A Cara Brasileira
Li estes dias o resultado de uma pesquisa feita pelo Sebrae em 2002. O título da pesquisa foi “A Cara Brasileira” e a idéia era levantar um perfil nativamente brasileiro e indicar formas de como reforçar nossas tendências culturais e utilizá-las positivamente na criação de verdadeiras marcas nacionais que façam sucesso no mundo todo.
Ótima leitura. Uma parte introspectiva da leitura é a lista e a discussão dos principais pontos fracos do Brasil. Achei construtivo compartilhá-los aqui.
ATENÇÃO: é possível que alguém se sinta ofendido com um ou outro ponto descrito aqui. Vale lembrar que não estou expressando nenhuma opinião inicial minha e sim o resultado do estudo com o qual, eventualmente, concordo em quase sua totalidade. Caso você caia na categoria de “ofendido” por favor junte-se a mim no grupo daqueles que realmente gostaria que o Brasil fosse um lugar diferente!
Ranking dos pontos fracos do Brasil Em ordem decrescente de importância (mais importantes primeiro)
1) Falta de auto-estima
Valorizamos tudo (e talvez apenas) o que vem de fora. Mesmo que seja ruim: se veio de fora é bom. Temos, por exemplo, pontos turísticos sensacionais no Brasil que valem muito mais do que uma viagem para a Europa mas lá está aquela fila gigantesca de brasileiros indo para Miami todos os anos. Empresas nacionais são desacreditadas mesmo que seus produtos sejam superiores. A questão que paira na nossa mente é “por que vou gastar mais com um produto nacional se posso comprar um importado?” E as empresas nacionais nem se motivam a fazer nada melhor simplesmente porque não vão conseguir vender nem mesmo na “própria casa”. No setor de software, empresas Indianas que são consideradas bem inferiores do que Brasileiras se instalam no Brasil com ares de “importadas” e fazem a festa.
2) Falta de confiança nas autoridades e no governo
A nossa confianca é tao pequena - principalmente se o objeto de confianca é o governo que quase é difícil comentar. Mesmo assim, confiamos pouco em qualquer autoridade. Partimos do pressuposto de que “se alguém chefe, alguma coisa de errado ele vai fazer”. Aqueles acima de nós estão sempre errados na nossa visão e, embora sintamos isso, raras vezes expomos o que achamos. Não confiamos naqueles “monstros” que estão acima de nós e “vai lá saber que maldade bizarra eles podem fazer conosco!”.
3) Desprezo pela técnica
Adoramos fazer tudo nas “coxas” (até inventamos um termo para isso!). Quanto mais simples, mais rápido e mais barato algo for, melhor! Para que comprar o melhor se podemos comprar muito mais unidades do pior (ou “menos melhor”)? Para que contratar uma faxineira de uma empresa homologada com todos os aparatos de segurança, seguro saúde, impostos pagos se podemos pagar bem pouquinho para alguém só dar uma limpadinha em casa? Podemos sempre comprar o mais barato. E apertamos nossos fornecedores até os olhos deles ficarem esbugalhados. Queremos sempre o menor preço (o qual chamamos de erroneamente de “melhor preço”). Aquele em que provavelmente o fornecedor esteja perdendo dinheiro. Se o fornecedor precisar ignorar normas de qualidade, de segurança, durabilidade ou qualquer outra coisa para alcançar o nosso objetivo, tudo bem. O que importa é vender mesmo que sem técnica nenhuma.
4) A idéia da malandragem
A malandragem vem principalmente como necessidade de tirar vantagem de tudo, sobretudo em detrimento dos mais humildes. É a lei do “Gerson” (também inventamos um termo para isso!). E nos orgulhamos quando fechamos um negócio onde usamos nossa malandragem: “comprei esse carro muuuuito barato: o cara estava enforcado porque a mulher dele estava morrendo no hospital… estava desesperado para ver qualquer grana!” Ou ainda o inverso “consegui vender esse meu carro para um trouxa que não percebeu que o motor estava para estourar”. E saindo do universo automobilístico “vamos manter esse cara como estagiário pelo máximo de tempo que ele aguentar”.
5) Escassa divulgação do trabalho cultural brasileiro em todos os setores
Nem nós mesmos sabemos e/ou apreciamos o trabalho cultural brasileiro. Veja os filmes. Filme bom brasileiro só mostra desgraça. Não gritamos para o mundo com orgulho sobre nossa produção cultural - aquela positiva, criativa, colorida! A boa música brasileira ficou na história - lá longe - e substituímos por uma produção musical tenebrosamente sensual, grosseira e mau-vista em praticamente todos os lugares. As pichações de rua em SP são um produto cultural fantástico e internacionalmente aclamado mas nós odiamos tudo aquilo.
6) Personalismo arrogante, que se coloca acima da lei
A lei não existe no Brasil. Todos nós sabemos disso. O que existem são os desejos pessoais de alguns poucos que se colocam acima da lei. Esses poucos normalmente são aqueles que possuem meios financeiros para distorcer a lei (ou distorcer qualquer um que esteja no caminho - mesmo que algumas pessoas precisem ser “distorcidas” literalmente) para os seus próprios interesses. Desculpe se você ainda confia que alguma instituicão democrática funciona. Se você está nessa categoria, precisamos de mais pessoas como você.
7) A convicção de que todo mundo engana, só para ganhar mais dinheiro
Chega a ser até mais que uma convicção: é quase uma certeza. O governo está sempre nos enganando para conseguir mais dinheiro. Os bancos também. Nossos empregadores estão sempre nos abusando e estamos sempre abusando dos nossos empregadores. Independente de essas enganações estarem ou não acontecendo, nós temos a certeza absoluta que elas estão.
8) Ignorância como “profissão de fé”
Nos orgulhamos de situacões tristes: “Se eu consegui ganhar dinheiro sem ler um livro, então… para que estudar?”. Se o indivídio for malandro e conseguir enganar os outros - melhor ainda. O que importa é ser esperto mesmo que ignorante. A esperteza está acima da nossa necessidade de sermos menos ignorantes. Comentamos algo como “aquele mecânico é bom pra caramba e não sabe nem ler” e adoramos explorar os serviços dele quando o resto do mundo fala em usar realidade virtual nas oficinas para dar fácil acesso a todos os manuais de todas as partes do carro ao mecânico sem que ele saia de baixo do carro. Mas o nosso não precisa disso. Fica muito caro. Talvez por isso que ele tenha uma vida miserável. Mas “azar dele” pensamos nós como nossa tendência de colocar os interesses pessoais acima de qualquer coisa (ponto 6 acima).
9) Desonestidade em nome da família e dos amigos
Quando alguma desonestidade é realizada em prol de família e amigos, simplesmente aceitamos. “Era para a família dele, coitadinho”. E fazemos muitas desonestidades em nome da família e dos amigos. “Por que vou ajudar os mais compotentes a subirem na carreira se posso ajudar meus amigos”? Aceitamos o nepotismo descarado sem fazer nada. “Mover os pauzinhos” para ajudar algum conhecido ou parente é sempre bem visto e aceito.
10) Falta de compromisso em relação aos acordos firmados
Não temos responsabilidade com nossos acordos muito menos se forem só em palavra. E não estou falando simplesmente de contratos quebrados. Pequenas coisas. Falamos algo como “depois te mando esses documentos” e esse “depois” nunca chega. Nunca cumprimos prazos. Também não cumprimos com orçamentos. Sempre estouramos em prazos e orçamentos. “Para que ter compromisso com isso?” pensamos.
Conclusão O assunto “brasilianidade” sempre me atraiu e talvez a distância da terra faça com que o assunto se pareça ainda mais atrativo principalmente porque olho ao redor, absorvo o que é bom e me questiono “por que não podemos ter certas coisas no Brasil?” Com um pouco de estudo é possível encontrar “porquês”. Mudar a tendência só depende de nós.
