso instinto de preservacào passa invariavelmente pelas redes sociais e pelos elos emocionais criados nelas. Desta forma, nos perguntamos já com a resposta na ponta-da-língua “Será que esta pessoa vai sentir minha falta? Ah.. claro que ela vai sentir” - e assim passamos incólumes por mais uma crise existencial.
Uma característica muito contundente da expatriacào (mudanca de país como nós fizemos recentemente) é que os elos com as redes sociais ficam claramente abalados - até rompidos eventualmente. Várias programacões, atividades, relacionamentos situacionais e etc. vào ficando gradualmente num passado cada vez mais remoto. Como aquelas coisas que se fazia lá na infância com aquele amiguinho seu que já nem sabe se existe mais… como era o nome dele mesmo?
Eu tenho batizado esse fenômeno de “morte antecipada” nas minhas divagacões inúteis que compartilho com os 4 leitores desse blog. Expatriar é “morrer sem ter morrido” para os seus contatos sociais. O exercício é interessante porque nos remete à nossa inifnita pequenês perante um sistema tão maior. O universo nào pára de funcionar porque a sua mísera vida não existe mais. Alguém, lá longe talvez, eventualmente até sinta aquela pontinha de saudade da sua pessoa mas, mesmo que seja uma saudade aguda, daquelas que dói, isso nào muda o fato de que você morreu (nem que seja só uma “morte antecipada”).
Talvez esse conceito tenha me pegado de surpresa - nào em sua totalidade pois já previa o fenômeno - mas principalmente pela sua profundidade e raiz. Eu previa inicialmente que, no nosso mundo pós-moderno - cheio de facilidades de comunicacào e com um universo tremendo de informacões e meios dos mais elaborados para transmitá-las - os elos sociais poderiam ser mantidos mesmo que em escala reduzida. A minha surpresa foi recordar que o ser-humano é ser-humano independetemente dos apetrechos tecnológicos que se anexam a ele.
A palavra-chave aqui é “contexto”. Esqueca as facilidades da tecnologia em se comunicar lá com o outro mundo, com o outro universo ou com o outro país. As pessoas simplesmente passam a viver em contextos diferentes: ritmos diferentes de vida, influências diferentes da mídia, do ambiente, da cultura. O contexto muda. Total e drasticamente.
É aí onde entra a nossa frágil humanidade: somos seres sociais que, pela troca de contexto, sofremos com a ruptura dos elos sociais que, por sua vez, estavam mais atrelados aos contextos em que ocorriam do que a você como uma pessoa. Ou seja, na nossa “morte antecipada” podemos assistir de camarote ao crescente descaso com a nossa ausência. Isso me pegou de surpresa.
Por isso que o amor de Deus é maior que o dos homens. Neste último nào podemos confiar mas no primeiro podemos desfrutar de uma aceitacào sobrenatural que ultrapassa os limites entre o tempo e espaco e que ignora completamente os contextos se importando única e exclusivamente conosco como pessoas especiais que somos.
Dois versículos excepcionais tratam desse amor:
- A afirmacào convicta e inspirada do salmista que diz “Mesmo que meu pai e minha màe me abandonem, entào o Senhor me acolherá.” (Sl. 27:10)
- Jesus ao consolar seus discípulos quando ele, em pessoa, estava rompendo contextos: “Eu nào vos deixarei órfàos; voltarei a vós.” (Jo. 14:18)
Nesse momento de vida entendo que, se é difícil manter contato com alguém de carne e osso, facilmente encontrado 24 horas por dia em pelo menos 3 vias de comunicacão disponíveis, simplesmente por nào compartilhar o mesmo contexto, é realmente muito difícil - quase impossível - manter contato com o normalmente-impalpável Pai criador.
Enquanto filosófo vou tentando aprender e melhorar a minha tão deficiente parte…
Se você leu até aqui, faca a sua parte também!
