Reféns da própria maldade

Uma das primeiras coisas que se percebe ao viver especificamente na Finlândia é que as pessoas aqui tem uma diferença na sua personalidade que é difícil de explicar. É quase como que uma simplicidade em resolver as coisas, uma falta de maldade, uma perspectiva altamente positiva sobre os demais. Enfim, estrangeiros aqui costumam resumir essa característica com a palavra “ingenuidade”.

Difícil de entender o conceito? Vou dar apenas um exemplo: os contratos Finlandeses: são uma piada. Independentemente do tipo de contrato que está sendo firmado, seja um contrato de trabalho, de compra, venda ou qualquer outra coisa, raramente o documento terá mais do que duas páginas. Não só isso! Aquele costume de organizar em Partes, Objeto, Foro e afins, mais as cláusulas e parágrafos com linguagem burocrática e legalista? Esquece! Os Finlandeses são fãs de uma tabela com campos a preencher; como se fosse um formulário para a carteirinha da Blockbuster (aliás, aposto que tem mais cláusulas e texto num formulário para carteirinha da Blockbuster do que num contrato para comprar uma casa aqui). Lembrando do princípio da “dúvida sistêmica” de Descartes, duvido que os burocratas Finlandeses tenham estudado o trabalho desse filósofo.

Independente da discussão se isso é positivo ou não (não sei ainda se isso é positivo ou não), essa característica tem me feito perceber um ponto interessante que nunca tinha percebido no comportamento humano ou talvez, mais destacadamente, no comportamento cultural Brasileiro: somos reféns de nossa própria maldade. Em qualquer coisa que fazemos, temos aquela impressão pouco confortável de que ou:

  1. alguma coisa vai dar errado ou
  2. alguém vai te sacanear ou
  3. ambas as coisas acontecerão ao mesmo tempo.

E provavelmente isso vai lhe custar tempo e dinheiro, muito dinheiro.

Talvez já estejamos tão acostumados com isso que nem percebemos. Talvez seja algo que comece desde o governo. Sabemos que o governo sacaneia conosco. Pagamos centenas de impostos bizarros (que cismam em complicar cada vez mais). Levam nosso dinheiro nas corrupções de diversas naturezas, ficam se debatendo com assuntos pouco relevantes nas pouquíssimas vezes que fazem alguma coisa e nós simplesmente pagamos o pato.

Quando compramos alguma coisa à prazo, o banco com certeza está nos sacaneando. Começa pela cobranca inescrupulosa de juros e termina na idéia de que o maldito banco ainda pode fechar ou vender sua carteira para outro banco - que cobre ainda mais juros. Não só isso! Bancos e governo podem se enrolar juntos e permitir absurdos conceituais como a solução tupiniquim absurda de formalizar a inflação que tanto nos atrapalhou na década de 80. Nós simplesmente pagamos o pato.

Nossos empregadores sempre estão receiosos também: não sabem qual será a próxima sacanagem que vamos fazer. Eles já assumem que ficaremos o dia inteiro no Orkut ou no MSN, ou pior! Que vamos vender informações valiosas aos concorrentes. Também temos sempre receio contra o nosso empregador: ele pode nos mandar embora não só sem nenhuma explicacacão como também falar “não tenho dinheiro para pagar a recisão, boa sorte”. E simplesmente pagamos o pato novamente.

Até a igreja deixa-se afetar com isso. Aceitamos igrejas e pastores inescrupulosos que estão, juntamente com políticos, empregadores e bancos buscando sempre a próxima forma de sacanear alguém. Simplesmente aceitamos que a fé seja explorada e que paguemos o pato.

Em 2003 a organizacão Latinbarômetro realizou uma pesquisa com 17 países da América Latina. A pergunta era se os entrevistados confiavam nas pessoas de seus próprios países. O Brasil ficou em último lugar com 4% (apenas UMA em cada 25 pessoas confia mais ou menos nas outras 24). Nosso número é tão pífio que ficamos com metade da confiança do penúltimo colocado: o Paraguai com 8%. (Resultado da pesquisa no fim do artigo).

Somos reféns da nossa própria maldade: reféns da nossa própria tendência de fazer o mau e todo o sistema que se organiza ao nosso redor vai acumulando mais e mais formas de se sacanear com os outros ou de tentar evitar novas sacanagens contra você mesmo.

Por isso que essa característica Finlandesa é normalmente chamada de ingenuidade. O Finlandês acredita piamente. Imagina que o governo é uma máquina perfeita para serví-lo; entende que o banco está lá para guardar seu dinheiro, se cobrar juros, serão justos; confiam nas relações profissionais acima de qualquer coisa. Não que tudo funcione perfeitamente ou que seja exatamente como eles pensam: eles simplesmente imaginam e acreditam que tudo é perfeito. Realmente uma ingenuidade tremenda.

Quando fui fechar a porta pela primeira vez do apartamento que moramos temporariamente aqui, bati o olho no sistema da fechadura e das dobradiças e achei ele muito simplista, muito inseguro. Fiquei com medo que invadissem meu apartamento facilmente. Na verdade, até sem muita maldade, consigui abrir a porta sem chave e fiz disso um costume regular. Com maldade, em menos de 5 min dá para abrir qualquer porta fechada aqui (sem contar as centenas de outras formas de invadir propriedade privada que enxergo todos os dias).

Conversando com um Finlandês sobre o sistema de travamento das portas ouvi a exclamação orgulhosa de que o sistema deles tinha sido desenvolvido aqui mesmo e que era um dos mais seguros do mundo. Evitei argumentar para não mostrar que sou refém da minha própria maldade.

Resultado de pesquisa realizada pela organizacão Latinobarômetro com 17 países da América Latina em 2003.

A pergunta era se os entrevistados confiavam nas pessoas de seus próprios países.

  • No Uruguay, 36% das pessoas disseram que confiavam.
  • No Panamá, 25%.
  • Na Bolívia, 21%.
  • No Equador, 20%.
  • No México, 19%.
  • Na Guatemala, 18%.
  • Em Honduras, 18%.
  • Na Nicarágua, 18%.
  • Na Argentina, 17%.
  • No Peru, 15%.
  • Na Venezuela, 13%.
  • Na Colômbia, 13%.
  • Em El Salvador, 12%.
  • Na Costa Rica, 11%.
  • No Chile, 10%.
  • No Paraguay, 8%.
  • E no Brasil, APENAS 4%!! (apenas 1 em 25 pessoas)
Tiago Luchini · 10 May 2007 · filosofando