Relatório Finlândia - Parte V

Fiquei um bom tempo sem escrever sobre a nossa mudanca para a Finlândia diretamente. Vários outros assuntos estiveram na minha mente ultimamente deixando pouco espaco para meditar sobre as coisas daqui, muito menos escrever sobre elas.

Agora em Julho completaremos 5 meses de mudanca e as atividades já estão relativamente bem azeitadas (inclusive, notem minha falta proposital/acidental de cedilhas em muitos dos meus textos - simplesmente desisti de colocá-las nesse teclado Escandinavo bizarro - também não estranhem se eu esquecer um “til” - a combinacão de teclas para escrevê-lo é Ctrl+Alt+^ seguido da letra a ser acentuada - isso não é nada prático).

Isto posto, preciso publicar notícias atualizadas.

A Primavera Finlandesa

Primavera

Minha idéia inicial era ter escrito sobre a primavera enquanto ela estava efetivamente acontecendo mas, fato é que, ela demorou tanto para chegar e passou tão rápido que não deu tempo. Está aí uma das características principais da Primavera aqui perto do pólo-norte: se você não prestar bastante atencão, nem percebe que ela aconteceu.

Talvez eu esteja exagerando um pouco mas achei engracado quando a neve comecou a derreter e as pessoas estavam felizes e celebrando o início da primavera. A neve ainda durou muito tempo e alguns dias foram bem frios antes de finalmente as primeiras folhinhas verdes comecarem a aparecer. O bonito é que, de uma hora para a outra (coisa de uma semana, tudo de repente fica verde e eventualmente florido).

A prefeitura cuida das muitas pracas com um carinho especial assim que a primavera realmente comeca. Plantam flores e outras vegetacões menos floridas mas que certamente morreriam no frio do inverno. Me parece um trabalho enorme mas a cidade fica muito bonita. O frio, entretanto, não vai totalmente embora e usar agasalhos, mesmo que finos, continua sendo obrigatório para uma saída na rua.

Os dias também vão ficando mais longos e, talvez pela alegria de ver e pisar em solo firme ao invés de neve, faz com que uma vontade tremenda de passear surja repentinamente.

A minha primavera foi muito corrida profissionalmente então certamente deixei de observar alguma coisa por pura falta de tempo. Fabiana entretanto, tirou muitas fotos agrupando especificamente sob o tema da primavera e podem ser vistas aqui e aqui. Muitas dessas fotos foram tiradas em frente de casa ou nas redondezas.

Também fizemos alguns passeios: fomos de bicicleta até Nallikari (ainda com um pouco de neve), fizemos alguns pic nics e fomos a um parque aquático na praia.

Profissionalmente existe uma tradicão peculiar de reunir todos os parceiros e fazer uma pequena celebracão sobre os esforcos realizados no inverno e desejar bons votos para a primavera.

O verão Finlandês

Verão

O verão já comeca com uma outra saraivada de festas corporativas (dessa vez maiores que na primavera) para celebrar os resultados da primavera e desejar um ótimo verão (déjà vu?). A celebracão que participei foi uma apresentacão de um grupo cover dos Blues Brothers e sobre a qual já escrevi aqui.

Verão mesmo por enquanto só no nome. Na própria festa de verão, os agasalhos ainda eram onipresentes e o vento cortante obrigava alguns a colocarem luvas.

Alguns dias “quentes” entretanto já aconteceram. Tivemos um punhado pequeno de dias sem vento e até 18 ou 19 graus. Por aqui, prometem que os dias podem ser mais quentes no futuro próximo. É esperar para ver.

Verão

Dias atrás tivemos um feriado típico quando celebra-se a entrada do verão (extremamente pagã essa minha descricão mas é exatamente esse o fundamento por trás do evento). A tradicão aqui é viajar para o mato com amigos e parentes para ficar mais próximo da natureza provavelmente assando alguma coisa para comer no meio do mato mesmo. Fomos à uma cidade próxima e ficamos às margens de um belo rio com alguns amigos. Alguns se aventuraram inclusive a se molhar na água.

Solstício

Vou me aprofundar no melhor assunto sobre o verão aqui nessas quebradas: o Solstício. Uma explicacão toda rebuscada por ser encontrada aqui mas, na prática, isso significa que temos dias realmente longos no verão por questão do ângulo de incidência do sol sobre a face da terra. Como estamos bem próximos à extremidade norte do globo terrestre os raios do sol incidem sobre as nossas cabecas praticamente 24 horas por dia.

Exatamente por isso, é bom entender o termo “realmente longos” como algo entre 21 e 22 horas por dia de luz direta do sol. Nas poucas horas em que o sol não está no alto, a claridade vem pelo horizonte resultando no estranho fato que ficamos praticamente sem noites.

O fenômeno se arrasta por vários dias e faz com que pessoas de memória curta como eu, se esquecam rapidamente como é uma noite de verdade.

Tivemos alguma dificuldade para dormir por algumas semanas mas nada que o corpo não se adapte com o tempo. Fabiana também se encaregou de providenciar cortinas e demais formas para escurecer os ambientes.

Solstício

O mais difícil às vezes é perder a nocão das horas tanto para deitar quanto para levantar. No comeco, o Ian chegou a ficar chateado pois estávamos colocando ele muito cedo na cama mesmo que o horário padrão continuasse sendo o mesmo. Para ele, não fazia sentido ir dormir com sol.

Hoje em dia, ele simplesmente faz a pergunta pouco cabível em uma situacão normal: “pai, agora é noite ou é dia?”. Acho que ele entendeu a idéia.

Embora o fenômeno seja um pouco estranho sinto que é melhor aproveitá-lo enquanto não chega o solstício de inverno. Quando este chegar, a impressão fica invertida: dias muito curtos quando o sol quase nem nasce.

Noite de Verão

Estes últimos dias têm sido oficialmente os mais longos do ano e fiquei esperando um dia com céu mais ou menos limpo para tirar fotos da “madrugada”. Tirei algumas fotos às 23 e às 24 horas (11PM e 12AM) que podem ser vistas aqui (notem os horários no rodapé). Não tirei fotos mais tarde porque pouco acrescentariam (agora são 3AM e o céu lá fora está tão claro quanto estava às 11PM ou até antes).

Outros

Uma pergunta recorrente de amigos e parentes é se temos nos adaptado bem e etc. Às vezes a resposta à pergunta me parece tão óbvia que esqueco de colocá-las em palavras.

A Finlândia é um ótimo país e temos comecado a criar boas raízes aqui. De todas as reclamacões possíveis e imagináveis só tenho duas que são efetivamente palpáveis:

  1. o código secreto que chamam de língua e,
  2. por estar no “pólo norte”, existe uma distância do “mundo” principalmente em termos culturais.

Sobre “código secreto” já escrevi bastante já a distância do “mundo” é porque, o fato de morar no interior às vezes pesa quando a melhor banda de rock de todos os tempos resolve fazer um último revival e o lugar mais perto onde vão apresentar está à 600Km por exemplo. Mesmo assim não vejo isso como algo tão negativo (pensando por outro lado por exemplo, essa mesma banda nem chegou perto do Brasil nos últimos 20 anos).

Fora isso, a Finlândia é um lugar seguro, bonito e tranquilo. As pessoas são honestas, amigáveis, reservadas e existe muito pouco racismo e preconceito. O governo apoia os imigrantes de formas absurdas. O Ian tem acesso à melhor educacão do mundo, tudo financiado pelo dinheiro público que é bem investido com o menor nível de corrupcão do planeta observado pela imprensa mais livre do universo.

Alguém aqui já disse que a Finlândia é praticamente um socialismo que deu certo: todos tem as mesmas liberdades, direitos e oportunidades! Isso traz um alívio enorme em termos sociais e mentais.

Enfim, dá para perceber que estou apaixonado pelo lugar mas isso também se deve ao fato de:

  1. conhecer muito bem o Brasil
  2. não ser um total fã dos demais países que conheco (Inglaterra e USA)

Conforme eu já antevia, sinto pessoalmente falta de apenas duas coisas do Brasil: da comida e dos amigos. O primeiro a gente vai tocando já o último…

Tiago Luchini · 30 Jun 2007 · finland