Dicas para quase-expatriados
Já há algum tempo que algumas pessoas me pedem para listar dicas para quem está se mudando de país e realmente me parece que existe pouco material sério em portugês a respeito disso.
Algumas das dicas que listo abaixo não se encaixam para alguns cenários principalmente aqueles mais simples onde o país destino é bem conhecido e/ou semelhante em aspectos culturais com o nosso país de origem. Parto do pressuposto que a mudanca é para algum país bizarro e pouco familiar.
Também não vou entrar em detalhes operacionais básicos como, por exemplo, como empacotar suas malas (por incrível que pareca, li muito material que chegava ao ponto de descrever como fazer isso). Quero aqui colocar alguns pontos importantes que as pessoas devem ter em mente quando encararem um desafio de expatriacão.
O ponto principal que permeia todas as dicas é ter os pés-no-chão. Com isso quero dizer algo como: “não sonhe demais e seja altamente realista”. É da nossa característica humana extrapolar pontos positivos e minimizar pontos negativos nas nossas decisões pessoais. Não faca isso! Seja realista e encare os fatos de frente.
- Amigos e familiares efetivamente se afastarão.Não porque são maldosos ou te odeiam mas você passa a estar num contexto e rotinas totalmente diferente deles. É normal que um afastamento ocorra. Com a Internet e as presencas “virtuais” das pessoas isso tende a não ser tão drástico quanto no passado. Mesmo assim, existem simplesmente as pessoas que não tem uma presenca online tão forte além da infinidade de atividades que não podem ser feitas virtualmente. Eu, por exemplo, costumava jogar boardgames semanalmente com meus amigos. Isso não é possível remotamente. Pense também nas limitacões de fuso-horário. Dependendo do fuso você tem apenas poucas horas de janela para conversar com seus amigos e parentes e eventualmente essa janela não é boa para você, para eles ou para nenhum dos dois lados. O afastamento dos amigos é mais difícil do que parece à primeira vista.
- Ruptura dos costumes e a adicão de novos costumes.Alguns costumes que você tem hoje não terá mais como fazer e novos costumes surgirão. Parece bobo mas temos pequenas atividades na nossa rotina que nos acostumamos e nem percebemos. Outro dia tive uma vontade louca de comer yakisoba (afinal de contas, fazia do yakisoba uma refeicão bastante regular em São Paulo). Qual não foi minha surpresa ao perceber que ninguém aqui sabia nem o que era yakisoba? Não só isso como o único restaurante que pretendia se dizer “japonês” aparentemente fechou. Pequenos costumes tendem a desaparecer e novos aparecem (tenho apreciado o costume da sauna semanal por exemplo). Sem entrar no mérito se isso é bom ou não, fato é que acontece.
- O “ser estrangeiro”. Geralmente não levamos isso em conta mas é importante se questionar “qual é a relacao da sociedade com os estrangeiros? É boa ou não?” Cada sociedade trata os estrangeiros de uma forma diferente e você pode cair num tipo de tratamento que não te agrade. A nossa própria sociedade brasileira é preconceituosa ao tratar Europeus e Norte-Americanos com uma pompa de gringos e refugiados Africanos como escória. Pense que você será o “estrangeiro” (escória ou pompa?).
- Legalidade.Em alguns países o seu status legal não é o mesmo de um nativo muitas vezes não lhe garantindo uma série de direitos (educacão ou seguro saúde por exemplo). Outra questão é se os direitos são extensíveis aos seus familiares ou não. Em alguns países há um limite para o tempo que pode-se morar no lugar ou ao tipo de bens que pode-se adiquirir. Tudo isso precisa ser verificado com antecedência para não chegar numa situacão onde você fique apertado no futuro (não podendo permanecer depois de alguns anos ou nem conseguindo adiquirir um imóvel por exemplo).
- Linhas de crédito tendem a ser limitadas. A questão das linhas de crédito é um problema para estrangeiros nos primeiros 2 a 5 anos também. Muitos bancos e empresas simplesmente não emprestam dinheiro ou não parcelam bens até que o estrangeiro tenha se estabelecido fixamente no país e isso pode levar alguns anos. Tenha em mente que crédito só em casos excepcionais.
- Ciclo emocional.Estudos com expatriados dizem que num período de 2 a 6 meses você fica muito feliz com o lugar para onde se mudou. Depois comeca a perceber os pontos negativos e passa por uma crise emocional. Se sobreviver à crise, entre 2 a 3 anos uma nova crise deve surgir. Desta vez mais forte. Neste caso se sobreviver no lugar, com certeza ele será sua casa.
- Viramos pessas sem pátria. Somos estrangeiros onde moramos e, quando voltamos para o Brasil, somos estrangeiros no Brasil também. Ou seja, depois de um tempo é preciso escolher qual cultura você se sente mais confortável mas você nunca mais vai se adaptar 100% a nenhuma delas.
- Estude muito sobre o país destino. Não se deixe influenciar pelas percepcões de outras pessoas: crie as suas próprias. Alguém que adora o inverno Escandinavo pode indiretamente te influenciar sobre as maravilhas de praticar Ski por exemplo mas isso eventualmente não é algo que lhe agrade nem um pouco.
- Os países não são homogêneos. Embora óbvio, muita gente esquece disso. Os países tem culturas drasticamente diferentes dentro das suas próprias fronteiras (veja como o Brasil tem várias culturas diferenciadas entre Norte, Sul, Leste e Oeste). Isto posto, não imagine que Estados Unidos por exemplo é apenas o Times Square que aparece na televisão ou que Inglaterra só tem o Big Ben. Considere as questões regionais.
- “Melhorar de vida”. Tenha uma percepcão muito clara do que você entende por “melhorar de vida”. Muita gente pensa em mudar de país para “melhorar de vida” mas não tem uma idéia clara do que elas mesmo estão buscando. Se “melhorar de vida” inclui ter um carro do ano por exemplo, talvez seja mais fácil conseguí-lo na sua terra natal. Saiba o que você está buscando antes de qualquer mudanca.
