Por que jogamos?
Há três décadas brinquedos, jogos e video-games eram exclusividade de crianças e pré-adolescentes. Hoje, entretanto, há uma existência cada vez maior de adultos que ainda apreciam brinquedos e afins. Seria isso algum novo distúrbio social? Alguma espécia de nova tendência? Seria reflexo de uma prolongação da fase infantil sobrepondo parte da vida adulta ou simplesmente uma mudança de paradigmas?
Tendo estas perguntas resposta ou não, fato é que o mercado soube aproveitar muito bem a onda e produzir uma série de produtos direcionados para o crescente público de jovens adultos e adultos não tão jovens. Ao longo dos últimos 30 anos, os brinquedos infantis se especializaram na criança per se e em determinada fase do seu desenvolvimento e uma outra linha cada vez mais elitizada de brinquedos foi tomando espaço para atender aquelas crianças que cresciam e continuavam investindo no setor. Alguns investidores perceberam isso e investiram pesado em RPGs (Role-playing Games), Card Games e video-games para um público cada vez mais velho, cada vez mais adulto.
Hoje alguns jogos e video-games são tão realidade na vida de muitos adultos que é praticamente impossível desassociá-los dos momentos de socialização e entretenimento. Prato cheio para uma indústria milhonária que continua crescendo explorando exatamente os espaços de socialização (criando jogos que suportem cada vez mais jogadores – não necessariamente no mesmo espaço físico inclusive) e entretenimento (implementando novas mecânicas, recursos visuais e sensoriais em geral).
Dentro desse macro-setor de entretenimento infantil que envoluiu para um público adulto existe um setor com desenvolvimento tardio: os jogos de tabuleiro. Interessantemente, os jogos de tabuleiro foram provavelmente os primeiros jogos de entretenimento criados pelo ser humano. Jogos milenares como Go, Gamão e Xadrez popularam mesas de castelos por vários séculos até chegar aos nossos dias.
Talvez até por esse histórico diferenciado, os jogos de tabuleiro demoraram muito para evoluir como solução de entretenimento dos jovens adultos e adultos adaptados a essa nova realidade social dos dias de hoje.
O mercado está começando a correr atrás do prejuízo e centenas de títulos têm sido lançados anualmente principalmente para atender um público europeu e, com maior popuaridade, alemão.
Novos jogos de tabuleiro surgiram nos últimos 10 anos com mecânicas inovadoras, diferentes, buscando maior interação entre participantes, com um número maior de jogadores e fáceis de aprender e jogar. Temas criativos também passaram a embasar estes jogos. Ao invés da abstralidade de um Gamão, temas de fundo apoiam uma jogabilidade específica seja a temática baseada em mundos fantásticos, situações históricas, conquista espacial ou até eleições. O importante é levar o jogador para dentro do tema a que se remete.
Ademais, jogos sem tema, chamados abstratos, também continuaram com seu espaço, evoluindo com maestria a partir dos clássicos.
Independente do que esses adultos modernos jogam, seja video-game, RPG ou os tardios jogos de tabuleiros, a questão da motivação por trás da ação continua ativa: por que um adulto prefere um jogo como opção de entretenimento perante uma gama de outras opções?
Desafios superados
A resposta pode estar dentro da própria necessidade humana de um desafio. O homem é um ser evoluído e precisa estar constantemente quebrando certas barreiras mesmo que elas sejam impostas num ambiente lúdico, fictício, simulado: mesmo que seja um jogo.
Para as pessoas que encaram os jogos como desafios, o fato de jogar e poder superar algum problema a ser resolvido já lhes é motivo de extrema satisfação. Essas pessoas tendem também a buscar competidores que se igualem às suas capacidades ou que sejam ainda melhores. Neste caso o prazer está em superar o desafio imposto pela alta capacidade do oponente.
Superar os desafios não significa obrigatoriamente destroçar os adversários. Uma vitória por poucos pontos, uma superação pessoal ou até uma derrota onde desafios importantes foram vencidos já traz para estas pessoas um alto nível de satisfação.
Uma série de jogos convidam os jogadores a superar desafios sejam de forma isolada, de forma cooperativa ou até de forma confrontal (aqueles onde quem vencer os desafios de melhor forma é recompesado com a vitória).
O jogo é vencer
Vencer também é um grande atrativo para muitas pessoas. Para elas, derrotar um adversário traz a adrenalina e a emoção que tanto agrada. Geralmente estes jogadores estão presentes para vencer e não para competir. Jogadores assim normalmente esperam o mesmo tipo de atitude do adversário, afinal, de que vale ganhar de quem não quer ganhar?
Competições são muito fortes nos jogos até mesmo reforçando a nossa característica animal de caça e de sobrevivência do mais forte. Boa parte dos jogos traz uma boa quantidade de competição principalmente naqueles onde existem temáticas de guerra, luta ou disputa esportiva onde só um jogador “sorevive” até a vitória.
Diversão em primeiro lugar
É preciso lembrar do próprio entretenimento em si. Muitas pessoas apreciam jogar pelo simples fato da diversão que o jogo traz. Pessoas com esse perfil preferem jogos simples, rápidos, leves, de fácil assimilação e que tragam algum toque de humor de preferência. Para elas é mais importante se divertir com algo bem direcionado e sem muita complicação do que vencer ou superar algum desafio: o que importa é a diversão acima de tudo.
Muitos jogos são direcionados para este público e normalmente requerem muito pouca experiência dos jogadores e podem ser jogados de forma prática e rápida. São comumente chamado de “fillers” (do inglês “preenchedores”) porque preenchem o tempo de forma bastante agradável e sem complicações.
Socialização
Os jogos trazem consigo a própria necessidade do social. É inevitável jogar com um grupo sem ao menos interagir com os outros jogadores, encontrando amigos e conhecendo novas pessoas.
Para algumas pessoas o contato social e a interação entre os jogadores torna o jogo algo de menor importância: conversar, colocar o papo em dia e dar risadas com os amigos vale mais do que mil vitórias.
Alguns jogos estimulam a interação seja por meio de negociações ou outras necessidades específicas do tema - normalmente até premiando aqueles que interagirem melhor. Ademais, muitos jogos simples e divertidos também são apreciados por pessoas que visam a socialização.
Jogar é aprender
Uma grande linha de jogos seja por motivos intencionais ou não, acabam por servir como uma ótima plataforma para o aprendizado e educação. Os jogos podem ser usados para aprender algum princípio lógico, estratégico ou matemático além de servir para ensinar e transmitir conceitos, filosofias e metáforas específicas que podem ser facilmente adaptadas à realidade.
Também não são poucos os jogos com um fundo histórico tão palpável que acabam por ensinar valiosos preceitos históricos e muitas vezes até geográficos. As ciências também não ficam de fora e até o aprendizado de outras línguas nas constantes navegações que os jogadores precisam fazer entre seus jogos preferidos.
Que mundo é este?
Muitas pessoas enxergam nos jogos uma oportunidade de se desligarem temporariamente dos problemas e aflições da sua vida. O jogo se torna um mundo pessoal onde novas e instigantes opções se abrem. Essas pessoas conseguem facilmente utilizar os jogos como válvula de escape para aprender a lidar melhor com as frustrações do mundo que as cerca.
Poucos jogos foram criados para fins terapêuticos tão específicos mas se destacam aqui aqueles jogos com uma alta necessidade de criatividade, dedicação e interação provavelmente no cumprimento de algum papel específico. Outros jogos também conseguem atender a este público ao embasar fortemente em temas populares ou altamente atraentes.
Tudo isso junto
É bem certo que estas não são as únicas motivações envolvidas. Certamente que outras características podem atrair e, acima disso, combinar para as reais motivações individuais no momento da escolha de um entretenimento. Alguém pode muito bem estar buscando ansiosamente a vitória ao mesmo tempo em que mergulha no mundo do jogo como estratégia escapista dos seus problemas. Outra pessoa pode ansiar por superar seus desafios pessoais enquanto aprende algum conceito novo.
Enfim, dizer exatamente o porquê que adultos jogam em detrimento de outras opções de diversão é praticamente impossível. Pode ser qualquer combinação dos itens descritos acima ou até de outros não descritos. Fato é que, adultos jogam cada vez mais e que a tendência é continuarem fazendo-o enquanto a sociedade evoluir como o faz atualmente.
Até o momento, conseguir agrupar todas as características de um bom jogo em outro entretenimento, ainda não foi alcançado por ninguém. E observe que os Chineses já tinham descoberto isso com o Go há milênios!
