Hiato Cultural

Não sou fã assumido de nenhum estilo musical específico e muito menos de um ou dois grupos em particular. Me considero alguém eclético quando o tema é música. Na minha cabecinha simplista existem apenas dois tipos de músicas: as ruins e as boas. Qualquer coisa que fique no meio pode facilmente cair para um lado ou para o outro depois de algumas repetições.

Mesmo assim tenho pensado como cada um de nós tem um ou outro estilo, compositor, banda ou simplesmente tema central, que sempre atravessa aquela barreira superficial da interpretação consciente e fala diretamente com o nosso ser interior.

Percebo isso em mim com uma gama bem distinta de estilos porém com um certo padrão temático e musical peculiar. Me atraem as músicas longas, de preferência que distribuam um mesmo tema em várias músicas de um mesmo álbum e que contenham uma estória. Esta precisa ter um toque de realidade de preferência que atravesse a nossa própria natureza humana - deficitária, questionadora. A letra precisa ser poética - não no sentido romântico, mas no sentido linguístico - e uma musicalidade indigesta, de preferência única - também adicionam um toque especial. Se for preciso ouvir algumas vezes só para deixar a música “assentar” e aí sim tirar alguma mensagem, melhor ainda!

Como podem perceber, a análise “superficial” me levou a um afunilamento bastante específico sobre o meu gosto pessoal.

Decompondo minha preferência, entendo que ela faz sentido. Talvez algumas músicas falem assim tão diretamente comigo porque foram escritas e compostas por pessoas com tendências parecidas ou simplesmente porque elas quebram alguns padrões de musicalidade, narração ou construação linguística e isso chame minha atenção.

Um exemplo marcante foi quando ouvi pela primeira vez a ópera-rock Tommy do The Who. Conforme a fita cassete foi rodando (sim, já faz cerca de 15 anos quando isso aconteceu e ainda existiam as fitas cassete) e fui me aprofundando na bizarra estória de um garoto cego, surdo e mudo que acaba se tornando campeão de pinball percebi que não estava ouvindo algo natural. Fiquei até surpreso de aquela aberração ter realmente feito algum sucesso num passado remoto (ainda mais remoto do que os 15 anos atrás quando ouvi pela primeira vez). Em que universo as pessoas ditas “normais” gostariam de ouvir aquelas músicas com fundo temático complexo e musicalidade de estilo duvidável?

Num outro extremo musical, me delicio ouvindo Adoniran Barbosa, o descendente italiano que adotou o samba como forma de expressão (ou foi adotado? - difícil dizer). Adoniran canta sobre a vida rotineira, os problemas palpáveis que encarava na vida pobre que tinha. Cantava com português errado mas não perdia o humor (uma característica tão fantástica da nossa cultura Brasileira). Em suas últimas gravações, a voz sai tão desgastada e cansada que dá dó. Parte o coração de lembrar que morreu na miséria e esquecimento - abandonado pelo público. São as melhores gravações porque nos rementem ao fato de que todos nós seremos esquecidos um dia.

Um estudo mais aprofundado entretanto me levou a uma conclusão desestimulante: como tudo no famigerado capitalismo, um grande movimento de consumidores motivados pelas revoluções sociais e culturais da década de 60 e 70 impulsionou o mercado e os compositores alcançaram esses estágios “viajados” de criações artística simplesmente porque o mercado pedia.

O lado desestimulante disso é que depois de quase 4 décadas de ausência de revoluções sociais, temos entrado num quadro pasteurizado, padronizado de necessidade cultural. As grandes criações são deixadas de lado para dar espaço para mais e mais produtos culturais simples, superficiais e massificados (desde que atinjam um público consumidor específico). A geração de nossos filhos não terá absolutamente nenhum vínculo com nenhuma revolução cultural de verdade. Serão massificados pela cultura global da superfialidade.

É triste perceber como estamos passando por um hiato cultural tão longo e triste. E nem nos damos conta disso!

Tiago Luchini · 9 Jun 2007 · filosofando