Cultura e Língua

Qual a relação direta entre cultura e língua? Até que ponto uma interfere na outra e vice-versa? Quanto da língua transparece na cultura ou quanto da cultura transparece na língua?

Não é um assunto simples para meros mortais como eu mas certamente ecoam comigo sociólogos, linguístas e assimilados ao afirmar que: ambas são intimamente ligadas entre si.

Exemplo bem simples e direto disso é a expressão que utilizamos no nosso Português Brasileiro: “quanto você ganha?”. Normalmente dirigimos essa indagação quando queremos saber qual a remuneração financeira que a pessoa recebe em troca do seu trabalho. Claro que, pela lei do menor esforço, não é nada prático perguntar: “qual é o valor em moeda corrente acertado entre você e seu empregador em troca da sua prestação de serviços mensais?” - simplesmente ficamos com “quanto você ganha?” e já estamos felizes com isso.

Interessante aqui é a utilização do verbo “ganhar”. Ganhar tem basicamente dois sentidos fundamentais: aquele do “receber alguma coisa de outrém” quando dizemos “ganhei um presente de minha mãe” ou o sentido do “vencer determinada disputa” como em “ganhamos o jogo de futebol no sábado”.

Na pergunta sobre a remuneração tanto um dos sentidos quanto o outro ficam enviesados. É errado dizer “recebi alegremente meu salário como presente dado pela empresa onde trabalho”. Também é incorreto dizer “terminada a batalha do meu mês, venci e recebi meu salário”.

É válido comparar esta questão com a contrapartida em inglês. Nossos parentes do norte se perguntam: “How much do you earn?” - o qual, em tradução literal significaria grossamente: “Quanto você merece?”.

O verbo utilizado (“earn” - merecer) traz um sentido bem diferente tanto para a pergunta quanto para a resposta. Responder “eu mereço tantos mil por mês” à pergunta “quanto você merece?” com certeza traz uma carga semântica bem diferente do que nossos termos brasileiros.

Note que diferente não significa necessariamente bom. Mas certamente que a relação de um cidadão médio americano com a sua remuneração é bem diferente do que a de um cidadão médio em terras tropicais. Talvez por isso que o american padrão saiba valorizar suas funções cobrando altos salários porque, afinal de contas, ele merece! A própria língua dele diz isso. Em contra-partida, o funcionário brasileiro se contenta com o quanto ele ganha. Ganha como beneplácito de um superior patriarcal. Um presente que deve ser alcançado no fim do mês.

Talvez por isso que os nossos irmãos do norte usem tanto a expressão “Let’s make money!” (“Vamos fazer dinheiro!”) quando querem estimular o faturamento pessoal ou coletivo. A responsabilidade é chamada para o indivíduo: “you make money” (“você faz dinheiro”) - “quanto é isso?”, “quanto você vale?”.

No Brasil, a expressão “vamos fazer dinheiro!” significou algo bem diferente na nossa super-inflação das décadas de 80 e 90!

Tiago Luchini · 29 Nov 2006 · filosofando