Relatório Finlândia - Parte IV

Ambiente de Trabalho

Aqui um ponto delicado de se tratar. Delicado porque tenho muito que aprender e ambientes de trabalho também estão sempre condicionados ao universo específico que você está vivendo. Mesmo assim alguns pontos que me parecem universais vale a pena mensionar.

Primeiro, impressionante o nível de respeito que existem entre os profissionais. Enorme. Quase que não dá para enxergar as barreiras hierárquicas que são tão claras, bem demarcadas e reforçadas diariamente no Brasil. Exemplo muito prático: já percebi que toda terça-feira é o dia que a faxineira limpa a área que onde estou alocado. É um evento. Todo mundo pára totalmente de trabalhar ao mesmo tempo, recolhe as bagunças das mesas e saem para dar espaço para a faxineira limpar. A idéia é que ela é uma profissional como qualquer outro e está lá para fazer o nobre trabalho dela. Eu nunca veria um alto diretor saindo de sua sala no meio de uma reunião para dar espaço para a moça da limpeza aí no Brasil. É bem provável que ele peça para ela realizar alguma atividade humilhante inclusive (como limpar as marcas de sapato sujo que ele acabou de deixar no carpete).

Outro ponto interessante é a carga horária. Nada de neguinho se matando até às 20 da noite não. Isso é ultrajante para eles – sinal que o trabalho não foi feito corretamente, no tempo certo. Dá 15 horas da tarde e o pessoal vai indo embora. 16 da tarde geralmente já não tem mais ninguém no prédio inteiro. Às 17 inclusive você é obrigado a sair porque o sistema de seguranca trava. Então já consigo ouvir nossa mentalidade desesperadamente workaholic gritando: “ah… mas eles devem chegar super cedo”. Realmente…. a partir das 7 e meia da manhã o pessoal vai chegando, mas o pesado mesmo chega entre 8 e 9 horas. Não sei dizer se a melhor descricão seria que eles são preguiçosos. Na verdade me parece mais que eles são eficientes, afinal um PIB per capita 15 vezes maior que o Brasileiro deve significar alguma coisa. Mas tenho muito que aprender ainda.

O horário de almoco é algo que me incomoda mais do que eu esperava. Explico: não existe o conceito de horário de almoço. Não tem aquela coisa do pessoal falar “vamos lá rangar” e sai todo mundo junto por 1 hora (ou mais) para almoçar, falar mau do chefe, parar na banca de jornal e depois voltar. Aqui o pessoal vai saindo em prestações, sem comunicar nada para ninguém. Às vezes saem juntos mas é bem raro. A grande maioria nem sai para almoçar. E me incomoda nem tanto pela falta de alimento (que já é um problema) mas principalmente porque não existe aquele “momento social” para soltar um pouco a criatividade e a necessidade de contato social.

E último ponto que também me parece universal: secretária para cada diretor? Para cada departamento? Às vezes duas, três secretárias como temos aí? Nem morto! Uma secretária para um site inteiro. 100, 150 pessoas com apenas uma secretária. Todo mundo compartilha a mesma secretária e ponto final. Nada de “ganhar” uma secretária quando sobe de posto. E a garota dá conta do trabalho. Sai às 15:30 todos os dias.

Estilo de Vida

Acabei espalhando várias características da cultura e estilo de vida dos Finlandeses no resto dessa série de relatórios mas alguns pontos vale dar uma aprofundada e concentrar aqui.

Os Finlandeses são bastante reservados e presam pela sua privacidade. Nada de muita proximidade nem física, nem emocional ou mesmo simplesmente informacional. Por exemplo, se você, Brasileiro esquecido, acaba perguntando sobre algum detalhe bem genérico da vida da pessoa, pode ser mau-interpretado e encarado como uma pequena aberração. Cruzei esses dias com um conhecido na rua no horário da saída dos escritórios indo em direcão ao centro da cidade. Depois de alguns dias perguntei para o rapaz se ele morava no centro uma vez que o tinha visto casualmente na rua. Ele não gostou muito da minha “intromissão”.

Mesmo assim, não estranhe se algum Finlandês te convidar para ficar nu com você enquanto ficam trancados numa salinha quente e úmida onde vocês dois poderão suar juntos por algumas horas. Sim, a sauna é bastante popular - a esse ponto. Conta a lenda que, no passado, era o único cômodo aquecido da casa e utilizado também para o banho. Daí surgiu o costume peculiar de ficar todo mundo peladão tomando um “banho” no cômodo “quente” da casa. Fora a esquisitisse desse costume, o processo pode ser até relaxante se você realmente não se importar de ter outras pessoas peladas e suadas ao seu redor conversando sobre assuntos diversos como se nada estivesse acontecendo. Dizem que uma ótima estratégia de negociação Finlandesa é levar os negociadores, principalmente os estrangeiros despreparados, para uma reunião na sauna (tenho que lembrar de fazer isso na minha próxima reunião no Brasil…). Aparentemente o resultado é sempre alcançado: deixar o estrangeiro constrangido.

Outro fato marcante na cultura Finlandesa é o alto consumo de bebidas alcólicas. Eles possuem o maior consumo per capita por ano do mundo de álcool. É triste. Principalmente porque fomos acostumados culturalmente no Brasil que o alcolismo é danoso e enxergamos as pessoas que sofrem desse mau como indivíduos que requerem cuidado especial. Aparentemente o conceito aqui é diferente. Encher a cara é culturalmente bem aceito e não parece haver distinção de idade, sexo ou classe social. O pessoal bebe mesmo. Quintas, sextas e sábados de noite principalmente mas os bares permanecem abertos e com clientes ao longo da semana também. É bem comum ver pessoas bêbadas na rua. A diferença é que elas não ficam desmaiadas no chão porque congelariam - talvez. Estão sempre caminhando. Quem acompanha Fórmula 1 talvez entenda porque o Kimi Raikonen precisa de um “médico/babá” para evitar que ele fique bêbado.

Outras obviedades incluem o fato de o custo de vida ser alto e a distribuição de renda mais igualitária. Sobre o custo de vida é fácil explicar. Pense assim: se uma coca-cola custa 2 R$ irá custar 2 € aqui (lembrando que o € está normalmente em 2,4 R$). Para alguns produtos a regra não se aplica e vamos nos acostumando aos poucos com isso. Algumas coisas extremamente baratas no Brasil aqui são caras. Roupa ou uma bicicleta por exemplo. O inverso também é verdade. Suco de caixinha ou uma TV são baratos aqui. Já a distribuição de renda igualitária requer uma pausa. Mudemos de parágrafo.

Temos uma certa mania de citar uma “distribuição de renda igualitária” com a boca cheia mas não faz parte da cultura Brasileira entender esse conceito na prática. Na prática significa que todo mundo tem uma renda muito parecida, ou seja, nada de explorar sua empregada pagando um salário de fome, nada de expremer um certo fornecedor tentando extrair o menor preço dele e nada de viajar para Miami no fim do ano acompanhado de outros abastados enriquecidos da classe média ou mais. Se não ficou claro, vou reforçar: isso significa que as pessoas tem padrões de vida realmente no mesmo patamar - e isso significa um patarmar mais baixo. Tantos anos influenciado pela completa exploração e opressão aos mais fracos que mau consigo entender como a sociedade aqui se equilibra no fim das contas.

A cidade

Mapa Oulu

Oulu, com seus 130 mil habitantes, é uma cidade pequena e simpática. É considerada a quinta maior cidade da Finlândia e a maior do norte (uma das maiores cidades próximas ao pólo norte do mundo). Ela está localizada na costa noroeste da Finlândia e faz margem com o estreito de Bótnia (entre a Finlândia e a Suécia). De carro, a Suécia não é muito longe e algumas pessoas daqui vão até a Suécia fazer compras às vezes.

O apelido da cidade é “Valkoinen Kaupunki” ou “Cidade Branca” devido ao fato de os invernos serem bem rigorosos e cobrirem a cidade com seu manto branco.

Oulu é considerada o centro de tecnologia e excelência da Finlândia – praticamente um pequeno vale do silício. Quase todas as empresas de tecnologia ou nascem aqui ou estão aqui por algum motivo. O maior motivo obviamente é a Nokia que possui vários centros de desenvolvimento e engenharia na região.

Como a cidade é pequena, tem sempre aquela chance mentalmente inviável para um paulistano de encontrar as mesmas pessoas várias vezes ao dia ou mesmo em outros dias - na rua! E geralmente ou elas trabalham na Nokia, para a Nokia, em alguma coisa perto da Nokia ou são parentes de alguém nessas condicões. (Isto posto, não deixem de comprar celulares Nokia – que são bem superiores à concorrência inclusive – para manter a pacata vida dessa simpática cidadezinha congelada).

Uma das maiores universidades da Finlândia está aqui e o forte dela é mesmo as ciências exatas e tecnológicas portanto é bem comum ter jovens morando e vivendo por aqui então não chega a ser uma cidade tão morta, fria e acabada como aparenta no início. A idade média dos profissionais nas áreas tecnológicas também é baixa então tem muitos jovens adultos nos arredores.

Algumas coisinhas são muito bem cuidadas em Oulu. Existem muitos parques, florestas e pontes sobre a rede de riachos, rios e o próprio mar que abraçam a cidade. Tudo muito bem cuidado e com caminhos muito agradáveis mesmo no inverno. Dizem que o verão é simplesmente lindo. Estou esperando. O costume local de utilizar bicicleta como meio principal de transporte também é muito interessante. As calçadas são adaptadas praticamente como ciclovias e o fluxo de pedestres, bicicletas e carros funciona impecavelmente bem tanto pela infraestrutura como pela própria educacão dos transeuntes. Todos os semáforos de pedestres são adaptados com aparato para travessia de cegos e isso acaba praticamente viciando: depois de algum tempo você já atravessa as ruas sem nem ver se o semáforo de pedrestres está aberto ou não.

Embora seja uma cidade pequena, não falta por aqui acesso à praticamente todas as grandes marcas de produtos e serviços. Igualmente que não faltam acessos aos servicos do governo e demais amenidades da vida moderna (incluindo uma enorme biblioteca pública e um teatro construídos sobre o mar). A prefeitura também financia uma das maiores redes públicas de acesso à internet sem-fio do mundo. São mais de 600 pontos de acesso, incluindo pontos fixos e alguns móveis também. Para tornar a experiência mais multimedia, separei alguns links interessantes:

  • Fotos de Oulu - fotos interessantes da cidade.
  • Vídeo sobre Oulu - a prefeitura fez esse videozinho para motivar as pessoas a não abondanarem a cidade…. (brincadeira: é só um vídeo promocional mesmo).
  • Fotos diárias de Oulu - embora nem sempre atualizado, esse fotógrafo local tenta colocar uma foto por dia na internet
  • Webcam ao vivo do Centro - essa webcam mostra, ao vivo, o ponto central da cidade próximo à nossa casa. Se tiver uma paciência absurda pode dar a sorte de ver um de nós passando em algum momento. No mínimo, dá para vocês saberem como está o clima.
  • Webcam rotativa ao vivo - esta é uma webcam ao vivo que fica mudando de lugar na cidade. Atualmente (12/04/07) ela está na rua de casa apontando para a estacão de trem. Passo por aí todos os dias de bicicleta pelo menos duas vezes. Se quiser me ver é só ficar monitorando a câmera entre 2AM e 4AM ou 10AM e 12AM (horário de Brasília).
  • Oulu em 360 graus - alguns pontos da cidade em panoramas de 360 graus.
  • Pinturas de Oulu - galeria de arte de um artista local que pinta cenários da cidade.

Conclusão

Estamos praticamente engatinhando num terreno totalmente desconhecido. Os impactos são claros a cada dois passos que damos. Alguns são impactos para melhor outros, para condicões que não gostaríamos de passar, e ainda outros para condicões que temos que passar simplesmente porque não estamos acostumados com elas.

De qualquer forma, mesmo tirando todo o custo financeiro da mudanca, ainda sobram o custo emocional e mental que são bem altos e às vezes dá uma impressão que mergulhamos num mar bem rebelde com um peso de 50Kgs amarrado aos pés.

Até o momento temos passado por isto com a ajuda inestimável de pessoas adoráveis como os capitães Leandro e Martta, Rodrigo e Déborah e os majores Paulo e Anneli Franke sem os quais talvez fosse impossível um princípio de adaptacão palpável.

Tiago Luchini · 12 Apr 2007 · finland