Relatório Finlândia - Parte I

Introdução

Como gosto de ser bastante prático e detalhista, fui escrevendo um texto agrupado por sessões de interesse ao longo desses mais de 50 dias desde que chegamos aqui perto do papai-noel. Fui notando e anotando uma série de pontos que gostaria de comentar e quando sentei para escrever percebi que a lista é relativamente grande, então, como diria o esquartejador, vamos por partes.

O texto completo ficou obviamente bem maior do que deveria para um leitor comum e, embora eu tenha a remota esperança de que algum parente ou amigo leia pelo menos 50% dele, não vou ficar chateado se você não ler. Só vou te responder com o mesmo link toda vez que você me perguntar como vão as coisas…. hehehe

Como o conteúdo desse texto é relativamente atemporal não há muito espaco para comentar especificamente sobre as nossas mais recentes atividades então vou resumir em: estamos todos sobrevivendo senão vocês já teriam recebido o convite para o enterro… hahaha. Fora isso o Ian já está na escola, eu estou trabalhando e Fabiana correndo atrás das burocracias principalmente para começar a estudar o que esperamos que ocorra em breve.

Clima

Sei que esse é um dos tópicos mais ricos dessa nossa mudança de um país tropical como o Brasil para um país Escandinavo com clima Nórdico, quase Polar, como a Finlândia.

Realmente o frio daqui é muito frio. Quando chegamos em Oulu a temperatura de boas-vindas estava em -22 graus Celsius. O bom é que ainda tivemos uma semana inteira para experimentar -30 graus no tempo mais frio.

O sistema de calefacão das casas funciona muito bem e a temperatura interna varia entre 18 graus e 30 graus (positivos, vale lembrar). Lidar com a temperatura externa entretanto, é um desafio. Descobri esses dias que, trabalhadores braçais que trabalham no exterior (pedreiros, carregadores, etc.), só podem trabalhar até -17 graus Celsius. Abaixo disso só trabalham aqueles que efetivamente se voluntariam.

O principal truque para não morrer congelado é vestir várias camadas de roupas. Algumas das camadas devem ser mais apropriadas para a sua funcionalidade. Ex.: a camada mais próxima ao corpo deve ficar bem colada. Como se fosse um pijama apertado. Já a camada externa precisa ser de algum material para cortar o vento e eventualmente a neve.

O calçado também precisa de cuidado especial. É comum usarmos coturnos e botas com forro por dentro. Isso porque andar sobre a neve pode ser um desafio dependendo da consistência da mesma. Quando muita gente passa por determinado traçado a neve vai ficando “batida” e bem firme. Às vezes a grossura dessa camada chega e ser bem espessa (vários e vários centímetros). Essa neve é um pouco escorregadia às vezes mas passam caminhões deixando pedregulhos e areia para aumentar a aderência. Ou seja, depois de um tempo a neve das calçadas parece mais um caminho na praia do que efetivamente aquela neve branquinha bonita que esperamos encontrar.

Por outro lado, existem alguns pontos nas ruas que não possuem muita frequência de pessoas caminhando por sobre eles. Seja porque são pequenos atalhos ou caminhos apertados em parques, etc. Os caminhões de terra e pedregulho passam poucas vezes ou até mesmo nunca nesses caminhos. Aí a neve tende a ficar fofa e. Se você não cuidar onde pisa, acaba com neve até a canela (ou até o joelho se você der azar e for muito sem noção).

Uma última parte do corpo que precisa ser citada é a cabeça. Cobrir com dois, três ou até mais gorros, cachecóis e o que mais lhe for possível pode ser recomendado. Mesmo assim algumas partes da cabeça certamente ficam no frio. Exemplo: nariz (você ainda precisa respirar), ouvidos (ouvir se um carro está vindo na sua direção é recomendável – principalmente quando ficar virando a cabeça não é muito possível com tanta roupa) e principalmente olhos (embora você fique desesperado por uma forma de aquecer os olhos, ela ainda não me parece existir).

Dessa forma, os dois principais problemas são olhos e nariz. Os olhos dóem para piscar. Literalmente. A impressão é que eles estão congelando e, dependendo do frio, seus cílios congelam mesmo. O nariz é outro caso à parte que ainda estou tentando resolver. As narinas chegam a congelar conforme você respira. Nesse processo você fica com feridas enormes se não cuidar. Uma coisa impressionante sobre o clima aqui é o fato de o ar ser extremamente seco. Muito, mas muito seco. Acho que ainda faltou um destaque aqui: é muuuuuuito seco. Mesmo com toda a neve (que em tese é úmida) o ar é impressionante seco. A ponto de você se sentir constantemente como se estivesse com a cara colada num ar-condicionado. Os lábios racham, a garganta está sempre com sede e os dedos ressecam. A boa notícia é que a toalha está sempre seca de noite quando você vai tomar banho.

De certa forma, o “secor” é ruim para o corpo mas faz com que os problemas oriundos do frio sejam mais contornáveis. Exemplo: secar a neve derretida dos casacos e demais roupas seria infernal num tempo úmido e precisaríamos de muito mais roupa.

Sobre a neve em meio ao processo de cair do céu: aqui vivem alguns sentimentos controversos meus. Sabe aquelas pessoas que vivem mais para o interior do continente e nunca viram o mar? Imagine o maravilhoso momento quando elas vêem o mar pela primeira vez na vida. Elas contemplam aquela beleza criada por Deus e ficam extasiadas com a grandeza e a maravilha que a natureza traz.

Quando neva é mais ou menos assim para nós Brasileiros-que-nunca-vimos-o-mar… digo a-neve. Mas só quando neva “bonito”. Explico: tem dias que a neve é assustadora. Venta muito e neva muito, às vezes flocos pequenos, feios, mirrados ficam vindo todos numa direcão só e rapidamente como numa tempestade cruel e congelante. Agora tem os dias que a neve encanta. Quando os flocos são grandes e caem suavemente, quase que pousando sobre as coisas, cobrindo o mundo com uma suavidade mágica. Nesses dias, seja olhando pela janela ou mesmo do lado de fora, dá aquele aperto no coracão de alegria de presenciar um espetáculo tão lindo de Deus (fora a possibilidade de agradecer o fato de a never ser branca, porque se ela fosse rosa ia ficar muito boiola).

Aqui a previsão do tempo é importante (não que não fosse no Brasil, mas só me lembro de olhar a previsão por aí lá pela quinta-feira para saber quanto de sol ia fazer no sábado e domingo ou se ia chover). Aqui é bom ficar sempre de olho em como a coisa vai desandar. Todas as casas têm termómetros para indicar a temperatura externa (modelos mais avancados marcam também a temperatura interna, máxima, mínima, umidade, vento e etc). Basicamente, é sempre bom olhar para a temperatura antes de colocar qualquer roupa. Isso porque olhar pela janela não serve. Neve com -30 e neve com -10 é tudo igual visualmente mas a roupagem para os dois cenários é bem diferente.

Além da temperatura tem outra variável peculiar: o vento. Oulu é uma cidade costeira e onde venta muito. Isso atrapalha a percepcão do frio. -10 graus com vento dá uma sensacão térmica de uns -20 ou menos. -30 com vento então é pedir para ser congelado. O frio atravessa suas 3 camadas de roupa e você efetivamente sente frio. Muito frio. É cruel.

Agora estamos entrando na primavera então o cenário começa a mudar. Primeiro problema aparentemente é andar sobre a neve em constante estado de “melequês”. Os coturnos e botas ajudam emboram são muito feios. Na contra partida, é gostoso rever o chão de novo e até caminhar em pequenos trechos de asfalto ou qualquer outro piso que não seja gelo com areia. A natureza também começa a responder e algumas árvores vão esverdejando aos poucos. Muito agradável.

Esses dias, depois de praticamente 3 semanas sem neve, voltou a nevar forte por algumas horas. Esfriou bastante também. Um velhinho me encontrou no elevador e sorrindo me disse numa mistura macarrônica de Finlandês e Inglês: “bom, bom, bom…. verão finlandês”. Vamos ver…

Tiago Luchini · 6 Apr 2007 · finland