Relatório Finlândia - Parte II
Arquitetura
Embora dei um nome bonito para esta sessão a idéia é relatar um pouco de como as casas, prédios e ruas são organizadas. Pelo menos isso, debaixo da neve, é uma das primeiras coisas que se nota em algum lugar novo.
O estilo arquitetônico das construcões é bem europeu e pouco criativo. Você não vê muitos prédios diferentes ou altamente modernos/incomuns como os que vemos no Brasil. A tendência para os prédios é sempre uma predominância de linhas retas, cortes quadrados e eventualmente alguma maracutaia para encaixar uma varanda ou algum outro ângulo mais “agressivo”. Algumas obras mais antigas e menos práticas resistem para fins culturais e históricos.
Para ter uma idéia mais ou menos entre em http://pohjois-suomi.safa.fi/sights/oui.html um site simples sobre as “grandes” obras arquitetônicas de cidade de Oulu. Se clicar em “Centre” poderá ver o terceiro prédio chmado de “Vakuutustorni and Kassatalo” que é onde moramos. Para um feeling mais “moderno” escolha no menu o link “Linnanmaa”.
Aliás, duas coqueluches nas moradias Finlandesas são a varanda e a sauna. Ter uma sauna é quase tão obrigatório quanto para nós é ter uma lavanderia no apartamento. Inclusive um detalhe cruel: eles não tem o conceito de lavanderia nos apartamentos. Exatamente. A idéia deles é que você lave suas roupas no porão onde uma lavanderia coletiva pode ser utilizada investindo-se uma soma de dinheiro para “alugar” os equipamentos por algumas horas. “Mas a máquina demora para lavar a roupa” você deve estar se perguntando. Exatamente: ou você deixa a máquina lá sozinha com suas roupas ou fica de babá até ela acabar. E “ai de você” se não tiver troco exato para a máquina (que só funciona com raríssimas moedas de 20 centavos).
Depois de lavar você precisa secar as roupas, certo? Os Finlandeses dão duas solucões para este problema: ou invista mais moedinhas de 20 centavos para utilizar também a máquina de secar, ou pendure no varal público e vá embora. Volte depois de alguns dias para pegar a roupa seca.
A idéia toda não é das piores mas alguns banheiros às vezes são adaptados para acomodar uma lava-roupa pequena exatamente porque a tendência da lavanderia comunitária deve estar diminuindo. Mesmo assim, não encontrar aquele cantinho da casa ou apartamento com um tanque, espaco para uma lava-roupa e varal para pendurar as roupas molhadas é bem estranho.
Já a sauna não pode faltar ou, quando falta na moradia, é sempre possível encontrar uma coletiva no porão ou sótão. Aliás, me disseram que o direito à 1 hora de sauna por semana é defendido por lei para qualquer cidadão Finlandês. A sauna é feita de madeira e contém no seu interior um aquecedor normalmente elétrico sobre o qual repousam algumas pedras. Você liga o aquecedor, espera uns 20min, e a sua sauna já estará em, pelo menos, uns 60 graus positivos (não recomendo acima de 90 graus por uma questão de sobrevivência). Daí você, sua família e seus amigos sentam peladões sobre as escadinhas de madeira e comecam a jogar água sobre as pedras. A água evapora instantaneamente, umedece o ar com um vapor flamejante que eles tem até uma palavra para nomeá-lo: löyly. No fim das contas você fica suando por todos os póros do seu corpo com seus amigos e aquele vapor subindo do forno a cada jogada de água que alguém dá.
Se você gostar realmente do “esporte” pode também combinar a existência da varada com a sauna e sair na varanda peladão para “tomar um ar fresquinho” lá fora. Não me arrisquei a fazer isso com nenhuma temperatura abaixo de -4 graus ainda. Posso garantir que é, no mínimo, uma experiência interessante. Dizem os Finlandeses que isso “deixa você mais resistente”. Não duvido.
Outras coisas nas casas são diferentes também. Principalmente aquelas pequenas coisas que nos incomodam. As portas, por exemplo, são geralmente colocadas do lado contrário que estamos acostumados. Explico: pense na porta da sua casa, quando você chega em casa e vai abrí-la, normalmente faz para qual sentido? Para dentro ou para fora?….. Você deve ter respondido para dentro, certo?. Perceba como essa regra normalmente se aplica a praticamente todas as portas que você se lembra aí no Brasil. Entre num banheiro, num quarto, num cômodo qualquer… você sempre vai empurrar a porta para dentro. Aqui a regra não se aplica. Na verdade parece existir uma regra diferente. Portas para entrar nas casas ou nos banheiros são sempre puxando para fora e não empurrando. Outras portas parecem seguir essa regra também mas esse foi o único padrão que consegui identificar até o momento.
Ainda sobre portas. As fechaduras são estranhas. Parecem inseguras - aliás o que não deve ser um problema por aqui. Mas as chaves são em semi-círculo e “rodam” dentro de uma abertura redonda. Não satisfeitos em fazer um bagulho totalmente bizarro a direcão de rodar para travar ou abrir é ao contrário da nossa (já esqueci de trancar a porta do banheiro público simplesmente porque fiz o movimento contrário do que o necessário).
Banheiros aliás, também merecem destaque especial. Os misturadores (que nós chamamos normalmente de torneiras aí no Brasil) são bem peculiares. Água quente e fria é encontratada em qualquer torneira e o misturador funciona com uma alavanca com 2 eixos onde um eixo controla o volume de água e outro controla a temperatura. Existem algumas outras variacões ao invés da utilizacão de uma alavanca mas o conceito é sempre o mesmo: um eixo controla o volume de água e o outro controla a temperatura. Achei isso muito confortável até porque se repete também nos chuveiros, ou seja, os banhos podem ser verdadeiras duchas de água quente. Só colocar o eixo da temperatura no ponto que desejar e abrir confortavelmente o volume de água no outro eixo. Nada daquelas gotinhas frias ou perder a temperatura conforme aumentamos o volume de água.
Outros destaques nos banheiros são a ausência total de janelas e de uma (ou mais) lixeira(s). Sim, para jogar fora papéis sujos depois de utilizados o costume presa que seja direto na privada (o que seria um sacrilégio nos nossos banheiros no Brasil aqui, entretanto, é obrigatório – sacrilégio aqui é guardar o papel sujo num saco do lado da privada - seria ultrajante para eles). A ausência de janelas, por outro lado, é bem estranho. Para lidar com os odores, existe um sistema de respiro que eles chamam estranhamente de ar-condicionado.
Pelo menos os banheiros normalmente são azuleijados e com interruptores relativamente normais para acender as lâmpadas (o que não ocorre em outros lugares do mundo onde já estive). O que atrapalha um pouco é que o interruptor do banheiro, em alguns lugares, fica do lado de fora de banheiro. Isso realmente é meio estranho e ainda não entendi a motivacão. Talvez seja para a pessoa apertada do lado de fora simplesmente desligar a luz e fazer com que algum demorado saia rapidamente para não ficar na total escuridão de um banheiro pequeno, sem janelas e sem luz.
Os Finlandeses também têm uma incrível habilidade de fazer plantas de apartamentos sem muito sentido. Uma mania estranha é colocar degrais entre as portas. Acho que o objetivo é fazer as pessoas tropecarem e viverem menos estressadas com a monotonia de uma vida sem tropecos. Outra mania esquisita é colocar os cômodos em lugares onde não esperaríamos: banheiros que você precisa cruzar algum quarto para acessar por exemplo, cozinhas exprimidas num canto, cômodos enormes só para passagem e assim por diante.
Carros e Trânsito
Migremos agora para as ruas. A frota de carros da Finlândia é atualmente a mais antiga da Europa. A carga tributária é enorme, os salários pequenos, os custos altos, enfim… tudo isso para concluir que tem muito carro velho na rua. A idade média parece que é de 10 anos ou mais, me disseram.
Mesmo assim, muitos carros novos passeiam pela cidade e, como todos ficam sujos por questão da neve e da areia do chão, todos parecem igualmente feios e mau-cuidados. Um ponto interessante é o fato que os carros diferem muito de modelo e cor. Muito mesmo. Acho que acostumei no Brasil, ou pelo menos em São Paulo, porque não creio que isso seja assim em todos lugares, mas você normalmente olha na rua ou num estacionamento e vê uma série de modelos iguais - assim estava acostumado. É verdade. A gente não percebe isso normalmente mas, olhe para um estacionamento e veja quantos Corsas você vê, quantos Kas, quantos Unos e isso não acontece só com os carros populares. Os carros mais caros também têm às pencas: Corollas, Civics e Vectras têm em todo lugar.
Na verdade isso é tão comum aí que é totalmente possível termos exatamente o mesmo modelo e a mesma cor de carro do que conhecidos nossos (não cabem nos meus dedos das mãos quantas vezes aconteceu isso comigo). Aqui é raro ver dois carros do mesmo modelo no mesmo dia. Quanto menos da mesma cor. Não é exagero. Quando vejo um Ka ou Civic por exemplo, normalmente dou um suspiro de familiaridade e isso aconteceu 3 vezes em mais de 30 dias.
Não tentei dirigir ainda na neve (e talvez demore a tentar). Me parece muito perigoso. Os proprietários de veículos são obrigados a trocar o jogo de pneus por um específico de inverno durante o período mais frio do ano. Os pneus de inverno possuem ranhuras e o que me parece serem pequenas garras metálicas para aumentar a aderência. Mesmo assim os carros sempre derrapam na arrancada. O mesmo acontece na frenagem. Mesmo com esses problemas, eles andam relativamente rápido mesmo sobre neve em paralelepípedos. Dá medo só de assistir às pequenas derrapadas na arrancada e na frenagem.
Como o diesel é combustível permitido para carros de passeio aqui (e vale lembrar que não existe álcool e gás natural como estamos acostumados aí) alguns carros que conhecemos bem no Brasil são vendidos com opcão à diesel. Isto posto, é realmente bem estranho ouvir o motor daquele Classe A ou daquele Audi lindo, novinho, rodando com barulho igual àqueles caminhões que vendem produtos de limpeza aí no Brasil. Se aquele BMW vêm por trás sem você perceber, dá até para imaginar aquela vozinha do vendedor gritando: “Vamo lá dona Maria, detergente de côco a 3 real”).
As regras de trânsito são relativamente iguais às nossas (nada de andar na contramão como os Britânicos por exemplo). Diferencas estão no enorme respeito ao pedestre (se estiver verde para o pedestre os carros páram mesmo que esteja verde para eles – se não houver semáforo, páram mesmo assim) e nas regras para os cruzamentos sem semáforo. No Brasil temos uma das vias sempre com prioridade sobre a outra. Aqui a prioridade é de quem vem pela direita – sempre, em todos cruzamentos. Como pedestre, demora alguns dias para se acostumar com o fato que você pode atravessar mesmo que o carro esteja vindo. Me dava sempre a impressão que o cara me atropelaria ou me chingaria, ou os dois. Aqui, até os motoristas de ônibus páram só para você atravessar. Mesmo que isso bloqueie todo o trânsito que vem atrás. Ninguém reclama.
Também é interessante o fato de multas serem pessoais. Dessa forma, se um passageiro não está usando sinto-de-seguranca, ele é multado pessoalmente e não o proprietário do veículo. Muito justo.
Ruas e autoestradas quase nunca tem buracos ou imperfeicões. Na verdade ainda não achei nenhum buraco e olha que praticamente cruzei o país de norte a sul. Viajar dirigindo é muito agradável. Mesmo que existam longos trechos de mão-dupla, existem vários pontos de ultrapassagem com duas faixas e um respeito muito grande ao óbvio. Exemplo: se você está andando na velocidade da pista, pode fazê-lo tranquilamente na faixa da direita enquanto a faixa da esquerda fica livre aos mais apressados.
Como o país é bastante plano, também existem poucas subidas e descidas, serras e afins. Dirigir na estrada é praticamente segurar o volante e cuidar para seu pé não adormecer.
